Entrevista: Philip Sherburne
O homem do techno no Pitchfork Media
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Entrevista: Philip Sherburne
O colunista de eletrônica do Pitchfork Media diz como é analisar os beats no site rocker
08.04.08 15:10
Música eletrônica e rock são como um casal de cão e gato que, não tendo outra saída a não ser aprender a conviver junto. Nesse cotidiano híbrido prevalecem características e pontuam-se o poder de certas personalidades, aspecto que na música é medido mais pelo gosto geral e pelo que sai na mídia.

O site Pitchfork Media, faz um tempo já, deixou de tratar a música eletrônica como algo de outra galáxia, tratando agora dos beats dançantes não tanto em suas nuances infindáveis, mas quando o gênero extrapola concepções e se torna música universal a todos ouvidos - fato esse que acontece cada vez mais. Aqui no rraurl.com o caminho inverso foi seguido há alguns anos também, mais do que batidas bailáveis, rock, indie, reggae/dub, pop e black music no geral fazem parte agora do nosso cardápio.

Na ocasião do lançamento da polpuda pitchfork.tv, falamos com Philip Sherburne, o homem por trás da coluna "This Month in Techno" do site e rotineiro resenhista.

PEQUENA BIO
Estudante de literatura nos anos 90, Philip caiu nas graças do jornalismo musical lá nos idos dos anos 90, tendo escrito no extinto site Urban Sounds e, sem seguida, nas celebradas revistas XLR8R e The Wire.

"Durante o começo dessa década eu tinha profundas suspeitas do site, percebendo uma tendência pró-indie rock que não combinava com meus interesses e ideologias no momento", lembra Philip, que por e-mail mesmo sugeriu colaborações eletrônicas, algo que em 2005 virou uma coluna fixa no site.

Além dos textos, o americano é DJ há mais de dez anos, e há três anos foi para o "lado de lá" ao produzir seus próprios sons. Foi em 2007 seu primeiro release, Lumberjack, pelo selo Lan Muzik. Ouça a faixa abaixo enquanto lê a entrevista com o jornalista/DJ.

Flash Content
Philip Sherburne - Lumberjacking (Original) (mp3)
Philip Sherburne - Lumberjacking

Qual é a relevância do Pitchfork hoje em dia?

Dá para argumentar que com a crescente onda de blogs de MP3 o site já é menos relevante, mas ainda acho que ele serve como um importante filtro para pessoas que não tem o dia inteiro para surfar na net; fãs de música não totalmente obsessivos também podem ir ao Pitchfork e obter um forte panorama da música. E o site serve ainda como fonte de boa escrita, há realmente talentos incríveis no staff deles.

A crítica musical parece não ser tão popular como já foi - a maioria hoje soa mais como um guia de consumo - mas ainda há uma audiência para isso.

Como é escrever sobre eletrônica num site famoso por sua essência indie rock? O Pitchfork tem resenhas antigas do Daft Punk que tratam essa música como algo de outro mundo, mas hoje em dia eles já equalizam dance com qualquer outro disco estranho cheio de guitarras. O que você acha disso?

É um desafio e uma oportunidade. Eu duvido que minha coluna de techno tenha toneladas de leitores, comparada com o último review do Árcade Fire, por exemplo. Mas eu também sei que tenho a chance de levar tais leitores a músicas que eles não conheciam, e sempre tento escrever de uma perspectiva geral - nada muito "insider". Quanto ao site, acredito que o gosto e a voz do Pitchfork amadureceram quando o site ficou mais velho e recebeu novos colaboradores.

@ Kubik, Barcelona
@ Kubik, Barcelona
Quais são suas principais fontes de pesquisa de nova música? E qual sua posição ante o MP3 e a transferência P2P na web?

Sempre fui um grande comprador de discos - havia um tempo no começo dos anos 00, em que eu ainda tinha um bom salário, que eu gastava mais dinheiro em discos do que com aluguel. Hoje eu compro menos, mas ainda compro. Recebo toneladas de promos, em março recebi 394 músicas em singles e EPs; a playlist de LPs lista 604 faixas (então vamos dizer que são cerca de 60 álbuns), mas esses números não refletem a real quantidade já há de se adicionar uma centena ou mais de singles em vinil a essa pilha.

Isso tudo é quatro ou cinco DIAS de audição, sem pausas - mais música do que eu poderia ouvir. O lado ruim do meu trabalho é que eu não passo tanto tempo assim com música boa, estou sempre selecionando, descartando. Adicione a isso DJ mixes na Internet, perfis de MySpace, etc.

Não me importo com MP3, mas tem que ser em 320kbps. Infelizmente a maioria das promos hoje em dia são em MP3. E a pior coisa dos formatos 100% digitais é o armazenamento. No fim de 2007 visitei minha mãe e passei semanas através caixas de CD ripando os discos para um HD externo. Daí faz pouco tempo eu chutei o HD da mesa. Em um instante eu perdi 400 gigas de música, incluindo alguns dos meus álbuns favoritos da vida toda. Tudo bem que ainda tenho tudo em CD, principalmente porque a maioria não está disponível para download legal.
Eu não uso P2P de maneira alguma, e só visito blogs de MP3 que seguem códigos de ética. Não roubo música, apesar que sei que minha posição como jornalista musical faz minhas posições serem mais fáceis de seguir. Mas eu ainda acabo com mais música de graça do que eu gostaria.

Eu posso entender o download de uma ou duas faixas para avaliar se a música é digna ou não de ser comprada. Mas acredito que os DJs deveriam pagar pela música que eles tocam, e que fãs deveriam apoiar os artistas que eles gostam comprando suas músicas sempre que possível.

TOP 10 - ABRIL 2008
Kassem Mosse - Untitled (A)
Jackmate - "Buccaneer"
dOP - Foly feat. Sibiri Samaké
Daniel Meteo- Beautiful (Junction SM Remix)
Sebbo - Watamu Beach
D'Julz - Just So U Know
Kate Simko - She Said
The Thrillers - Tropic of Cancer
Professor Genius - Á Jean Giraud (Part One)
Peter Van Hoesen - L.O.C. (Philip Sherburne's Lungbutter Remix)"
Já havia lido algo antes, e o Wikipedia confirmou. Foi você que criou o termo ‘microhouse'?

Em 2001 escrevi um artigo pra The Wire sobre a força do house e techno alemão, que na época começavam a ser populares - Kompakt, Playhouse, Perlon, Force Trax, etc. Eu estava surpreso pela maneira como muito desses artistas pareciam editar as estruturas clássicas da house music usando uma nova paleta de sons - quase sempre digital -, numa técnica de "redução sônica" (diferente da necessariamente estratégia repetitiva do minimal techno).

Para minha surpresa, o termo pegou e foi usado no mundo todo, o que é gratificante. Pessoalmente, o seu uso sobreviveu demais, eu acho. Acho que house e techno nos últimos anos tiveram uma expansão de suas fronteiras e uma explosão de novas leituras que a maioria dos pontos que eu levantei sobre "microhouse" são irrelevantes hoje.

Vamos falar do minimal, que é provavelmente um dos grandes gêneros eletrônicos atuais, já flertando com o mainstream sem esquecer de seus bons músicos (como Ricardo Villalobos, sempre comentado em suas colunas). Você acha que gêneros e sons na música eletrônica expiram mais rápidos do que em outros tipos de música?

Não, não acho. O pop sempre segue seus rápidos ciclos, e eles continuam a acelerar como no resto da cultura. A estréia dos Strokes em 2001, hoje, soa datada e até clássica, e eu acho que o mesmo pode ser dito da música eletrônica daquele ano. (Por exemplo, eu sofro em dizer que Rest, do Isolée, soa datado; álbuns como este, para mim, transcendem totalmente sua tecnologia).

Recentemente eu voltei a alguns discos antigos da Sun Electric, álbuns que achei datados quando os descobri (isso foi poucos anos depois dos lançamentos), e hoje eles soam mais eternos do que nunca. Isso vale bastante para o minimal techno de hoje, cuja falta de brilho de muitas de suas músicas não tem nada a ver com a tecnologia ou o gênero per se, existe uma variedade imensa de álbuns minimais que soarão eternos daqui uma década.

Eu acho que a popularidade da forma coincidiu com uma explosão da democratização de ferramentas da música dance, significando apenas o ponto de entrada para muitos produtores iniciantes que não sabem o que produzir. Se parece haver péssimas faixas de minimal do que músicas ruins em outro gêneros qualquer, é apenas porque há MUITO minimal hoje em dia.

O mesmo vale para essa nova cena de blogs - jovens que acabaram de descobrir Justice, Diplo e a cultura de remixes, e que tentam fazer suas primeiras músicas no Ableton. Foi a mesma coisa com a explosão das guitarras elétricas e bandas de garagem nos anos 60, um acidente histórico.

Parte do jornalismo musical é baseado em apostas. Quais foram seus palpites mais certeiros e os que nunca foram muito para frente?

Eu sou um péssimo apostador, parece que estou fora de sintonia com a maioria dos gostos populares. Se, alguns anos atrás, você tivesse me perguntado se o minimal estaria tão popular hoje, eu teria dito "jamais". E teria perdido algum dinheiro.

Eu acho que minha "aposta" mais equivocada foi a cena nu-jazz e broken-beat do final dos anos 90. Eu realmente achei que havia infinitas possibilidades ali, mas todo o gênero meio que perdeu a sintonia. Provavelmente o grime também, como grande fã de UK garage que sou, eu estava certo que uma revolução musical estava próxima. Mas aí o grime virou hip hop mal-produzido, o UK garage morreu, e o broken-beat também.

Acho que essa série de eventos acima sustenta meu ceticismo com o dubstep. Há muitas faixas que eu gosto muito, mas não vejo essa cena e esse gênero tendo um potencial imenso.

Nós aqui no rraurl temos alma eletrônica, mas falamos de rock. Isso ajudou a perceber como muita gente da eletrônica defende o gênero com certa militância. É assim também aí nos EUA?

Sim, sem dúvida. Acho que não é igual na Europa, onde a dance music é mais popular entre ouvintes casuais. Nos EUA, a eletrônica esteve submissa por muito tempo aos fãs do rock e ao establishment da crítica em geral (que começou na época do movimento "Disco Sucks"), que eu acho que os fãs de dance music sentiam que deviam defender suas cenas como verdadeiros militantes. Pessoalmente, eu tento não cair nessa militância, mas é um esforço constante.

Ser o "coitadinho" proporciona certo poder.

E agora em 2008, qual é em sua opinião os bons caminhos que a música eletrônica está rumando, e o que já deveria ter acabado?

Bem, não preciso ouvir outra insossa faixa "bleepy-bloopy" de minimal; estou realmente cansado desse neo-deep house, músicas que fingem ser Carl Craig mas não tem 5% de seu talento. Tem muito dubstep chato por aí também.

Também estou ficando abismado com a nova onda de samplear coisas antigas (John Coltrane, cantos búlgaros, óperas) e depois jogá-las no Ableton sobre um beat. Primeiro de tudo, soa como MERDA - a elasticidade do algoritmo do Ableton simplesmente não pode fazer mágicas, então você tem sons gagos e granulados que, para meus ouvidos, são as últimas coisas musicais no mundo.

Mas há também boa música por aí. Muitos artistas minimais levando a música a novas direções. E, de qualquer maneira, "novidade" não é tudo que importa. Há algo a ser dito sobre a destreza de efetivas faixas deeps, emocionais. A inovação está super-valorizada; eu escolheria todo dia uma boa música sobre outra que é simples novidade.

Leia aqui a mais recente coluna de Philip.
Foto: Chloé Richard

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
comentários
4 comentários
Rodrigo Giane
Rodrigo Giane(08.04.08)
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boa!
Orn
Orn(08.04.08)
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Gostei.
pevermelho
pevermelho(08.04.08)
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gostei também. :)
kaks
kaks(08.04.08)
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ta aí um bom jornalista e crítico musical