A lei mira cada vez mais o trânsito livre de arquivos na web, mas a sociedade se defende: legislando para si própria e compartilhando, sempre, como mostra o Radiohead
18.07.08 12:55
A gente ama a Suécia, certo? Mas esse paraíso loiro, cultural e tecnológico não é tão liberal assim. Primeiro que lá não é Amsterdã, e assim como em São Paulo, você é preso se andar na rua ostentando seu cigarrinho do Diabo. E, mais importante para o mundo geek, a Suécia começa a perder seu status de Olimpo indefectível da liberdade online, do compartilhamento de arquivos e até mesmo da privacidade telefônica!
Resultado: o Pirate Bay, aquele famoso portal de Torrent que já processou gravadoras, já fo invadido pela polícia (e voltou a funcionar, ainda mais famoso), e que já quis criar até seu próprio país, agora sonha em transformar toda a Internet em indecifráveis criptogramas, tudo isso para proteger a minha, a sua, a nossa liberdade online. É um sinal dos tempos, do Brasil à Escandinávia, quando a Internet deixa de ser um bicho de sete cabeças e começa a ser compreendida - e visada - pela legisferância mundial. Confira abaixo alguns exemplos desse combate intelectual e outros episódios de questões autorais, licenças e compartilhamento. O RRAURLGEEK #21 está no ar!
Pirate Bay quer criptografar toda a web O MAIS INFLUENTE (E MEGALÔMANO) PORTAL DE TORRENTS DO MUNDO REAGE AO ENDURECIMENTO DSA LEIS DE INTERNET por Jade Augusto Gola
Você que baixa um inocente álbum no soulseek ou via Google Blog Search, já deve algo a essa turma sueca. O Pirate Bay, fundado em 2003 e desde então o (auto-proclamado) maior e mais influente portal de Torrents do mundo, surge com uma nova proposta nababesca: criptografar toda a Internet.
PORNOGRAFIA INFANTIL, O NOVO CARRASCO Atente para o fato que em 2008, tanto na Suécia quanto no Brasil, a pornografia infantil é um problema usado como justificativa para o recrudescimento de leis sobre Internet. É uma nova tentativa (que parte de um tema específico) e tenta controlar TODO o conteúdo online. Trata-se de um oportuno momento para ataques à troca de arquivos, após os fracassos de controle por parte da indústria fonográfica, por exemplo.
A idéia radical é desdobramento da iniciativa do site de disponibilizar programas de encriptação para ligações e redes (saiba mais aqui), medida que eles lançaram como retaliação a novas leis suecas que liberaram a espionagem telefônica e virtual.
O novo protocolo de criptografia que está sendo desenvolvido pelos suecos se chama IPETEE (Transparent end-to-end encryption for the Internets), e teria como principal função criptografar não só as trocas P2P entre usuários, mas todo seu conteúdo. No dia a dia do internauta comum, o exemplo mais tradicional de criptografia é dos sistemas de e-mail e senhas, considerados seguros.
Seria uma espécie de filtro de privacidade e de segurança à nova onda de leis internacionais de fiscalização do conteúdo pessoal dos internautas. Em alguns casos, como a recente lei aprovada no Senado brasileiro, servidores seriam responsáveis por relatar às autoridades as atividades ilegais de seus clientes, um papel de polícias que essas empresas não querem ter (saiba mais aqui).
O IPETEE surge com compatibilidade para vários sistemas operacionais, entre eles Linux e Windows, e para funcionar as máquinas terão que instalar chaves, espécies de plug-ins. Clique aqui e conheça (em inglês) as principais propostas do projeto, que apesar de pretensioso, é uma austera e necessária iniciativa do Pirate Bay e da sociedade civil que, do lado de cá da indústria cultural e das autoridades, quer garantir o direito ao compartilhamento universal de arquivos.
Mininova: fama, recordes e processo 5 BILHÕES DE DOWNLOADS. PARA COMEMORAR, O PRIMEIRO PROCESSO. por Gaía Passarelli
Quem baixa filmes e séries provavelmente já passou pelo mininova.org. Um dos mais ativos trackers (busca de busca de arquivos torrent) na rede, o mininova tem na procura por arquivos de vídeo seu principal uso, e em 2008 o site foi notícia esse dois motivos: alcançou a invejável marca dos 5 bilhões de downloads (em maio) e foi presenteado com o primeiro processo.
Movido pela organização anti-pirataria holandesa Brein, o mininova se defende alegando que retira material ilegal quando pedido (o site mantém uma política amigável em relação a pedidos de remoção de links por parte dos responsáveis pelo material, ao contrário do subversivo Piratebay - http://thepiratebay.org/legal) e que não hospeda arquivos, apenas atua como sistema de busca. Verdade. Mas verdade também que essas subjetividades ainda vão render muita discussão, inclusive entre DJs, samples e produtores que trabalham com músicas alheias.
É forte a discussão hoje em relação a fazer sets com faixas baixadas ilegalmente, por exemplo. E você? Além de deixar seu recado aqui nas sempre bombadas caixas de comentários, aproveita e vota na nossa enquete na home.
Podcasts na mira do ECAD QUEM QUISER QUE SEU PROGRAMA NÃO SEJA "ILEGAL" TERÁ QUE DESEMBOLSAR R$ 42,51 MENSAIS por Bruno Belluomini
Você, que utiliza música publicamente em seu podcast, pode estar diante de algo que ainda não sabe. Sua atividade pode ser taxada a qualquer momento pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o ECAD, órgão responsável pela arrecadação e distribuição dos direitos autorais das obras musicais no país. http://www.ecad.org.br
Qualquer podcaster brasileiro que não quer ficar na "ilegalidade" deve desembolsar o equivalente a R$ 42,51 mensais, valor referente a um UDA (Unidade de Direito Autoral). A tarifa sofreu reajuste de 13,40% em julho, mas levou em conta o caráter amador da grande maioria dos podcasts produzidos no Brasil e foi relevado. A Associação Brasileira de Podcasters, a ABPod, fundada em maio de 2006 numa reunião feita no Studio SP em São Paulo, foi responsável pela negociação que possibilitou essa reavaliação.
"O ECAD entendeu a realidade dos podcasts. Em 2006 o órgão cobrava nada menos que 50 UDAs mensais para todo e qualquer podcast interessado em legalizar as músicas que tocava. Hoje, após uma série de conversas e trocas de e-mails, chegamos a um valor simbólico de 1 UDA mensal para todo e qualquer podcast amador, que são a grande maioria no país", reforça Maestro Billy, podcaster profissional e um dos fundadores da ABPod. A seguir, Billy responde algumas perguntas.
Qual a posição da ABPod com relação às pessoas que, por diversão e sem fins lucrativos, produzem podcasts e os disponibilizam na internet?
Acreditamos que qualquer tipo de divulgação sem fins lucrativos é boa para a música. Mas existe uma regulamentação e o problema real de um podcast ser considerado pirataria. Muitos usam músicas Creative Commons - como a Rádio Heineken -, podsafe ou músicas expressamente permitidas por seus criadores.
Qual a posição da ABPod diante do Creative Commons? A associação acredita em alternativas ao ECAD?
A grade maioria dos associados à ABPod faz uso do Creative Commons. Seja na divulgação de seus podcasts, seja nas músicas tocadas, na citação de textos e até no uso de softwares para criação e execução do podcast. Acreditamos e recomendamos as licenças Creative Commons, que atualmente são uma excelente alternativa ao ECAD. São músicas de excelente qualidade, cada vez com mais artistas bons, até de renome, aderindo ao formato.
Todo afiliado da ABPod é idôneo? Como isso é avaliado? Qual a posição da ABPod com relação ao uso e distribuição de softwares e músicas de forma "ilegal" na internet?
A gente parte do pressuposto de que todos são idôneos. Lógico, não temos como avaliar num primeiro momento. A ABPod repudia a distribuição de forma ilegal de músicas na Internet. O acordo com o ECAD foi uma primeira tentativa de se criar justamente um modelo de negócios para que outros grupos, até redes P2P, possam se beneficiar de algo nesse sentido.
O ECAD também foi procurado para mais esclarecimentos através da sua assessoria de imprensa mas até a publicação deste RRGEEK não foram respondidas nenhuma das questões enviadas por e-mail.
Radiohead: inovação agora em 3D "HOUSE OF CARDS" GANHA CLIPE DE INÉDITA TECNOLOGIA LASER, DISPONÍVEL PARA VIDEOMAKERS EM CREATIVE COMMONS por Alisson Göthz
O Radiohead acaba de lançar o video de sua música "House Of Cards". Totalmente inovador, foi produzido sem qualquer câmera ou iluminação, usando apenas a tecnologia dos sistemas Geometric Informatics e da Velodyne LIDAR que escaneiam e capturam imagens em terceira dimensão usando lasers. O video foi lançado em uma premiere mundial exclusiva em parceria com o Google.
"Nós escaneamos as imagens usando duas tecnologias diferentes," explicou James Frost, diretor do video. "Para as cenas que envolvem Thom Yorke em close, usamos um sistema chamado Geometric Informatics System, que é basicamente um scanner que grava dados num ângulo de 180 graus." Para as cenas de paisagens e ambientes abertos, o sistema usado foi o Lidar, que emprega o uso de 64 lasers rotacionais que fotografavam os objetos 900 vezes por minuto em um ângulo de 360 graus. As cenas são inspiradas no trabalho do artista multimídia Aaron Koblin.
DISTRIBUIR É SOBREVIVER Ainda com a parceria do Google, os dados usados na produção do vídeo foram liberados para download sob uma licença da Creative Commons, que permite que o seu conteúdo seja descarregado pelos fãs da banda e re-utilizados livremente. O Radiohead inclusive criou um canal no YouTube para que os internautas façam o upload de suas criações.
Depois de ver o vídeo, assista ao making-of para aprender como tudo foi feito e então abra esse link e interaja com as (belas?) feições de Thom Yorke.
hospeda tudo fora e pau no cu do Ecad [2]! sinceramente, nao acho que nem o Ecad nem a ABPod me representam! o dia em que eu tiver conteudo e ouvintes em potencial, vou montar um podcast hospedado no exterior, respeitando os direitos autorais - claro, e ponto! (e usar creative commons, sempre!^^)
hospeda tudo fora e pau no cu do Ecad, maior comedor de dinheiro de artistas do país. É um orgão de merda, que se ainda cobrasse algo e oferecesse em troca, seria de validade discutível. Porém, NUNCA vi um centavo desses viados, e o mais impressionante foi um representante dessa espelunca aparecer no club para ouvir o que estava tocando e de certo modo "pedir uma bola" Ainda quis tomar cerveja e nao pagar. Que lastima.
tipo assim... se eu faço um podcast com material autoral que o ECAD não possui cobertura, que não tenha representante legal ou seja produção independente. como ele vai cobrar isso?
sinceramente, nao acho que nem o Ecad nem a ABPod me representam!
o dia em que eu tiver conteudo e ouvintes em potencial, vou montar um podcast hospedado no exterior, respeitando os direitos autorais - claro, e ponto!
(e usar creative commons, sempre!^^)
A legislação no Brasil é tão ridícula que dá vontade de rir, se não fosse o DESESPERO.