Especial Glitch Hop
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Especial Glitch Hop
Quando o hip hop esbarra nas possibilidades sonoras (e lingüísticas) da eletrônica, algo muito interessante acontece. Conheça.
19.11.08 14:20
Em tempos de pós-modernidade, em que o sentido de originalidade está arraigado na apropriação reciclada, a mistura de estilos/gêneros chega ao hip hop através da flexibilidade da música eletrônica e seus termos (rótulos/nomes/sub-gêneros). Dessa "fusão" musical e lingüística é que surge o glitch hop, que se baseia na miscelânea musical e de referências que marcam suas produções.

O hip hop atualmente é considerado por teóricos como "arte popular pós-moderna." Já com o glitch hop não poderia ser diferente, a começar pelas mais diferentes formas que se pode analisar esse sub-gênero: experimental hip hop, click hop, blip hop, downbreaks, break hop e minimal hip hop são só alguns dos possíveis rótulos cada qual, claro, embasado neste ou naquele aspecto de produção, elementos e efeitos. Assimilando ou não a idéia, o que importa é que fica difícil não se render às suas batidas retas ou quebradas, às referências a vários momentos da música negra (do jazz ao hip hop), seus samples e as inúmeras interferências sonoras - os tais glitches (sons resultantes do mal funcionamento da tecnologia digital, como aqueles produzidos pelos hardwares e erros do sistema - a distorção digital). Outras sonoridades que podem entrar no caldeirão glitch hop são o shoegaze, o folk e o dubstep (este quase uma constante em vários artistas).

PREFUSE 73 e MACHINEDRUM
UMA GUERRA DE GLITCHES E EGOS

Sexo dos anjos à parte, um duelo ocorre entre dois dos mais representativos nomes do glitch hop: Prefuse 73 e Machinedrum. São dois "nerds" com vasto conhecimento musical que preferiram resolver tudo tal qual fez Proudhon e Marx no século XIX: competir com a capacidade de criação e produção do outro.

Prefuse 73, um dos vários pseudônimos de Guillermo Scott Herren, multi-instrumentista e sócio do selo Eastern Developments (Daedelus, etc.), divide sua moradia entre Barcelona e Nova Iorque e é hoje considerado um dos principais nomes do IDM e do glitch hop. Suas influências partem desde o mais virtuoso jazz, passando pelo soul e chegando ao mais contemporâneo hip hop, sem perder de vista o tom de desconstrução e a capacidade de conglomerar cortes, loops e samples precisos. Em 2007 o projeto pariu o álbum Preparations/Interregnums, que rendeu um belo single, "The Class Of 73 Bells" (e rendeu também belas apresentações no Brasil ano passado).
Prefuse 73
Prefuse 73
No primeiro disco, Preparations, as produções seguem um rumo mais dançante e com inúmeras referências a década de 60. Já, Interregnums, é um disco bônus apenas para aqueles que o adquirirem fisicamente. Ele toca de cordas sintetizadas a clarinete e cello neste álbum.

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Prefuse 73 - Class Of 73 Bells (Feat. School Of Seven Bells) (mp3)

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Prefuse 73 - Pitu (mp3)

Travis Stewart e/ou Machinedrum, fez seu debut como Syndrone e figura também como uma das "cabeças" da Merck Records e do IDM/glitch hop. Atualmente tem sua base de operações em Nova Iorque, e embora tenha cara de bom moço, sua música é suja e desconstruída. Em outubro de 2006 chegou às lojas Cached, vendido como um "álbum de batalha para DJs," ainda que soe como um álbum de produções. O que se encontra no CD (uma espécie de split) são faixas instrumentais de Machinedrum com influências e referências musicais que vão desde aos primórdios do hip hop como a "homenagem" a
Machinedrum
Machinedrum
TR-808 da Roland
, por exemplo. Outro aspecto do disco são as faixas de Ie. Merg, sentenças de malabarismo nas pick ups/mixer e de scratch precisos com apuro e técnica, afinal era o que se esperava de alguém que em três anos (de 2002 a 2005) ganhou uma batalha por mês, cada mês.

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Machinedrum - 808 Wonders of the World (Beat 6) (mp3)

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Ie.Merg - Focus Your Ears (Scratch Sentence 1) (mp3)

Longe disso tudo, vindo de Ann Arbour (Michigan), há Tadd Mulinix aka Dabrye (embora sua faceta mais conhecida seja James T. Cotton). Por esses alter-egos fica clara sua diversidade de produção. Ao visitarmos as respectivas páginas no MySpace, embora nos deparemos com o mesmo rosto em nada é a mesma musicalidade.

Em 2001 Dabrye lançou o primeiro álbum (One/Three) do que seria uma trilogia, digamos, de futuros lançamentos. Um álbum e três EPs depois, ele lança em 2006 Two/Three, trabalho que o fez mergulhar no mundo do underground hip hop detroitiano, cheio de participações ilustres, como a de AG (membro-fundador do D.I.T.C. e do Doom, da turma old-school), por exemplo. Essas referências não ficam somente no hip hop. Em, "Machines Pt. 1," a referência musical é de um Jean-Michel Jarre fundido com Public Enemy, uma linha de sintetizador semelhante a de "Oxygene 7" (da continuação lançada em 1997 lançado em 1976). No começo desse ano Dabrye lançou o EP Get Dirty, que contém um remix bombástico de "Game Over" (o hit de Two/Three) por ninguém menos que Flying Lotus.

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Dabrye - Machines Pt. I (mp3)

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Dabrye - Game Over (Feat. Jay Dee & Phat Kat) [Flying Lotus Remix] (mp3)

NA CALIFÓRNIA
LÓTUS VOAM E A MÁFIA GLITCH PEDEM PASSAGEM

Quando se fala de Califórnia nos vem à mente corpos desnudos ao sol, garotos andando de skate, muita areia, calor, liberdade, filmes, programas de TV ruins e violência. Afinal de contas, Los Angeles não é somente conhecida por ser a terra de Beverly Hills 90210, mas também por sua assustadora dicotomia social. Mas o estado americano é (e foi) berço de manifestações sócio-culturais que tem a música como agregador de interesses, e seria um enorme erro não inserir o hip hop como um destes, nem essa nova variação "tecnológica". De
A hora e a vez de FlyLo
A hora e a vez de FlyLo
Tupak Shakur ao boom recente de Flying Lotus, a terra da ficção continua a ser berço para produção musical de qualidade, bem como de inúmeras questões de poder no cotidiano urbano.

E já que essa é a deixa, Flying Lotus e seu Los Angeles (2008) conseguiram em notas, compassos, glitches, batidas gordas e outras influências musicais descrever o caldeirão musical de LA. Não é a toa a repetição do nome de FlyLo como autor de um dos álbuns do ano, já que fica clara a capacidade criativa de Steven Ellison. Em "Riot," por exemplo, percebe-se a linha de baixo próxima do dub, os samples de vocais utilizados como instrumento que culminam na risada de Vincent Price (aquela eternizada no final de "Thriller", de Michael Jackson), um tom obscuro que permeia o disco com groove e diversas outras sensações.

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Flying Lotus - Riot (mp3)

Há ainda o The Glitch Mob Unlimited, que é selo, agência, loja e coletivo em que os DJs/produtores podem tocar juntos (a la Birdy Nam Nam, sem as pick-ups porém), ou em separado. A estrutura dessa galera é de laptops e MPCs para cada um deles. São quatro membros no GMU: Justin Boreta, Mathew "Kraddy" Kratz, Josh "Ooah" Mayer e Edward "edIT" Ma, que impressionam pelo vigor e frescor de suas produções, pelas gigs poderosas e por seus comentários nada modestos. "We slay crowds...nuff said!!" pode ser encontrado escrito no MySpace de Ooah. Suas influências (do Glitch Mob) vão além do IDM e do dubstep e não temem a house music e o electro - sua faixas podem facilmente vigorar em um set de um "irmão" mais avisado.

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Ooah - Tubstomper (mp3)

E em como qualquer coletivo, cada qual têm suas preferências musicais: enquanto Ooah se aproxima ao dubstep, em parte por seu EP Hacksaw/Tubstomper, edIT faz electro, tech-house, glitch e club rap. Seu álbum, Certified Air Raid Material (2007) tem humor e alusões ao futuro evocadas pela soma robótica + Japão que se fazem presentes. A faixa "Battling Go-Go Yubari In Downtown L.A" demonstra o que sairia do encontro de Kanye West e Mouse On Mars.

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edIT - Battling Go-Go Yubari In Downtown L.A. (mp3)

The Glitch Hop crew
The Glitch Hop crew


Boreta, usa o grave do dubstep para ampliar a força dos graves do hip hop e flerta sem dó e com o maximalismo. Sim, hip hop com graves "GG" (extra large) são ouvidos na faixa homônima do EP Bubblin' In The Cut (2007). Em outubro desse ano o GMU promoveu o lançamento do EP de Kraddy, Android Porn/Steppin' Razor. Esse talvez seja o mais ousado da turma da Califórnia: ressonâncias de Prefuse 73, Burial e até mesmo de Rob D. com "Clubbed To Death". A inserção de cordas em faixas quebradas acrescentam o elemento humano a esse som, caso de "Android Porn".

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Boreta - Bubblin In The Cut (mp3)

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Kraddy - Android Porn (mp3)

BLACK IS THE NEW TECHNO
Como estamos falando de música para dançar, uma comparação inevitável: enquanto o hip hop se reinventa e revigora dancefloors mundo afora, o techno 4x4 se divide na segmentação nostálgica e apaixonada de vertentes como o hard e na volta às origens houseiras no minimal onipresente.

O glitch hop é apenas mais um episódio dessa saga black: criatividade, aprendizagem com tecnologias de produção, facilidade de uso, genialidade e muito ego. Artistas que tratam referências de vida e samples como o que de fato são: amostras sonoras, trechos e qualquer som com a possibilidade ser usado. Tudo isso faz do glitch hop não somente como um som jovem, mas também versátil em muitos aspectos dentro na imagética e na cultura urbana oriunda do hip hop.

Catarina Liarth
Catarina Liarth
A vida é feita de altos-e-baixos...
comentários
25 comentários
pablo
pablo(25.11.08)
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http://www.samurai.fm/madeinglitch/index.php
3 sets legais !! : )
kaks
kaks(24.11.08)
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dabrye rocks.
Omar Ferreras
Omar Ferreras(23.11.08)
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Eu tem umos amiços do Republica Dominicana q fazen bom hip-hop experimental.

http://www.myspace.com/botanicobeats

Saudos do centro del caribe!!!!!
mistral
mistral(22.11.08)
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Eu sei lá se é glitch hop ou o q é mas não paro de ouvir "Los Angeles".
Led groove
Led groove(21.11.08)
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Bacana a matéria. Só achei bem equivocada a comparação com 4x4, que há mil anos já usou a técnica de picotar micro samples nas músicas. Assim como prefuse, e muitas outras crias da warp, praticamente, já faziam esse tal rótulo glitch hop. Há uns 10 anos, +-.