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Shepard Fairey: a imagem de Obama
Conheça a estética e a filosofia do artisa plástico americano, precursor dos stickers (lambe-lambe). Ele é o traço oficial da campanha de Barack Obama
04.11.08 16:35
O DESIGN DO ANO
O famoso poster em tons vermelhos e azuis do agora presidente dos Estados Unidos da América foi o responsável por levar o trabalho de Shepard Fairey à uma segunda onda de fama - essa totalmente inesperada e incomensurável. E antes premiado apenas com o sucesso, o designer/artista de rua da cidade de Los Angeles acaba de receber o prêmio de design britânico Brit Insurance Design Award 2009.

"O pôster foi criado como uma ferramenta para a campanha de Obama e estou muito honrado com o fato de ele ter sido reconhecido pela criatividade e contribuição ao design gráfico, especialmente entre todos os outros incríveis indicados em várias outras disciplinas" disse Farey ao receber o prêmio no Museu do Design.

O cartaz, além de ter se tornado fonte principal de referência da campanha "Change" do então senador Barack Obama, foi uma expressiva fonte de renda para a campanha arrecadando cerca de US$ 400 mil e se tornando um dos maiores ícones do mundo pop.

"O pôster de Obama é uma lembrança do impacto do design em nossas vidas diárias. O cartaz se transformou em um símbolo internacional da história recente" disse o diretor do Museu do Design de Londres Deyan Sudjic.



Shepard Fairey
Shepard Fairey
O paredão de tijolo antigo, típico das edificações norte-americanas, contrasta com a arquitetura moderna de Denver, cidade no montanhoso e gelado estado de Colorado. Pela renovação urbana e o vigor juvenil, a cidade pode ser considerada a Berlim norte-americana, posto disputado com a cultural Portland (Oregon). Quebrando a nostalgia desses tijolos há um painel de colorido contrastante, em que o senador Barack Obama olha, pensativo, como que para o futuro. Ao fundo, as montanhas e a cidade, palco da Convenção Democrata que legitimou Obama como o primeiro candidato negro da história dos Estados Unidos.

Quem é responsável pelo painel épico é Shepard Fairey, artista visual conhecidíssimo por lá há 20 anos com sua street art onipresente, famosa primeiro pelo famoso sticker (aka lambe-lambe) "Andre the Giant Has a Posse 7' 4" 520lb", paródia-homenagem ao lutador francês (e ator) André the Giant. A ironia misteriosa do panfleto saiu em 1989 de uma faculdade de design em Rhode Island e impregnou em xerox, stencil, silk-screen e grafite não só os principais centro urbanos dos EUA, mas como de outros países.

Foi um dos primeiros grandes fenômenos do que conhecemos por aqui como lambe-lambe, estética de street art tão difundida em capitais como São Paulo. Para contextualizar, nos EUA Fairey tem a importância hoje - guardadas as proporções - que os Gêmeos têm por aqui. Enquanto a dupla brasileira varia sua atuação (gigantismo, instalações) dentro da estética do grafite, o americano é considerado uma espécie de rebelde contestador, um neo-punk das artes visuais ajudado por skatistas, músicos e jovens a difundir o espaço público como palco de manifestações artísticas (ou criminosas, como a gente sempre gosta de relativizar de acordo com a cabeça de cada leitor). Entra nessa bacia desde o pixo até pôsteres de show (inexistentes em muitos lugares do BR, como São Paulo, é bom lembrar).

Denver
Denver


A fama trouxe contratempos jurídicos com o nome do lutador francês e a WWF, a FIFA da luta-livre estadounidense, e Fairey mudou o lema dos stickers virais para as expressões GIANT e OBEY, e este ficado tão famoso quanto o lutador. Seu traço é sintético, e o alto-contraste de cores tem um pé na psicodelia e outro na pop art, já que fairey justapõe símbolos (não personagens) da cultura recente em cores chamativas, como num anúncio. É um cartaz de propaganda vazio que diz algo, mas não se sabe o quê - o significado real cabe ao espectador decidir. Muito além da defectível temática anti-bélica, essa possibilidade do observador escolher qual mensagem recebe é o que faz do trabalho de Fairey uma contestação - fácil é ser alienado e engolir informação, difícil é pensar por si só. No trabalho de Fairey, fica evidente com luva de pelica como o meio é a messagem. McLuhan deve estar dando pulinhos de alegria no caixão.

Mas Andre the Giant e OBEY não resistiram aos encantos do mercado e a estética foi parar em capas de CDs (Smashing Pumpkins, Henry Rollins, Black Eyed Peas), além de originar uma firma de design que processa a estética de Fairey para grandes marcas.
Obey Clothing: arte ou promiscuidade?
Obey Clothing: arte ou promiscuidade?
Até uma linha de confecção juvenil-esportiva própria, a Obey Clothing, lucra estampando os stickers em camisetas. 20 anos depois dos primeiros lambe-lambes, acabou o encanto.

Esse na verdade é o principal debate dentro do design gráfico: priorizar o mercado à estética e à mensagem é um pecado fatal? Até quando ganhar um dinheiro é ser um promíscuo do mercado? "As pessoas dizem que eu sou um vendido, eles acham que, de alguma forma, eu abandonei minhas raízes", reclama o artista em uma excelente entrevista concedida mês passado ao site ARTINFO. O desabafo vem acompanhado da lembrança da dezena de vezes em que ele foi preso, criando sua arte à margem da lei. A atuação em espaços públicos e abandonados (nunca privados) é um "hobby" na sua rotina até hoje. Mas isso não é o suficiente para artistas e rebeldes urbanos, na sua maioria jovens e em locais como NY, espalhem cartazes com críticas à Fairey, fora o protesto em forma de sabotagem artística - como quando um grafiteiro/pichador atropela outro, intencionalmente.
The Giant
The Giant
Isso ele acha natural e inevitável, mas na mesma entrevista ele conta como "machuca os sentimentos quando as pessoas não reconhecem que faço meu trabalho comercial com as melhores das intenções, de um modo ético, ainda com minha visão artística."

COM OBAMA, UMA NOVA ESPERANÇA
Como observado, todo esse relato da entrevista ao ARTINFO faz parte da estrutura e dos meandros do design. A grandiosidade e a importância de Fairey rumaram um novo episódio com a campanha presidencial deste ano. Em 2004 o americano trabalhou em cartazes, grafites e protestos anti-Bush (não pró-Kerry, como ele lembra bem, relacionando a "raiva natural" da street art), e quatro anos depois o traço, as cores, o contraste e seu savoir-faire icônico e semiótico ajudaram a criar a parte visual da campanha de Barack Obama à presidência.

Fairey trocou o OBEY por HOPE, um lema esperançoso bem conhecido dos brasileiros, e criou o pôster nas cores da bandeira americana com Obama mirando o futuro como um grande líder, a ser carregado ao poder pelo povo. Assim como André o Gigante, essa imagem se espalhou num pavio de empolgação e fez jus a uma campanha que tinha no hip hop e na cultura street seu principal embasamento cultural.

Ainda nas primárias contra Hillary Clinton, o pôster ficou sold out (esgotado) em uma única semana, levando o comitê da candidata aos nervos. Em São Francisco, uma parceria com a marca de streetwear Upper Playgroud estampou o rosto visionário de Obama em camisetas: foram 50 mil unidades vendidas, adição de US$ 350 mil à campanha de Obama.



DE COMO O HOMEM NÃO REGULA SUA PRÓPRIA EXPRESSÃO
A carreira única - e ainda latente - de Shepard Fairey é um exemplo não do poder, mas do alcance que a street art pode tomar, uma mostra da visceral dualidade entre expressão artística e protesto, um arranjo que se transforma num perigoso trio parada-dura quando a Lei advogante criminaliza certos aspectos dessa atividade - Fairey sempre lembra como é quase preso na maioria das vezes que instala seus cartazes. Mas quando a maior figura política do século 21 legitima essa impetuosa arte juvenil para definir e, ops, vender sua própria imagem, é hora de analisar como a arte escapa por entre os dedos da volúvel Lei humana. Numa década em que políticos americanos evocaram até Deus para justificar a guerra e atos ignóbeis, talvez seja a hora de colocar na Casa Branca um homem, negro, que entenda o poder desse tipo de expressão.

Claro que a esperança é sempre um pouco cega, e Obama pode subir ao poder e tornar-se um alienado utilizando-se dessa mesma juventude, dessa mesma cultura.. Mas há de se confiar. E pagar pra ver.

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
comentários
10 comentários
infatuation
infatuation(20.03.09)
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atenção kids... muito cuidado nessa hora. é a política com mais um doce visual.
já vimos esse filme e tbm seu final.

ahh... WARhol says hi! ;*


Huanita
Huanita(20.03.09)
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Acho digno... arrasou muito essa campanha, emocionante.
pablo
pablo(08.11.08)
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TUDO NO BONDE DO OBINA ! HAHHAHAHAHAHA
CAio C B
CAio C B(05.11.08)
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o trampo do cara é fudido, melhor que o tal icaro e os pixadores do choque cultural.
Sarah Rocha
Sarah Rocha(05.11.08)
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arte + diversão +trabalho= dinheiro $$$$