Procurando Mário Rocha
 O Brasil é feito por nós - o difícil é desatá-los"
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"Procura-se", o filme
02.04.08 17:05
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Procurando Mário Rocha
"Procura-se" retrata cena cultural paulistana na virada dos anos 60/70
02.04.08 16:55
Estava eu passeando com meu filho recém-nascido no carrinho por perto da Praça Benedito Calixto (bairo Pinheiros, São Paulo) quando, de repente, dou de cara com um cartaz em um poste, escrito em caixa-alta: PROCURA-SE. Eram quatro fotos no cartaz e um deles reconheci sem dificuldade, era o meu pai jovem. Pensei como um estranho encontro de gerações: meu pai sendo procurado em um cartaz na rua, eu dirigindo o carrinho de bebê na cidade, meu filho dormindo serenamente sob o cobertorzinho. Faltava uma peça. Liguei para a minha mãe, que explicou que o Rica Saito, de quem eu me lembrava como sendo um dos filhos dos muitos amigos dos meus pais, estava fazendo um filme ambientado na cena alternativa/cultural da São Paulo do começo dos anos 70, e precisava de pessoas parecidas com as da foto para viverem os personagens. Eu conhecia os personagens do cartaz, além do meu pai estavam alí o música Edú Rocha, a cenógrafa Loira e o poeta/compositor Edú Viola.

Descobri depois o mote do filme Procura-se, que tem primeira exibição no festival É Tudo Verdade, em São Paulo. O Mário Rocha retratado no filme é o músico, poeta e agitador Edú Viola, com quem convivi na infância, dono da casa que tanto invadi na adolescência, amigo próximo do meu pai e da minha mãe, influência para boa parte da cena contra-cultural daqueles agitados anos 60/70... Mas isso eu só viria a perceber mais tarde, quase 3 anos depois, quando fui ver o filme do Rica pronto na casa da Loira. Foi uma surpresa ver meus pais e a turma deles retratada com tanta fidelidade e intensidade, mas foi mais surpreendente constatar que o Edú Viola/Mario Rocha é realmente aquela figura criativa e inspiradora que Procura-se mostra de forma quase solene, andando por cima da corda entre a ficcão e o documentário - propositalmente explorando os dois extremos em um mesmo filme, com resultado curioso.

É o diretor Rica Saito quem explica a elaboração desse formato e sua relação com o universo cultural da geração de seus/meus/nossos pais, na expectativa de garantir para a nossa e para futuras gerações o legado de tempos tão turbulentos. Interessados podem (devem!) aproveitar as duas primeiras exibições do filme no festival. Mais informações

Qual a história por trás de "Procura-se" e como ela se desenvolveu?

O filme investiga a história de Mário Rocha, um músico desconhecido do grande público que teve uma produção artística muito rica e original nos anos 60 e 70; uma produção que sintetiza muito da experiência de sua geração. Nós recuperamos materiais como filmes em super8, fotos, músicas e memórias, coletadas ao longo de alguns anos de pesquisa. Essas "cinzas", que continham histórias incompletas, foram algumas pistas que nos levaram a conversar com as pessoas que conviveram e produziram com ele na juventude. E aí fomos costurando esses documentos com coisas que a gente filmava, contruindo uma mistura de visão pessoal dessa história com a memória oral de quem viveu esse momento. O filme é muito musical, a gente quis colocar as pessoas em contato direto com as músicas, então tem muitos "clipes". Tem ainda depoimentos de artistas como a Wanderléa, o crítico Carlos Calado e o produtor Jorge Mascarenhas.

O filme une de documentário e ficção, porque esse caminho?

Porque era a única forma de tratar desse artista múltiplo, geminiano (gêmeos com ascendente em gêmeos), tão genial e genioso. Ele é tão multifacetado que nós não conseguiríamos dizer o que ele é e o que significa, se nos prendêssemos num gênero só. A gente percebe que essa fronteira entre documentário e ficção é uma linha cada vez mais fraca, porque ela mesma foi inventada um dia. No começo do cinema, não havia essa distinção, e mesmo hoje, ela não é garantia de "verdade" do filme. O filme é um documentário que aproveita não só os "documentos", mas considera o imaginário em torno de um momento histórico. Há uma boa dose de intervenção da nossa equipe na narrativa, trazendo o olhar mitificado de quem não viveu uma época e imagina uma vida mais livre. No fim das contas, acho que o nosso filme é apenas uma introdução à obra desse músico e dos artistas que o circundavam. A vida dele também é muito mais complexa e intrigante do que nós conseguimos dar conta em um filme tão curto (42 min).

Como são as suas lembranças da infância, com seus pais e amigos dos seus pais, a geração que retrata em Procura-se?

Minhas lembranças de quando eu tomei contato com essa turma e essas músicas são muito gostosas. Pra falar a verdade, elas me constituem afetivamente de forma tão profunda a ponto de eu nem pensar que são lembranças. Pra mim são um vocabulário que faz parte da minha maneira de pensar. Me lembro de perguntar para minha mãe por que que aquelas músicas, que eram tão bonitas e familiares não eram conhecidas por outras pessoas. Ainda que essa pergunta permaneça sem uma resposta definitiva, ela foi uma das motivações para o filme: se eu não posso respondê-la, posso propagar essa obra.

O cartaz de 'Procura-se"
O cartaz de 'Procura-se
Você acha que o filme fará com que uma nova geração entenda o universo tratado no filme?

A minha esperança máxima é que o filme abra portas para que todas as gerações tomem contato com esse universo, inclusive as que virão. Já o entendimento é mais complexo. Espero que as pessoas tenham diferentes reações, mas principalmente que sejam atingidas afetivamente de alguma forma

No fim do filme a atriz Luz Morena, que na vida real é filha de uma das personagens retratada, responde sobre qual herança a geração da sua mãe deixou para ela. Para você, qual herança e valores ficaram da juventude dos nossos pais para a nossa?

A principal herança no meu ponto de vista são as maneiras de se relacionar. E, claro, as músicas, filmes, fotos, todas as construções mais materiais. Acho que os valores e idéias que nos chegam são muitos, mas muitos deles são mais antigos que essa geração. Muitas das letras das música que aparecem no filme são de autores como Gil Vicente, Mário de Andrade, Fernando Pessoa. Quando você ouve, essas letras fazem muito sentido, são muito atuais. De resto, essas mudanças culturais e sociais que se comenta que ocorreram nos anos 60 e 70 já vinham fervilhando de maneira mais localizada nas vanguardas do começo do século XX e ainda estão por se concluir hoje. Não é à toa que a gente não se sente totalmente livre hoje: é porque a gente não é. Essa liberdade precisa ser inventada por nós, precisa ser ressignificada e isso depende de um esforço, disciplina e consciência enormes.

Após o festival, onde mais poderá ser visto?

Nós estamos nesse momento preparando as legendas pra fazer o filme circular. A idéia é tentar colocar no máximo de festivais possível. Com certeza o filme será exibido outras vezes em São Paulo, mas ainda não sabemos quando. Existe também a proposta de fazer algumas exibições seguidas de shows, mas sobre isso ainda não podemos falar muito...

SERVIÇO
Procura-se terá quatro exibições na 13ª edicão do festival É Tudo Verdade:
* UNIBANCO ARTEPLEX (RIO DE JANEIRO - RJ) - 01/04 - 18H00
* CINESESC (SÃO PAULO - SP) - 02/04 - 19H00
* CENTRO CULTURAL DA JUVENTUDE (SÃO PAULO - SP) - 03/04 - 20H00
* CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (BRASÍLIA - DF) - 20/04 - 16H00
Mais informações

Gaía Passarelli
Gaía Passarelli
YYSSW
comentários
1 comentários
Elizabeth
Elizabeth(03.04.08)
1AprovadoQueima
serah que o filme vai passar aki em barcelona ? estou querendo muito ve-lo.
recomendo o inforetinas www.retinas.org (eh uma iniciativa de producoes mundiais off comerciales, jah vi algunas pelis brasileiras atraves de projecto, pode ser una posible ponte entre os productores daki e os divulgadores da peli).
venga, saludos, BETO.