A tarde de 22 de agosto de 1998 era cinzenta em São Paulo. O tempo encoberto casava bem com a sujeira de concreto da sempre movimentada estação Tietê do metrô. Mas a monocromia urbana era quebrada por pequenas hordas de clubbers e cybermanos coloridos que desembarcavam ali cedo com seus cabelos espetados, todos bem-humorados: aquele sábado, exatos dez anos atrás, era o dia da primeira apresentação do Prodigy na cidade de São Paulo, parte da programação da terceira edição do festival Close-Up Planet.

O entorno da concentração do Sambódromo do Anhembi, hoje a Arena Skol, já hospedava desde cedo - alguns desde o dia anterior - as turmas de clubbers, cybers e outros amantes do grupo inglês de música eletrônica expoente dos anos 90. 20 de 30 mil ingressos já haviam sido vendidos, e na fila (em sua maioria) jovens esperavam para ver a banda pioneira da manifestação anárquica e apoteótica da música eletrônica em grandes palcos. O quarteto formado por Liam Howlett, Keith Flint, Maxim e Leeroy Thornhill vinha do estrondoso álbum
Fat of the Land, uma escarrada punk na dance music. Foi o cume até hoje insuperável de uma carreira, e na época a banda estava imersa num giro mundial de, até a data do Close-Up Planet, já contava quase 50 apresentações.
De volta à fila, a ansiedade era revezada por shots de vinho barato e bombeirinho, pelas análises futebolísticas do resto do line-up (Björk, Mike Paradinas, Racionais MC's, Marcelo D2, Nação Zumbi, Markinhos Mesquita e Marky Mark). A ansiedade virou angústia quando por volta das 15h, horário combinado, os portões não se abriam. Até que um bafafá se disseminou como queda de dominós pela fila, já impaciente e um pouco bêbada: não haveria mais show. Quando o boato virou verdade pelas bocas dos seguranças do outro lado da grade verde (devidamente preocupados com aquela gente esquisita de moicano verde já nervosa), não teve outra. Gritaria, revolta, cyberminas chorando, até que uma latinha voou e acertou o segurança, no que uma garota exaltada, gritou: "Seus filhos da puta! Vocês sabem quanto tempo eu trabalhei para vir até aqui?!?!?!? Como vocês podem fazer isso justamente com a banda da minha vida!".

Esta foi a cena presenciada por este repórter, que teve ainda que correr de paralelepípedos arremessados por clubbers revoltados, e caiu de cara no chão após trombar com um vendedor ambulante de
Suflair, ambos assustados com o pique da Tropa de Choque da PM empurrando geral para a Marginal Tietê.
Testemunhos não faltam. "Assim que entrei no Sambódromo fiquei sabendo do cancelamento. O público ainda não havia entrado e nem sido avisado do cancelamento. Me disseram que só estavam esperando a chegada de reforço policial para anunciar o cancelamento" lembra Fernando Pacheco, que ia trabalhar no evento. "O mesmo palco havia sido usado no fim de semana anterior para um show do Sepultura. Ele permaneceu lá montado durante toda a semana, sem apresentar qualquer problema."
O OCORRIDOA culpa foi de um parafuso. Uma simples peça de dois centímetros mal colocada que fez com que um peso muito excessivo ficasse concentrado numa única treliça no teto do palco, que veio a ceder. Visualmente, era perceptível como a parte superior tinha quebrado ao meio - não havia a possibilidade do show acontecer. "Na hora ninguém espera esse tipo de coisa, mas aí você respira fundo, chama guindastes, os responsáveis e tudo mais. Na hora nós e a Mills (montadora do palco) vimos que não daria para o evento acontecer no dia seguinte", lembra Célio Fernandes, da produtora Joker Entertainment, produtora do festival da marca de pasta de dentes. "Olha, do ponto de vista profissional não há mais o que se falar: foi uma fatalidade. Tanto é que o seguro pagou depois que se provou não ter havido negligência, nem da marca, nem da produtora, nem de ninguém", explica.

A empresa Mills do Brasil Estruturas e Serviços Ltda., empresa responsável pelo palco, foi apontada como a responsável pelo parafuso (ou a falta dele). Com o abono do seguro e a edição do evento no ano seguinte que enfim trouxe o Prodigy a São Paulo, a história minguou. "Não há trauma, não tem feridas não. Estou no show business há 20 anos, fiz o primeiro Skol (Beats), coloquei dinheiro aí dentro até (no rraurl). A sua matéria deveria abordar o assunto de outra maneira, de como uma situação profissional crítica dá a volta por cima", disse Célio, um pouco assustado de ter que responder sobre um assunto que, dez anos depois, nem ele lembrava mais. Hoje ele é responsável por uma fábrica de LEDs em Curitiba, e a Joker ajudou a montar o formato do primeiro Skol Beats lá em 2000, mas o evento acabou ficando nas mãos da produtora B/Ferraz após desentendimentos com a marca. Quanto ao suposto dinheiro no rraurl, o site afirma que não houve investimento direto de Célio e suas empresas no site, no máximo publicidades de eventos (banners, promos e afins) em que ele esteve envolvido.
ENFIM, 1999Os 20 mil ingressos, que custavam R$ 25, foram devolvidos. A banda se sensibilizou e acabou voltando no ano seguinte. O Close-Up Planet utilizou da crescente Internet para distribuir seus ingressos de graça para o festival de 1999, um único dia em SP. No line-up: Prodigy, enfim, Roni Size, Otto, Arnaldo Antunes e Marky. Bastava apenas juntar códigos de barras da pasta de dente Close-Up, preencher um concorrido cadastro, e retirar o ingresso em lojas específicas. E no dia 15 de maio de 1999, passado um dos maiores traumas da história clubber brasileira, fez-se a história: o Prodigy enfim se apresentou.
Dez anos parece muito tempo, e realmente é, apesar das lembranças vívidas. Mas nesse ínterim, a banda voltou a São Paulo para o
Skol Beats 2006, onde fez um show impecável: o grave letargicamente estourado e a gritaria característica. Como não podia deixar de ser, não faltou confusão: houve empurra-empurra e feridos, já que 50 mil pessoas debandaram de todo o festival para um palco apertado só para vê-los.
PRODIGY EM 1998: EU VI
BATE-VOLTA: O GRAVE ESTOURANDO DENTRO DE UM SHOPPING, E O ALÍVIO DE TER VISTO A BANDA UM DIA ANTES DO CANCELAMENTO.
(por Daniel Gouveia)
"Estive no Close up" no Metropolitan (Rio de Janeiro) há exatos 10 anos. Realmente deu saudade daquele dia! Lembro que saímos eu mais um amigo aqui de São Paulo à noite e chegamos muito cedo ao RJ. Sem conhecer nada naquela cidade maravilhosa tomamos uma Topic que nos deixou no local exato do show.
Imagina chegar às seis da manhã de um dia útil em um shopping, não tinha nada e ficamos horas no estacionamento conversando e esperando pelo show que só seria às 21h. Ou seja, mais de 12h no mesmo local, fizemos de tudo por lá, mas o melhor momento foi quando começou a tremer o shopping quando estavam passando o som no palco lá embaixo. UM TREMENDO GRAVE...
Se aproximava a hora do show e nada de chegar gente, no máximo umas 15 pessoas que se conheciam todas. Os portões estavam quase abrindo e não tinha nada de galera para ver o show. Lembro que fiquei com medo de cancelarem o evento, mas aí o portão se abriu e dava somente para ver um "laser" que vinha de dentro. A galera correu para frente do palco (eu também, claro) conhecemos umas meninas que passamos o tempo antes de começar o show do Prodigy. Me recordo também da nação Zumbi tocando sem nosso Chico, foi legal e emocionante.
JILTED GENERATION - Prodigy ao vivo em 1992: Geralmente num clube, tinha o banner, dois dançarinos (Keith e Leeroy), um MC (Maxim) e o Liam Howlett na paranfernalha atrás. Foto: /windeangle (flickr)

O show da Nação acabou e era a vez do Prodigy. Estava cada vez mais insuportável ficar na frente devido ao forte calor, a falta de água e a DEMORA insuportável. Eu estava quase desistindo de vê-los após tantas horas de espera, estava de braços dados com meu amigo por causa da forte pressão da galera, que agora já eram bem mais de 15 pessoas.
Cheguei a me despedir do meu amigo, mas quando virei para o palco estava lá o Liam. Olhei para um lado e vi o Keith com o cabelo tradicional dele na época e na minha frente o Maxim. FOI DEMAIS, a sede naquele momento não existia mais! Eles começaram a tocar e me lembro que cada pulo que dava demorava dias para voltar ao chão, não pela galera, mas pelos graves!
Fiquei umas cinco músicas lá na frente e não agüentava mais a sede. Tentei sair, mas diversas brigas aconteciam no meio do show, lembro até que gás foi lançado no meio do evento para acalmar a galera. E eu tentando sair de lá. Lembro que na hora que consegui me mover eu desisti, pois foi bem na hora que o Maxim na faixa "Their Law" falava "EVERYBODY JUMP, JUMPPPPPPP". Nunca esqueço desse momento.
Sei que no final caí no chão e não agüentava mais. Quando olho para o lado meu amigo caído no chão também. Aí fomos para a rodoviária e pegamos o ônibus com destino ao Anhembi. Seis horas de puro sono, e quando chegamos no Anhembi a galera toda na fila e a gente com um sorriso maior do que o rosto. Agora imagina a hora que falaram que não ia ter o show mais - quase apanhamos por termos vistos os caras um dia antes!"
Mas compensou em 2006.
Lembro que um povo maluco começou a queimar colchão. "Hey, vamo pra Paulista protestar".
Fiz todo o modelo clubber em vão. Minto, acho que ainda era meio cyber punk, se eu não me engano. ahhaahhahahahahhahahaha! Bons tempos.