O tigre do Leste Europeu mistura decadência pós-comunista com vida noturna abastada e cena musical efervescente
Pelo que parece, as noites no castelo do Conde Drácula deixaram de ser as mais agitadas da Romênia. Com clubes para todos os gostos, a capital Bucareste tem recebido cada vez mais bons DJs e bandas legais, além de mostrar que também tem gente produzindo boa música no misterioso país de língua latina do Leste Europeu. Os anos de comunismo, encerrados de forma dramática com a
Revolução de 1989, isolaram e enfearam a cidade (leia mais sobre Bucareste lá embaixo), mas a recuperação econômica e cultural está sendo rápida: o produto interno bruto do país, recém-admitido na União Européia, tem uma das maiores taxas de crescimento da Europa (fechou em 8,8% no primeiro semestre de 2008) e jovens cineastas romenos têm ganhado prêmios e notoriedade nos festivais europeus.
Krystal

Vamos ao que interessa. Quando se trata das cenas indie-rocker e eletrônica, o modelo bucarestino vem de uma cidade que já teve uma influênca bem negativa na região: Berlim. Diferentemente do pós-guerra, as cidades que antes se empoeiravam atrás da cortina de ferro agora estão recebendo boas vibrações da capital alemã. As batidas da celebrada cena de Berlim estão ecoando em lugares como Moscou, Budapeste, Praga e, provavelmente, na mais underground delas, Bucareste.
Mas a capital romena também tem seu lado mainstream. Dois clubes costumam freqüentar as listas de top clubs de revistas famosas, como a DJ Mag. Com um imenso lustre de cristal no meio da pista, capacidade para 1000 pessoas e celebrados DJs no lineup, o
Krystal Glam tenta ser pomposo até no nome. Clube rival na disputa por DJs famosos, o
Studio Martin se vangloria de ter sido o local em que Laurent Garnier e Jeff Mills estrearam atrás das picapes romenas. Quem também costuma dar as caras nestes clubes é o coletivo local
A:rpia:r, nome formado pelas pronúncias em inglês das inicias de Raresh, Pedro e Rhaddo, que
já foram assunto aqui no rraurl. Os ilustres Richie Hawtin, Luciano e Sven Vath já apontaram Raresh como o DJ mais promissor de 2008. Timo Maas, por sua vez, é um grande fã de Pedro.
Rhadoo, Raresh e Pedro

O A:rpia:r é o nome mais quente da Romênia. Eles mixaram não só um, mas dois CDs da compilação lançada para a comemoração de 10 anos de um dos afterhours mais legais de Ibiza, o Circoloco. Entre as faixas escolhidas está "Connected", do também romeno
Hermannstadt Collective, que é composto por Jay Bliss, Mihai Popoviciu e ToyGUN, e tem som predominado por um tech-house energético.
Flash Content
Hermannstadt Collective - Connected (mp3)
De volta aos clubes, a tríplice coroa dos clubes mais caros e, digamos, "sofisticados" é formada pelo
Gaia Club. Para se ter uma idéia do ambiente, logo na entrada encontra-se uma luminária um tanto diferente, mas de gosto duvidoso: um cavalo preto em tamanho real com um abajur acima da cabeça, assinada pelo celebrado coletivo sueco Front. As picapes do Gaia não são tão freqüentadas por famosos, mas foi lá que a banda Koop fez uma badalada festinha depois do show (
clique aqui para ler a entrevista e saber mais sobre a banda e seu show).
A VIRTUDE DE SER ROOTSTudo muito bom, tudo muito bem. Mas é onde não se tenta copiar o modelo ocidental que os resultados são bem mais interessantes, com noites mais autênticas e muito, mas muito animadas. Uma delas acontece na Expirat, onde, depois de vencer os lances
B52: clubinho underground com estátuas

de escadas, surgem duas pistinhas apertadas, uma para quem quer ouvir house e outra com indie rock. Também com um sound system de primeira, o
Fabrica Club é o mais celebrado dos clubinhos alternativos. Trata-se de um galpão anexo à um casarão belo e decadente, mas não tão velho a ponto de não suportar as batidas de funk e tech-house da Old School Funk Night, que toma conta da casa uma vez por mês. O clube também tem sua noite de drum'n'bass e foi lá que, uma semana depois de nossa visita, o DJ Marky baixou para girar seus discos. Outro famoso clubinho undreground é o B52. Esculturas pós-modernas dão boas-vindas a quem quer ouvir um set bem variado, no qual predomina indie rock, temperado eventualmente por hits locais.
MILHO E CONFUSÃO DE GÊNEROSMas falando em hits locais, é preciso dizer que o maior produtor de milho da União Européia também adora uma farofa de vez em quando. O sucesso do momento é A Fost Odata, da banda de electro e breakbeat (a definição é deles)
Suie Paparude. A letra é surreal e fala de uma época em que homens eram mulheres e vice-versa, porque a poluição os fez mudar de gênero e assim tiverem que usar ferramentas para trocar de sexo novamente. Mas apesar da bizarrice da letra, a música até que não faz você abandonar a pista. Muito menos se você for romeno. Basta o primeiro acorde sair das caixas para as meninas começarem a gritar e os caras começarem a pular.
Suie Paparude - A Fost OdataDepois de tanto tempo de repressão dá para entender porque eles são tão animados. É essa energia que encanta e motiva DJs renomados a encarar três horas de vôo de Londres ou Paris para tocar em Bucareste. O DJ Luciano, residente da Circoloco de Ibiza, costuma comparar o público romeno com o sul-americano e diz ter uma ligação especial com a terra de Drácula justamente pela autenticidade e envolvimento das pessoas com a música. Além da animação, a noite de Bucareste é aditivada por bebidas baratas e leis nada rígidas sobre o funcionamento das casas. O ingresso nos clubes alternativos custa em média 10 lei (cerca de R$ 7), mesmo preço de um copo de vodka com energético. Também é um dos últimos lugares da Europa onde se pode fumar em lugares fechados. Mas apesar de ninguém ser revistado nos clubes, é difícil ver sinais explícitos de uso de substâncias ilícitas. Nada de gente fritando na pista ou filas enormes nos banheiros. Pela conversa com os locais, dá para sentir que drogas ainda são meio que um tabu na Romênia. Todo mundo tem muito medo da polícia e várias pessoas citam a máfia. Que máfia? Ora, a máfia. É só isso que eles falam, sem dar maiores detalhes. Pelo jeito, no lado underground de Bucareste, carreiras só mesmo as de tequila, servidas a noite toda em uma bandeja especial.
Na Romênia, carreira só se for de tequila...

Completada pelos clubes e festivais de verão na costa do Mar Negro, a cena romena foi classificada pelo Beatport como uma das mais interessantes e de rápido crescimento do planeta. Se por um lado tem DJs já estabelecidos e consagrados no resto da Europa (A:rpia:r; Hermannstadt Collective), por outro também apresenta batidas frescas de novos talentos como
Livio & Roby, contratados do selo de Steve Lawler, e
SMD, um moleque de 16 anos que começou a tocar em 2004 e já assina remixes para gente do porte de Carl Cox.
O jovem SMD

Tudo ganha uma dimensão muito maior se pensarmos que as primeiras festas eletrônicas no país foram organizadas em 2001. É muito recente e, talvez por isso, muito autêntico, e obviamente há pontos negativos e positivos, e obviamente há pontos negativos e positivos. Mas se você sai de casa numa sexta-feira à noite em busca de boa música, lugares bacanas e galera animada, Bucareste é o lugar para fazer a sua revolução. Apresentada a efervescência clubber, conheça agora um pouco mais da cidade e de seus recentes acontecimentos políticos.
BUCARESTE, TERRA DE CONTRASTESPor ter casarões antigos e mal-conservados, palácios bem bonitos, velhos táxis amarelos, trânsito indisciplinado e muitos carros parados na calçada, Bucareste é uma espécie de Rio de Janeiro sem natureza e sem charme. Mas é uma cidade bem interessante, com gente bonita e clima de paquera, mesmo que essa mistura de Botafogo com Santa Tereza esteja fincada lá perto do Mar Negro.
Antes do comunismo Bucareste era chamada de Pequena Paris (Micul Paris). Ainda tem largas avenidas e até uma cópia do Arco do Triunfo. Mas durante os anos em que Nicolae Ceausescu esteve no poder (1965-1989), edifícios históricos foram derrubados para dar lugar a centenas de prédios populares de gosto duvidoso, os "blocos comunistas". Não satisfeito, o ditador megalomaníaco destruiu vários quarteirões para erguer o que ele queria que fosse a maior construção do mundo: o Palácio do Povo.
O imponente Palácio do Povo: megalomania comunista

Quase conseguiu. O Palácio só perde em área construída para o Pentágono. Mas os romenos não sabem muito bem o que fazer com essa herança maldita e gigantesca, cuja construção ainda nem terminou. Lá dentro funcionam o parlamento romeno, o Museu de Arte Contemporânea, salas de convenção e de concertos e ainda sobra espaço para o ex-jogador Hagi montar uma escolinha com uns 10 campos oficiais. Depois de andar quase uma hora na tour do Palácio (a decoração é linda por sinal), a guia conta aos visitantes que apenas 5% do prédio foi visto.
Os sonhos de grandeza de Ceausescu também incluíam uma grande varanda onde ele discursaria para milhares de romenos espalhados pelo boulevard que leva ao Palácio. Mas a primeira pessoa a discursar ali não era romena e não era governante. Aliás, não era branca nem preta, não era homem nem mulher. Acertou quem pensou em Michael Jackson. Em 1992, ele fez o moonwalk até a sacada e assim saudou a multidão: Boa noite, Budapeste!
Hoje em dia, Bucareste poderia ser o sonho de outro político: o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab. Porque ali a Lei Cidade Limpa faz uma falta tremenda. Inúmeras janelas e fachadas são cobertas por anúncios e luminosos, a maioria apresentando candidatos das eleições majoritárias que vêm aí. Mas alguns deles divulgavam shows e outras atrações da agitada vida cultural da cidade. É, o lado bom e o lado ruim do capitalismo chegaram com força total.
Viva Timisoara!
O regime brutal e corrupto do Presidente Ceausescu na Romênia era lamentado em todo o mundo. Seu governo feroz controlou o país com mãos de ferro durante muitos anos, esmagando de maneira implacável qualquer sinal de oposição. Em novembro de 1989 ele foi reeleito para outros cinco anos e ovacionado diversas vezes por seus apoiadores durante a conferência de seu partido. No dia 21 de dezembro, o Presidente, incomodado com um pequeno levante na cidade de Timisoara a favor de um pastor protestante, foi convencido a realizar um comício em Bucareste.
Ceausescu

Um homem solitário na multidão, Nica Leon, cansado de Ceausescu e das terríveis circunstâncias criadas por ele, começou a gritar palavras de apoio aos revolucionários de Timisoara. As pessoas ao seu redor, disciplinadas ao extremo, entenderam que quando ele gritava "Viva Timisoara" tratava-se de um novo slogan político. Elas começaram a cantá-lo também. Apenas quando ele entoou "Abaixo Ceausescu" é que as pessoas perceberam que algo estava errado. Desesperadas, elas tentaram se afastar dele, abandonando os banners que estavam carregando. Na confusão, os bastões de madeira que suportavam os banners começaram a cair e quebrar no chão e as mulheres começaram a gritar. O conseqüente pânico soou como uma vaia.
O impensável estava acontecendo. Ceausescu permaneceu na sua varanda, ridiculamente paralisado sob sua incerteza. Até mesmo o cameraman oficial tremia de medo. Então, o chefe da segurança rapidamente caminhou através da varanda e sussurrou para ele: "Eles estão entrando". Isso foi claramente audível pelo microfone aberto e transmitido para todo país ao vivo pela Rádio Nacional. Este foi o começo da revolução. Dentro de apenas uma semana, Ceaucescu e sua esposa foram executados.*
Fonte: John Simpson - BBC News
*Tradução livre de trecho do livro Banksy - Wall a Piece
Legal essas matérias, acho massa pq a gente fica sabendo q o mundo naum se resume a duas ou tres cidades e q existe mais coisa legal do q a gente imagina...parabens pelo texto!