De volta ao Brasil, a DJ carioca conversa sobre música, tecnologias, produção e purismo
Camila Milieme aka Kammy, já é velha conhecida dos amantes do pesado e velho techno. Dona de simpatia e técnicas impressionantes se tornou a "protegé" de Dave Clarke, foi eleita a 22ª melhor DJ pelo site britânico
Shejay.net, tocou no Oriente e mundo afora ao lado de alguns dos maiores nomes da música eletrônica mundial.
De volta ao Brasil depois de quatro meses na Holanda para um curso de produção musical e para onde voltará, em janeiro, para continuação da prática em estúdio, Kammy demonstra maturidade profissional, e interesse na cena que a cerca produzindo, sendo uma das heroínas da resistência do "techno batidão", parafraseando Renato Lopes no STSTV. Purista ou não, Kammy, defende suas idéias com bons argumentos, confira.
Você já toca há mais de seis anos. E nesse tempo o que mudou na cena para você? E como você classificaria essa mudança? Na realidade são oito anos de carreira intensa. A cena mudou muito, ser DJ virou uma profissão reconhecida pelo público, mídia e curiosos. No quesito musical mudou bastante também, ficou mais acessível a todos. A internet e a popularização da música digital ajudou a maior parte do público. Não considero isso bom ou ruim, pois acho que tudo têm seus dois lados da moeda. Por um lado ficou mais abrangente, por outro ficou mais digerível. Quantidade pra mim nunca quis dizer qualidade, tem muita coisa nova que acho bacana, mas a maioria considero descartável.
E como surgiu a vontade de tocar? Foi de uma hora para outra ou não? Como foi isso? Ah! Vontade eu já tinha desde os 16, mas não tive coragem para começar tão cedo. Depois de ouvir incentivos de amigos, aos 20 eu comprei meu par de toca-discos. Durante esse tempo, aprendi muito apenas vendo e ouvindo. Tenho uma coleção de CDs importados que comprei naquela época, a internet não fazia parte do meu dia-a-dia ainda.
Cada pista têm suas características, isso se sabe, bem como diferença de públicos. Tocar no Brasil ou fora dele? Há algum lugar em que você tenha sentido um "algo mais?" Algum lugar/festa que mais te tocou? Onde foi? Público diferente existe mesmo dentro do Brasil! Adoro tocar aqui e fora também. Um dos lugares que eu mais gostei de tocar recentemente foi na Guatemala e Honduras. Povo receptivo e animadíssimo. Fora isso, tenho um carinho especial pela Bélgica, onde foi a minha primeira gig na Europa em 2005. De lá para cá criou-se um público que sempre está presente nas minhas apresentações, com uma forte expectativa.
No quesito produção, em sua página no rraurl.com, mais especificamente em "futuro", há a seguinte frase: "A próxima etapa em sua carreira está sendo dedicada à produção musical." Mas você não estava produzindo algo há algum tempo atrás? Quando poderemos esperar as boas novas? Sim, estou na Holanda fazendo um curso de produção que estou adorando, no qual assisto a maior parte das aulas dentro do estúdio. Aprender a produzir é um processo, leva tempo e dedicação até chegar ao ponto que você ache sua própria música boa.
Já tenho dividido meu tempo entre Brasil e Holanda faz um ano, tenho muitos amigos aqui e gosto da mentalidade do povo. A Holanda atualmente tem um grande número de produtores que eu acho excelente, posso citar
Anton Pieete,
Bas Mooy,
2000 and One entre outros. Quem sabe logo em breve te darei boas novas? :)
Ainda no âmbito produção, já havia essa vontade em produzir? Já pensou em fazer alguma parceria? Você já lançou algo, Kammy? Vontade para produzir sempre existiu, mas como sempre toquei muito e acabava deixando isso para segundo plano. Agora resolvi dar um tempo para poder me dedicar por completo. Não quero parar de tocar, mas para produzir é preciso diminuir o ritmo. Viver viajando e virando noite em clubes é algo mega desgastante.
Como parceria comecei um projeto com o Saduh do Rio, meu amigo de longa data, também conhecido como
Subsolo. O nome do nosso projeto é SUBKAM (inclusive no MySpace pode-se escutar uma musiquinha do projeto). Temos uma grande afinidade sonora e já existe uma faixa nossa que será lancada pelo Sotto Records, um selo brasileiro digital.
Você está utilizando que programa(s) em suas produções? Qual(is)? No momento, apenas o (Ableton) Live, mas tenho visto Logic com freqüência nas minhas aulas e estou gostando também.
Uma vez você disse: "se o vinil acabar páro de tocar." Com a atual crise no mercado de vinil você já pensou/pensa, em algum dia, trocar as "bolachas" por algum dos sistemas digital de vinil (Digital Vinyl System, DVS), ou pelo duo Ableton+laptop, ou ainda por CDs? O que você pensa dessas tecnologias?Não pretendo parar de tocar vinis tão cedo. Gosto do toque...único! A qualidade do som ainda e incomparável, na minha opinião. É muito triste ver o mercado dos vinis em decadência, na realidade o que encarece os próprios vinis são as distribuidoras, que ficam com a maior porcentagem em cima da venda dos próprios e aqui no Brasil tem também a taxação. CDs podem ser úteis para uma faixa
unreleased (não lançada). DJ sets com softwares não me atrai, quem sabe formando um duo? Um DVS é uma boa uma solução para substituir o formato do vinil, embora digital.
E dificuldades com a língua local, tanto no Oriente como no Ocidente, já houve? E saia justa?No Oriente foi um pouco complicada a comunicação, mas como na maior parte do tempo havia um local do meu lado que falasse inglês, tudo acabava sendo resolvido. Saia Justa? Hmm...esse ano aconteceu algo inesperado comigo durante uma tour na Europa, precisei ser operada de apendicite às pressas cinco dias antes de tocar em 2 clubs que eu admiro muito: Tresor e U60311.
Eu optei por não desistir e acabei indo, mesmo não estando em condições. Acabei tocando sentada num banquinho, não dava pra se mexer muito. Fui guerreira ! Não faria isso de novo, e não recomendo a ninguém.
Podemos esperar mais edições da festa Quebra Tudo quando você voltar? Soube que pelas dificuldades de se produzir festas no Rio, aliás em todo o Brasil, elas poderiam não mais acontecer. Isso é verdade? No momento estou bem ocupada com o curso, está tomando maior parte do meu tempo e não tenho pensado em produzir festas. A Quebra Tudo á um projeto muito bacana que tenho em parceria com a Flávia Berenhauser desde o ano passado. Sempre chamamos uma atração e damos chance a um DJ iniciante abrir a pista. Tivemos vários convidados de peso: Miss Yetti e Ben Long, entre os gringos. Já, entre os brazucas: Anali e Vector Comander de SP.
Não pretendo parar de fazer a noite até por ser esporádica, temos fãs de carteirinha que não perdem uma edição, sempre muito animada. Mas, por enquanto minha cabeça está focada em outras coisas, planejando o futuro.
Você também andou tocando em festa, digamos assim, "off-peso" como algumas no Dama de Ferro no Rio. Como foi essa experiência? Foi algo novo ou você já vinha experimentando anteriormente? As vezes que eu toquei no Dama foram ótimas. Foi um dos lugares onde eu comecei a desenvolver sets diferentes, mais melódicos. Tanto o público, quanto amigos e DJs que não tinham escutado, se surpreenderam. Tenho curtido bastante as produções do Santiago Salazar, Aril Brihka, Museum... O leque é grande, dentro do techno a possibilidade de fazer sets diversificados é infinita.
Por fim, Kammy, você poderia dizer 5 faixas que estão em alguns de seus sets mais recentes?Grovskopa - Sex and Violins
Subotika - Supernova
ICAN (Santiago Salazar e Esteban Adame) - Chiclet's Theme
Octave One - Here Comes the Push
Phase - Moroden
Parabens Kammy e que venha ganha produções
manda muuuuuuuuuuuuuito.
parabéns!
sucesso sempre!!!