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Soundman Pako
16.09.03 01:45
Um curitibano das antigas que viu a cena crescer de perto. Soundman Pako (ou SMP) conta sobre o começo de tudo, a influência que a black music teve em sua música e a importância do underground em sua vida. Depois de rodar o Brasil tocando com os mais diferentes nomes, o DJ comanda o Poperô, novo e único programa de música eletrônica de Curitiba - com direito à presenças ao vivo de DJs e à rrauler Jamille - e ainda se dedica a outros dois projetos.

Você começou sua carreira tocando rap e hip-hop; sua grande influência é a black music e hoje você toca eletrônica. Como definiria seu estilo hoje?

Continuo adorando a black music e vários outros estilos. Como o hip-hop está na moda em Curitiba, tenho recebido muitos convites para tocar. Hoje tento me concentrar somente em e-music e nas minhas próprias produções. Sempre toquei techno pesado e minimalista, mas como estou ficando velho e mais sensível, tenho tocado um pouco mais leve e grooveado.

Foi no Syndicate que você teve seu primeiro contato com música eletrônica, em 94. O clube é considerado revolucionário na cena de Curitiba. Como era tocar lá? O que as pessoas achavam da música que você fazia? Porque até então era tudo praticamente desconhecido...

Era engraçado porque a noite começava com hip-hop, que na época era a coisa mais estranha, ninguém tocava esse tipo de som. Pouco depois, o mesmo cara que estava dançando rap, dançava house misturado com hard-core do Altern8 e Moby. Ninguém estava nem aí, o negócio era se divertir. Mal sabíamos que ali surgia o embrião de um movimento que vive até hoje, a tal da e-music.

Você se destacou em outras casas famosas do sul, como o Circus Bar, por exemplo, e só depois teve contato com a cena de São Paulo. Como isso aconteceu? Dá para dizer algumas diferenças entre as duas cidades?

O Circus realmente foi a casa que revolucionou a cena underground - que até então não existia em Curitiba. Foi lá que as pessoas começaram a ter contato com vários DJs do eixo Rio-São Paulo; descobriram o que é um after-hour. Só aí é que Curitiba começou a acordar para a música eletrônica. Meu contato em São Paulo começou com o DJ Edinei (Techno Records- A Lôca), quando ele veio para cá em um Mercado Mundo Mix. Olhei aquela loja cheia de cds legais e perguntei "você tem cd do Joey Beltran?" Ele me olhou e disse - "até que enfim alguém nesta cidade me pediu um cd legal". Ficamos ótimos amigos e quando dei por mim já estava tocando na Lôca pela segunda vez e no Lov.e com George ACTV. Tocar nesses clubes me parecia algo impossível. Alguns curitibanos que me desculpem, mas tocar para quem realmente entende é outra coisa. Saí de lá aplaudido.

Você tocou com Mau Mau, Feio, Rica Amaral e Luiz Pareto. Estilos diferentes, públicos diferentes. O que o faz ser tão eclético?

Minha cabeça é aberta para todo tipo de som, mas eu não saio por aí tocando electro em um dia e no outro deep- house. Toco techno e, dentro do estilo que escolhi, faço o melhor que posso. Quando tenho que tocar com outro DJ, não mudo o meu som. Tento me adaptar à situação na medida do possível. Sou muito critico e graças a Deus não tenho ouvido reclamações.

Onde vive atualmente? Tem freqüentado clubes? Quais?

Ainda estou em Curitiba, mas sempre que posso vou a São Paulo comprar discos. Aproveito, claro, para dar uma dançadinha e ver os amigos tocando. Aqui em Curitiba, apesar dos pesares, têm acontecido várias festas legais. Surgiram novos clubes (Stereo, Muzik, Bass, Vibe e Heaven). Temos muita gente nova que está a mil, investindo em DJs novos e não é só por grana. Diferente da maioria das pessoas daqui, a Bigfish (núcleo de DJs), por exemplo, faz só por amor à coisa.

Como foi participar de um show junto com Pavilhão Nove, o Rappa e Câmbio Negro? Houve algum tipo de recuamento das bandas ao saberem que você está envolvido com música eletrônica?

O engraçado é que somos mais preconceituosos do que eles. A gente já vai achando que os caras vão fazer cara feia e não é nada disso. Trocamos várias informações a respeito de produções - já que eles também usam computadores para fazer partes de suas musicas - e alguns gostam mesmo de musica eletrônica. Em geral, eles gostam de electro e break-beat, que lembra o hip-hop oldschool.

Já tocou no exterior? Como foi a receptividade do público? Gostaria de voltar?

Infelizmente, só toquei na Argentina e foi outra coisa engraçada. Eu cheguei no clube Pacha e estava tocando aqueles tangos argentinos. Pensei comigo "tô ferrado!". Que nada, mais uma vez, com sutileza, a musica eletrônica ganhou os argentinos e voltei mais duas vezes. Foi ótimo!

O que está sempre no seu case? O que não entraria nunca?

Por mais que tente, nunca consigo tirar o minimalismo do meu case. Tem sempre lá no fundo algum disco do Audio. Também costumo tocar produções de DJs locais e brasileiros, em geral. O que eu jamais tocaria seria alguma coisa tipo aquela voz (vocoder) da Cher, isso seria o fim. E tem tantas outras coisas que eu não tocaria ... mas aí vou perder alguns amigos DJs, é melhor ficarmos só na Cher.

Certamente você contribuiu muito com a cena de Curitiba. Acha que ainda dá para fazer mais? O que, por exemplo?

Continuo firme e forte, acreditando no meu som. Não me importa se os curitibanos correm atrás de tendências radiofônicas ou de mercado. As pessoas que realmente fazem um trabalho sério me entendem. Não vou mudar meu som como alguns pseudo DJs , isso é oportunismo barato. A minha mentalidade é underground e essa continua sendo a minha contribuição. Para que as pessoas saibam que existem produtores, escritores, designers, diretores, DJs, artistas plásticos, enfim, vida inteligente no underground. Que tudo vem do underground para depois ser diluído e empurrado goela abaixo das pessoas.

Você diz que entrou numa nova fase. Quais os seus projetos daqui para frente?

Estou tentando produzir algumas coisas junto com o DJ Pedro num projeto chamado Mindless. Também temos um projeto de trip-hop (The Sum of All Fears), que é uma coisa meio Portishead, Massive Attack, cantada em francês, inglês e português.

Além disso, depois de 3 anos consegui colocar na radio (96.3) um programa de musica eletrônica. O Poperó vai ao ar aos sábados às 11 da noite. Junto comigo estão o DJ Araújo e a Jamille. Também é possível ouvi pela Internet. No primeiro programa tivemos, sempre ao vivo, os DJs Igor , Erik Caramelo e Andy. Nada mal para um programa de estréia. No segundo foi a vez de Renato Cohen e Raul Aguilera. Se você é produtor de qualquer tipo de musica eletrônica, mande seu material para o programa.

Silvia Piccolo
Silvia Piccolo
A Silvia escreveu pro rraurl falando que gostava de escrever e está conosco desde o começo de 2003!
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