DJ e produtor brasileiro Wehhba é um dos poucos que conseguem se apresentar
17.07.08 15:10
Uma grande tempestade quase fez com que o mega festival de música eletrônica Creamfields Central Europe fosse por água abaixo, no último dia 12/jul. A chuva e ventos furiosos que caíram na cidade de Breclav, na República Tcheca, destruíram a maioria das tendas, e um dos poucos DJs que conseguiram se apresentar, mesmo assim sob péssimas condições, foi o brasileiro Wehbba.
Wehhba foi obrigado a fazer seu set de techno com apenas um único toca-disco por mais de uma hora e meia, utilizando seu laptop como segundo aparelho. Apesar de todos os problemas, o público do Creamfields Central Europe adorou a apresentação e permaneceu por lá até o final.
Direto de República Tcheca, onde mora há quase um ano, Wehhba contou mais detalhes com exclusividade pro rraurl.
Como era o clima nos bastidores com o pessoal que não pôde se apresentar?
Eu fiquei sabendo que o festival ia ser cancelado. Estava na sacada do meu apartamento quando vi a tempestade vindo, por volta das nove da noite, e já tinha imaginado que não ia sobrar nada. Um amigo me ligou, dizendo que apenas a minha pista iria continuar sem alterações, e quando cheguei boa parte do pessoal que não ia se apresentar já nem estava mais lá, assim como as atrações que foram canceladas antes de saírem dos hotéis.
O clima era de caos total, entramos com o carro e paramos atrás da tenda quase sem fiscalização. Parecia uma freeparty a esse ponto da noite. Na minha pista, no backstage, só estávamos nós. Cheguei no final do set do Markantonio, a pista estava lotada, bombando e tudo correndo bem. Fiquei surpreso com o andamento da festa e pelo nível de desorganização na entrada, mas ainda havia um mínimo de segurança para nós trabalharmos.
A produção do festival tinha alguma suspeita sobre a possibilidade da tempestade ou foram todos pegos de surpresa?
Não, não havia um site sequer que previa uma tempestade daquela magnitude. A previsão era de muito sol e calor, como esteve desde o início do festival até as nove da noite, quando a nuvem preta que parecia um UFO tomou conta da cidade. Eu moro aqui há oito meses e nunca tinha visto nada nem parecido, nem mesmo quando houve uma tempestade de ventos aqui na região alguns meses atrás. Inclusive um dos motivos de a festa ter sido realizada aqui foi justamente por existir micro-clima na região, com temperatura mais amena e ausência de chuvas.
Qual foi a maior dificuldade que você encontrou durante sua discotecagem?
A ausência de técnicos de som. Eu entrei às cinco da manha, porque o Funk D'Void, possivelmente com medo da situação, não deixou o hotel e o line-up todo foi adiantado em uma hora e meia. Nessa hora os stage managers estavam indo pra todos os lados e não paravam muito por ali pra me dar o suporte necessário, e técnicos de som só passavam pra ver se estava tudo bem com o PA. Com isso, o DJ que tocou antes de mim danificou um dos toca-discos, e como eu utilizo a plataforma traktor, com esse toca disco danificado o sistema não calibrou como deveria. Eu improvisei e acabou dando tudo certo, só foi mais cansativo e um pouco mais limitado.
Apesar de todos os problemas, você considera que no final, tudo acabou saindo bem e o público satisfeito?
Sim, quem ficou no festival e estava lá pra ver os artistas que se apresentaram não saiu lesado. O festival manteve a estrutura dos palcos, que continuaram funcionando normalmente, e quase todos os DJ's fizeram o seu papel como deveriam. Eu ia tocar uma hora e acabei tocando três horas, uma sozinho e duas em back 2 back com o DJ Preach. Paramos o som às oito da manhã, ainda com a pista totalmente cheia. Os 2 DJ's locais que tocaram entre mim e o Michel de Hey foram o ponto baixo da pista de techno, na minha opinião, para quem esteve por lá. Fora isso, foi incrível. Como não sai dali o tempo todo, cuidando do meu equipamento, fica difícil opinar sobre as outras tendas.
A CENA TCHECA Por fim, como anda o cenário da música eletrônica em Praga? A proximidade com outros pólos de música eletrônica como Berlim ajuda ou atrapalha?
O cenário da música eletrônica na República Tcheca, na verdade, é muito mais focado fora de Praga. O Creamfields foi realizado em Breclav, 300km de lá. Em Praga, existe uma cena um pouco mais comercial, por ser um foco turístico também, mas até que existem bons clubs como Roxy Nod e Mecca, onde às vezes tem festas boas.
Existem clubs muito bons espalhados pelo país e as melhores festas daqui são realizadas em Brno, uma das maiores cidades daqui. Com certeza não há uma influência da música eletrônica "underground" de Berlim. Acredito que o público que freqüenta as festas de música eletrônica nos países do leste europeu é mais jovem, e
Praga
isso influi muito no tipo de som que existe. É tudo bem diversificado, muito electrohouse e progressive house/trance, além do euro-trance melódico de Tïesto e afins, que convivem com o funky-techno que eu fazia há dois anos (que anda meio esquecido pelo mundo afora), hard techno e, numa cena mais específica, o Drum n' Bass (tech-step e afins).
Apesar da diversidade de artistas que vêm pra cá, ainda não existe uma cena consistente, os promoters me parecem um pouco desinformados, vivem no passado ou são dependentes de newsletters das agências. Existem poucos artistas tchecos que estão no cenário internacional ou têm projeção para estar, eu vivo aqui e é um dos lugares onde eu menos toco, está longe de ser um país com uma cultura rica na música eletrônica como a Alemanha, Itália, França e Espanha, que são ditadores de tendências.
Apresentação de Sebastién Léger é interrompida pelos fortes ventos. Repare na nuvem e na ventania nos 03:09. E na música, muito boa!
Sebastien Leger - Talisman