Se o futuro da música é fundir gêneros para a criação de estilos novos, o Neon Neon é a coisa mais moderna que existe. O projeto é cria de duas das mentes criativíssimas - de um lado Gruff Rhys, figura central da combo posicodélico Super Furry Animals, e de outro Boom Bip, produtor experimental responsável pelo lançamento de mais de 15 álbuns, incluindo solos e parcerias. O Neon²e demorou anos até tomar o forma, e o princípio básico era não soar como qualquer coisa que a dupla já tivesse feito, como Boom Bip nos explicou em entrevista via telefone ainda confuso do jet lag causado por horas de viagens da Austrália até Los Angeles, cidade em que o produtor reside.
Desde então o projeto da dupla ganhou conceito, colaboradores e críticas positivas [nós aqui da redação concordamos que é uma das melhores estréias do ano]. Para nossa sorte a dupla foi convidada para se apresentar no TIM Festival 2008, essa semana, dia 23 em São Paulo e 25 no Rio de Janeiro - ambas as datas ao lado do Klaxons no palco Novas Raves - para provar se as tão comentadas emoções do álbum conseguem se manter boas ao vivo e longe das parcerias de estúdio. Enquanto o show ainda não chega, Boom Bip conta histórias e revela que o próximo álbum da dupla soará completamente diferente, podendo, inclusive, ser lançado sob novo nome.
Como você e o Gruff se conheceram?Foi numa turnê do Super Furry Animals de 2002, em que eu fui escalado para abrir. Nós dois lançamos álbuns aquele ano e nos conhecemos em Detroit, era o primeiro show. Eu fiquei no ônibus com a banda, porque era só eu e o cara que fazia o vídeo. Depois disso nós começamos a emprestar projetos. Ele pediu para remixar o Super Furry, e eu disse que faria, mas com uma condição: que ele cantasse no meu novo álbum. Desde então nós viramos bons amigos e não perdemos mais contato.
E quando vocês decidiram formar uma banda juntos?Em 2006, quando eu só estava fazendo música. Não trabalhava em nenhum projeto específico, tinha um monte de faixas bem pop, synth-pop com esse clima oitentista. Eu só estava brincando e, acabei deixando essas faixas de lado porque achava que elas realmente precisavam de vocal. Se eu achasse os vocais certos, aquilo poderia se tornar algo a mais. Claro que o Gruff foi a primeira pessoa que eu pensei. No começo por causa de sua versatilidade e habilidade de escrever em gêneros diferentes, porque essas faixas são muito ecléticas: algumas faixas soam velhas, outras mais
grimey, algumas cheias de batidas, outras mais coloridas. Coisas que não encaixariam no catálogo do Boom Bip.
Então eu contatei o Rhys e disse "escuta, o que você acha de fazer um projeto completamente diferente que não soa com nada que você já fez? Nada que eu jamais fiz. Uma banda completamente nova. Uma idéia completamente nova. Tudo completamente novo.". Na verdade, eu queria que fosse tão diferente, que eu sugeri para Rhys usar um modo de cantar diferente, para as pessoas não o reconhecerem. E ele gostou da idéia. Mandei umas faixas para ele e nós começamos a escrever.
E quando vocês decidiram chamar os colaboradores? Foi algo que já estava planejado inicialmente ou surgiu de maneira orgânica?Nós iniciamos o álbum como um projeto para nós dois, apenas. E então, quando nós começamos a escrever as faixas tinha momentos em que nós pensávamos "seria ótimo ter um rapper nessa parte ou só um refrão de rap". Foi basicamente durante o processo de criação, ouvindo as faixas, que nós pensamos que os convidados dariam uma boa cara ao álbum. E também o processo de gravação durou um bom tempo. Foram quase dois anos pra finalizá-lo, porque Rhys e eu moramos bem longe um do outro. Então tínhamos que decidir se íamos gravar em Londres ou Los Angeles. Era bem difícil estar no mesmo lugar na mesma hora.
Nesse meio tempo eu mostrava o projeto para amigos e artistas e eles falavam "Uau, isso é ótimo. Se você precisar de um baterista/guitarrista/etc me avisa". E foi assim que surgiu a colaboração com Fabrizio Moretti dos Strokes. Ele perguntou se eu precisava de um baterista bem na época em que estávamos indo ao estúdio gravar as baterias do álbum. O mesmo aconteceu com Josh Klinghoffer. Foi tudo bem amigável e natural.
Como foi a idéia de usar o De Lorean como inspiração da banda?Bem, basicamente porque as faixas que nós começamos era bem pop, synth-pop, com aquela cara oitentista. E quando eu sentei com o Gruff para decidir o que faríamos com as letras do álbum, ficamos pensando em coisas que aconteceram na nossa infância e que nos inspiraram nos anos 80. Nós estávamos nesse apartamento em Londres que tinha um monte de livros e uns Casios velhos. Um monte de parafernália oitentista espalhada.
Começamos a brincar com esses teclados, ler coisas até que Gruff achou esse livro sobre carros conceituais dos anos 80, que era cheio de carros rídiculos. E ele viu um De Lorean e achou que combinava perfeitamente com as faixas. Brilhante, glamurosa, aerodinâmica, futurística, mas bem retrô.
Daí ele disse que iria escrever uma faixa sobre os De Lorean e começou a ler sobre a vida do cara, ficou completamente inspirado por ela. Se você conhecer a história do De Lorean você verá, ela é ultrajante! Ele me contou todas essas história e eu "Jesus Cristo! Nós deveríamos fazer todo o álbum baseado na história desse cara".
Uma vez que a gente tinha um tema, ficou muito mais fácil de focar e escrever. E foi ótimo. Todas as faixas demo encaixavam perfeitamente nas histórias, tudo se encaixou bem rápido.
Mas isso não limita a vida da banda? O segundo álbum do Neon Neon também vai ser sobre a vida do De Lorean?Não, nós contamos a história do nascimento até a morte. Nós o enterramos no final do álbum, já esgotamos todas as histórias desse playboy-engenheiro. Esse capítulo está contado. Queremos começar algo novo de outro conceito, alguma idéia completamente diferente - incluindo o som. Então vamos fazer o próximo álbum baseado em outro tema, não terá mais esse som synth-pop oitentista.
Ah, então foi por isso que vocês mudaram o nome da banda no começo. [A banda originalmente se chamaria DeLorean]Sim, e pode ser que nós mudemos o nome novamente para o próximo projeto. Porque no segundo álbum queremos explorar algum conceito novo. Então vamos ver se esse nome ainda fará sentindo. Mas ainda não temos uma direção do que queremos fazer.
O álbum soa bem dividido em duas partes: uma hip hop e outra synth-pop. Como vocês chegaram a esse som?O negócio é que estávamos contado a história da vida do cara. Do jeito que nós olhamos para isso é quase como um áudio-filme. E como todo bom filme, há várias emoções e cenas diferentes. Então nós sentimos que o grime mais sujo e o hip hop seriam bons para contar o lado mais sombrio e pesado de sua vida. E batia um mau-humor quando o som começava a soar familiar, então foi perfeito criar essas diferentes "cenas" dentro do álbum.
O que segura todo nosso álbum é a história, e o melhor modo de contá-la era com diferentes emoções, cenas, personagens e participações. E para nós isso fez sentido. A parte hip hop funciona muito bem como contra-balanceador de toda a parte pop do álbum. Então quando eu olho para o álbum ele parece bem balanceado.
E que tipo de música você ouvia nos anos 80?Eu ouvia de tudo. Claro que eu ouvia um monte de rádio. Um monte de hair metal. Eu tinha duas irmãs bem viciadas em heavy metal, então eu fui forçado a ouvir o que elas ouviam. Eu também ouvia bastante hip hop dos primórdios e música pop. De Michael Jackson a Whoudini, de Whitney Houston a Madonna. Qualquer coisa que chegava a mim lá no
middle west dos Estados Unidos eu ouvia.
E como foi ser indicado para o Mercury Prize?Foi ótimo ser indicado no Mercury porque é uma premiação prestigiada. As pessoas que escolhem os álbum são especialistas que conhecem bastante de música e têm ouvidos treinados. Então para ser reconhecido e escolhido foi incrível, porque nos mostrou que as pessoas entenderam nosso projeto. E que tinha um conceito. [O álbum] fez as pessoas sorrirem. É dançante e feliz, que ao mesmo tempo conta uma história e se você olhar para o pacote completo é meio ridículo. Eu não conheço muitas bandas que são conceituais, e as pessoas entenderam e gostaram da música.
pena q não tinha muita gente no show!! :-(