Maratona RRAURL
Nancy Whang
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Maratona RRAURL
Como um bom aspira, nosso novo editor se joga numa corrida semana de shows, sets e festivais. E sem fugir da rotina diária de trabalho.
14.11.07 17:15
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Diz o ditado que o bom filho à casa sempre retorna. Voltar ele volta, e de braços abertos será recebido. Mas nada como um exercício forçado para reaquecer os neurônios e puxar o afogador da rotina da animada família pinheirense rraurl.com. E no melhor estilo Tropa de Elite, jogamos Jade Gola, nosso novo editor, numa frigideira pelando de eventos nessa semana, aos quais ele escreverá um texto diário com uma análise ou relato paralelo das coberturas "oficiais" do rraurl e de outros veículos. Não se trata de um blog, mas pode-se dizer que é um bom teste para se entender melhor essa linha tênue cada vez mais confusa entre jornalismo, Internet e blogagem.

SÉTIMO E, ENFIM, ÚLTIMO DIA
O encerramento da maratona rraurl não podia ter sido melhor: pista espaçosa, som afiado e banda empolgada na apresentação do LCD Soundsystem, em viagem para divulgar seu segundo álbum, Sound Of Silver.
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LCD Soundsystem
Terça, 13 de novembro - Via Funchal

No guichê de imprensa do Via Funchal, na Vila Olímpia, a divertida assessora de imprensa Miriam Martinez comentava com alguém sob as restrições do LCD para a passagem de som Não podia ter ninguém lá, principalmente fotógrafos. "Eles expulsaram todo mundo, credo viu, esses gringos, eu hein", algo assim.

Deve ter funcionado tanto rigor, pois depois de vários shows com chuvas de reclamações, a casa presenteou o (pouco) público presente, enfim, com um áudio convincente. E o palco, iluminado em roxo e azul, era lindo, com aquele globo gigantesco no meio.

No começo o clima era decerto marasmo - culpa da expectativa excessiva, do som bicudo e viajandão do The Field antes e da casa de shows com vá lá, metade da sua capacidade. Foi um bom momento para seguranças treinarem patrulhamento na pista. Com um longo aviso de "Proibido Fumar", não foram poucos o que tiveram que apagar o cigarro ou ir para fora por causa de charutinhos ilegais.

ENGRENAGEM
O show começou num clima iê-iê-iê que fincou as pernas de quem esperava pular e dançar, muita gente gostou parece do mini-sets de 35 minutos para a Nike. Se foi assim com os Chemical Brothers, porque não seria com James Murphy, que parecia incomodado com algo, provavelmente o volume do retorno ou (ai meu Deus...) o microfone.

Foi com "Get Innocuous!" que a opereta CD engrenou na quinta marcha, e fica a pergunta: quanto de ensaio e comunicação clara e objetiva é necessária para acertar a sincronia entre pulsos, compassos, sintetizadores, teclados, baixo, guitarra e o dueto Murphy x Mahoney na bateria e percussão: meu Deus, era quase uma apresentação circense de coordenação: James batendo no bongô, cantando no seu microfone e segurando o prato da batera de Pat Mahoney. Enquanto bases e baixo seguravam o andamento, e a curiosa figura de Nancy Whang fazia os backing vocals da faixa.

Ápice com os combos electro e punk rock! "Tribulations" foi tão épica, comprida e re-editada quanto no Skol Beats do ano passado, e o cover para a primeira banda de Ian Curtis, assim como os shows do Planeta Terra, não só exemplificaram mas redesenharam o conceito de dance punk. Teve um momento que Pat Mahoney se desequilibrou na bateria sem perder o compasso, bem no final, era só ter levantado e quebrado, chutado tudo, teria sido perfeito.

MELODIAS
Para o final, a fofura rolou solta com "Someone Great" e "New York, I Love You but You're Bringing Me Down", que se não foi desconstruída ou tocada em versão extended, saiu impecável com - novamente ela -, Nancy Whang linda no teclado. Ao contrário do palco do Skol, no Via Funchal percebe-se que não só James mas também os músicos têm seu momento de protagonista, Nancy e Pat Mahoney que o digam. Vamos a algumas imagens então dos integrantes dessa beleza de banda.


Visão da pista lá pelas 21h45, no interessante mas monocórdico live do The Field, que com o hit "Over The Ice" queimado logo no começo, ficara para uma próxima tentativa, que tal num clubinho?


Axel Willner aka The Field.


E que duplinha hein? James Murphy - voz e percussão, e o baterista Pat Mahoney. O prato menor da bateria foi a grande estrela, alvo do pulso voraz e persistente de Pat.


Phil Mossman na guitarra e Nancy Whang, atenta, nos vocais e teclados. Pensou que as estrofes femininas, soltas e rápidas, eram filhas de chocadeira de laptop? Errou.

E foi isso. A maratona rraurl.com acaba tendo visitado e/ou assistido 25 artistas entre bandas, DJs, lives e produtores, além de quase 40 mil caracteres de texto, algumas catuabas, caipiroskas de kiwi e afins, e um cansaço febril que mais parece suspeita de dengue. Chega!

Fotos: Maurício Tux Santana


James Murphy & Pat Mahoney, Stephen Dewaele (2 Many DJs)
Segunda, 12 de novembro - Glória

Nada é tão secreto que não possa ser descoberto, e foi por forward de e-mail, papinho no MSN e afins que muita gente ficou sabendo - mas poucos foram - na festa surpresa que o Mixhell armou ontem no Glória e prometia "many many DJs".

A brincadeira textual era meio óbvia e quem apareceu por lá foi Stephen Dewaele, o mais velho dos irmãos 2 Many DJs e a ótima surpresa da noite, de fato: James Murphy e Pat Mahoney, líder/vocalista e baterista do LCD Soundsystem que lançaram o recente Fabric Live 36 (clique aqui), uma saraivada de hinos obscuros do melhor que há na música nova-iorquina.

HARD ELECTRO
Mixhell e Fabrizio
Mixhell e Fabrizio
A história começou tarde para uma segundona fria de primavera, com Fabrizio Martinelli, da banda emo Hateen, tocando um electro new raver pesado - exemplo claro do extremo rocker daa fusão rock-eletrônica. Um pouco exagerada para o começo de noite, Glória bem vazio, mas com a expectativa por ter visto James Murphy chegar com um case de vinil. Sim, vinil.

E depois do Mixhell, que prosseguiu por menos de uma hora no electro pesado ,mas com um providencial sacolejo funk carioca e de kuduro, entrou James Murphy e o grandão com cara de viking Pat Mahoney. Claro que como o Fabric, a história começou disco, umas faixas mezzo 70s, mezzo 80s, misturado com hinos clássicos da house - "Baby Wants to Ride" (Frankie Knuckles), e outra conhecida, mas que eu não lembro o nome, de mesma levada ragga acid de "Sun Can't Compare" (Larry Heard presents Mr. White).

Foi uma evolução imediata das dancinhas cambaleantes impulsionadas pelo reverb forte do electro, para um groovão animado, feliz, clima de festa no Upper East Side, música de gente rica. Da disco mais clássica ("Give me Love", do Cerrone, ápice da noite) a gritarias drag, uma aula de como Nova York reinventou o conceito de hedonismo e diversão em pistas de Studio 54 e bibocas gays no West End. Já leu a resenha do Camilo? Então clique aqui.

NEGRITUDE
Muito disso deve-se, claro, à música negra. Vocais recortados com gilete de mixtapes e encaixados minuciosamente no balanço de saxofones e pianos motown, caso de duas músicas que tocaram e que estão na compilação acima citada: "Love Has Come Around", sexy, de um misterioso projeto chamado Donald Byrd And 125th St, NYC; e a popzinha "Cowboys and Gangsters", de Gichy Dan, um ancestral electroclash, cheio de humor. Tudo isso numa pista - eu contei! - com menos de 90 pessoas, em plena segunda-feira. O LCD DJ set terminou num delicioso encerramento piano house em intermináveis linhas de baixo, protagonistas e funkeadas que renderam inúmeros "air bass" na pistinha do clube da Bela Vista.

Foi um set tão bom que nem uma exagerada idolatria à dupla incomodou, eles mereciam e estavam no clima, tão empolgados quanto o público, bastante imersos na música e na animação da festa que prosseguiu um pouco mais vazia só que com mesma boa vontade para o belga 2 Many DJ Stephen Dewaele levar a sonoridade para um lado mais ácido, pesado e versátil.

Stephen Dewaele
Stephen Dewaele
E as absurdas viradas secas e rápidas, sempre um hit intercalado entre duas faixas mais cruas, bombator? Quarenta segundos do refrão de "Standing In The Way Of Control" (The Gossip) e um acid house. Big beat, a insana "Cream" (de Federico Franchi, lançada esse ano, mas não é possível, isso é velho! - clique aqui) e um maximal inserido cirurgicamente, quase turntablism. Não que James Murphy e Pat Mahoney toquem mal, eles tem o timing afiado e entenderam bem a noção de corte seco quando não há muita técnica na sobreposição do beat, mas por vezes o clima alternava demais, mesmo dentro da esfera house/disco. A técnica deles é mais orgânica, orquestrada, e deve ser esse o espírito hoje, no Via Funchal.

Fotos: Gustavo Louver


MARK FARINA
Domingo, 11 de novembro - Pacha

Para quem nunca foi - meu caso -, a Pacha pode assustar à primeira vista. Um galpão gigante, duas pistas com uma terceira prestes a nascer (Global Room) e toda aquela estrutura de shopping center clubber: pizzaria, sushi bar e espaços mil. Que clube você já foi que tem balcão de informações? Lustres gigantes de tule e inteligentes barras para acesso, que impede a formação de rodinhas humanas e garante um fluxo certo em casos de lotação, garantiram uma boa impressão inicial.

Tem também todo o estilo do público Pacha, sempre muito animado. Centenas de boys, ravers saradões, universitários e gatinhas do psy, que mostraram que pata bota de bode, calça justa e top combinando são uma realidade muito disseminada.

SEGUINDO O MESTRE FARINA
2003 - Skol Beats (Tenda cheia)
2005 - D-Edge (best Freak Chic ever)
2007 - Vegas (Lotado, mas valeu)
2007 - Pacha (Farina feliz e uplifting)
Nesse domingo rolou uma boa oportunidade para conhecer o mega-clube do Ceasa: um DJ set de Mister Mark Farina, sua milésima vez por aqui e quarta apresentação deste fiel seguidor.

Foi uma boa prova de que house music consegue suplantar sem traumas uma apresentação de prog em pista a céu aberto da Pacha. Quem não gostou do clima mais low-profile tinha ainda todo o corredor externo de madeira e os outros labirintos do clube para passear ou se jogar no clima de pegação, que era forte e fazia da pista corredor em vários momentos.

FUMA UM BECK, FUMA UM BECK
Farina com o sol se pondo lembrou o Skol de 2003, o primeiro no Autódromo, bem no fim da tarde, quando ele tocou até "Talking In Your Sleep" (clique aqui), num remix incrível do The Romantics (quem tiver, please, mande o meu e-mail). O mestre de Chicago estava bem-humorado, simpático e empolgado, mexendo sem medo nos médios e graves como um instrumentista toca suas músicas (essa é a idéia de DJing afinal, não?), além de dancinhas para a frente e para trás onde suas mãos iam de "air piano" ao boom de loops e batidas que estouravam num groove que saíam ninguém sabia de onde, difícil de segurar a cintura e/ou a mão para o alto.

Teve uma série de músicas intercaladas em faixas jamantíssimas que merecem atenção especial: uma com o vocal de "Neon Lights" do Kraftwerk sob bumbos bem de Chicago (hoje em dia acelerados para virarem fidget house; "King of Bongo" do Manu Chao; "Heater", do Samin (e daí?); e a divertida "Bonde Fumegante", parceria de Nego Moçambique e Prztz aka Dudu Marote, quase um funk carioca em versão house com letras bem suspeitas: "Andando pela festa com os muleque, fuma um beck, fuma um beck / Andando pela festa a história se repete, fuma um beck fuma um beck". Dito e feito.

Tocar "Heater" não é nada para um artista animado que obviamente estava a tocar o que gosta. Inúmeros momentos de alma FM, vocais raggapop que lembravam Bob Sinclair e afins aconteceram, sem culpa. Tanto é que no final ele gesticulou algo na linha "foi bom então?" para um fã mais empolgado ali na frente e quem respondeu foi quase todo mundo com um êêÊÊêêÊÊÊÊêÊê. Dá-lhe Farina.

Fotos: Augusto Mestieri

DATAROCK, CSS E THE RAPTURE
Sábado, 10 de novembro - Planeta Terra

Nos telões do Planeta Terra os artistas eram descritos de maneira duvidosa pela simples combinação estilísticas de seu som. "Jon Carter - Mescla ragamuffin' (?), electro e house", e por aí vai. Tinha até alguma banda que misturava electro, pop, reggaeton e afoxé com "college". Enfim, muitas palavras que não não dizem nada, mas podemos pegar um gênero, um só, que dá para pontuar bem a vertente sonora de todo o festival, o mais bem organizado do ano até agora: a dance punk.

O ápice disso foi a seqüência de shows esmagadora a partir das 21h no Indie Stage: Datarock, Cansei de Ser Sexy e The Rapture. Cada um com suas peculiaridades geográficas, sua atitude exagerada e convicente, além da boa demonstração do melhor que pode sair da combinação rock + bases dançantes. O Datarock é uma banda norueguesa estranha que cria de maneira orgânica bases melodramáticas de metal melódico, bastante aceleradas, daqueles que o Justice buscou em obscuridades dos anos 80 para criar a estrutura de Cross. 90% da capacidade da banda seguir bem nessa época é pelos méritos de seu baterista, o pulso mais mole, rápido e coordenado visto no Planeta Terra. Cada música encerrada era uma baqueta voando pra cima e caindo de volta na mão e no prato. Depois de quatro, cinco vezes repetindo o gesto, deu para começar a entender a pose deles.

Não chegava a ser um The Bravery épico, graças a Deus, mas é toda uma presença de palco para impressionar - o sintetizador no chão, machucando a lombar de quem toca notas que por vezes lembram Huey Lewis num estúdio presos com o Sepultura. As influências óbvias estavam ali, aprimoradas: o gogó Depeche Mode sem a frescura vampiresca, Ramones da era digital e Tom Tom Club, além de rock alternativo de alma jovial - "Nightflight do Uranus", punk pop. Momentos magistrais com os hits "Computer Camp Love" e o encerramento com "Fa Fa Fa" e seus 13 fás, com direito a mais baquetas voando do bateirista que acabou num moshe (foto) com cover de "I've Had the Time of My Life", do filme Dirty Dancing. Inesquecível, punk é auto-xoxo.

CANSOU?
Foi um surpreendente warm-up para a volta do Cansei, o vestibular final para que a banda paulistana provasse algo - ou não - ao público daqui. E o êxito foi óbvio, a expectativa era essa e, se o Brasil consegue a copa de 2014, porque o CSS não poderia fazer um puta show depois de toda a experiência de turnês na gringa, blábláblá, etc., etc.? Lá de trás, Lovefoxx lembrava um misto de Marilyn Manson com Antony Hegart (do Antony and The Johnsons) no seu look palhaço new raver. Balões de gás hélio serviram de enfeite e vocoder para a já aguda Luisa numa música que eu não lembro, tocada pouco antes da versão death metal de "Off The Hook". Uma menina mais nervosa que a outra, guitarra, teclados, bateria... Muito batidão nas baquetas também de Adriano Cintra e de bases eletrônicas que saiam de algum lugar misterioso, que ninguém sabia.

A banda situou-se numa coerente cronologia do rock ao fazer o cover de "Pretend We're Dead", da banda de lesbo-rock L7. A versatilidade do Cansei mistura momentos de brincadeira a la Show da Xuxa e riffs brincalhões, oitentistas ao extremo que junto com a palhaçada lembravam a Trash 80s. Lá da frente o som estourava, mas a amplitude daquele depósito de quase 200 metros de comprimentos, estruturado por 10 arcos de concretos gigantes, só podia dar algum eco ou reverb exagerado lá atrás.

Não é torcida ufanista, mas a única razão pela qual o Cansei provou enfim seu valor foi pela capacidade de tocar bem rock quase metal, eletrônico, pop com Lovefoxx firmíssima no vocal ("Let's Make Love (And Listen to Death From Above", um clássico já), e sim, a performance de palco. Para rápido efeito de comparação, o TIM de 2004 se baseou em gracejos e fofurinhas com amigos na platéia tentando disfarçar um óbvio desconforto com o som e a responsabilidade de estar ali. Agora o que se viu foi uma banda de verdade que tem, sim, sua pose com bexigas, meninas de pé na bateria agradecendo a fãs, mas que tocam bem e lembram o sábio conselho que Keith Richards já deu: "Você precisa escolher uma hora se quer ser apenas um idiota famoso ou um músico de verdade."

A CASA CAIU
Foi difícil sair do Devo para ver o Rapture, mas eles tocaram "Whip It" logo e como eu tenho 25 anos, não pude deixar de ver a primeira vez da multi-banda nova-iorquina em São Paulo. Quem chegou com o show já rolando se assustou com a barulheira, talvez alguma disfunção técnica sim, os vocais de Matt Saffer e do estridente Luke Jenner eram ouvidos com esforço. Mas tudo bem quando se tratou talvez do som mais pujante do festival: baixo destruidor, o compasso o tempo todo no cowbell sincronizadíssimo - talvez o maior esforço para alguém aprender a tocar seja a coordenação, não existe exercício melhor de ouvido e pulso do que aprender a tocar um cowbell. Fora o groove, o espírito motown, palminhas eletrônicas e humanas, guitarras empunhadas por jovens nova-iorquinos de calça skinny e que ouviram muito rock inglês, muito Suede, Verve. Tudo que o Hot Chip precisa de anos de palco para conseguir fazer.

"Sister Saviour", hit do primeiro álbum, Echoes, mostrou que nem baladismos soltam o elástico energético do rock dançante do Rapture, bombator em todas as pontes para refrões. Era só ver o tira o pé do chão que foi "Whoo! Alright-Yeah...Uh Huh", no primeiro bis. A bateria azul cromada seguia a batida não como um protagonista, caso do Datarock, mas um adendo ao eletrônico, que dessa vez tinha presença no palco, com alguém nos controladores, synths e laptop.

E com uma expectativa para o show do LCD semana que vem, foi fácil e gostoso perceber a levada DFA ali, o BPM firme e o fôlego do gogó gritado, a bateria incessante, a guitarra punk de notas curtas e arrepiadas. Uma banda dance de fato com saxofones e óbvia influência black, até possível na Noruega, mas que é outra história quando se trata de Brooklyn, NYC. Na verdade, James Murphy não deve ter tido muito o que mexer ali, só limpar alguns acordes e regular a nitidez do vocal.

"House of Jealous Lovers" foi o esperado, o refrão get dooooowwwwn transformou o Indie em empurra-empurra rave, uma micareta dance que resumiu todo o espírito de poucos anos, 2003 para cá - claro que remete ao começo dos 80s, Talking Heads e tudo mais -, mas aquele segundo bis inesquecível, eletrônico, nos moldes de Björk no TIM com "Hyperballad", fez de "Olio" uma das músicas do festival. Over and Over and over again - Ripped in the Shadows, que assim como Datarock e CSS provaram mais do que o esperado, fez o grupo de Nova York mostrar quem é que desenterrou essa história de punk music para dançar.

FATOR PUNK
A noção de punk hoje em dia é perigosa. Em SP são idiotas que brigam em gangues, não há mais movimentos contestadores apesar da lembrança do que a música pode comunicar - vide o show do Devo, mas muito do que os punks lutavam e exigiam 30 anos atrás nós já temos estabilizados e não é problema algum querer apenas dançar, com atitude exagerada, punk de boutique. E paralelo a tudo isso, o punk como noção musical, de atitude, de pegada, de empolgação, expectativa e catarse. Tudo isso dentro do conforo do sistema, num festival organizado, limpo, seguro, que tinha até porta-bituca. Dance punk para as massas!

Fotos: Alberto Boni


ALEXANDER ROBOTNICK
Sexta, 09 de novembro - D-Edge

Alexander Robotnick é uma figura. Nascido Maurizio Dami, o animado cinquentão italiano encarna bem duas décadas essenciais na formação da música eletrônica (70s e 80s) com um importante parênteses atual: ele é DJ há apenas cinco anos. E só se tornou após, enfim, aprender a usar os laptops, já que talvez para espanto de alguns ele sempre menosprezou os vinis. Curioso para um artista que consegue expressar o melhor da música eletrônica de Kraftwerk, Giorgio Moroder e outras sonoridades como Liaisons Dangereuses, entrando no rol dos artistas que ajudaram a formar lá nos anos 80 o que a conhecemos hoje como electro.

Ele fez a alegria no D-Edge, que estava o contrário do Booka Shade @ Clash em lotação e predominância de gênero sexual. E ainda tinha um clima de patota clubber vintage no ar. Robotnick é daqueles DJs imersos em seu próprio mundo enquanto toca, mas é uma introspecção animada, fervida, cigarro na mão o tempo todo, drink, óculos de tiozão e muita, mas muita dança. Não é um showman para o público, ainda mais que com o clube com lotação média e momentos de electro mais pop no sentido mais "calmo", não que tenha tocado três faixas do Human League e duas do Soft Cell. Afinal, não era Grind, e o ápice foi com o hit de 1983 "Problems D'Amour", daquelas que muita gente conhece mas não sabe de quem é, e que passou pela pista da Barra Funda incólume, tranqüila, assim como outra raridade de fita K7 gravada na infância (pelo menos a minha): "Hypnotic Tango", do trio alemão My Mine. Clique aqui e veja o vídeo no YouTube. Muito synth, muita afetação, glamour e um duvidoso topete.

DÉCADA PERDIDA?
Na real, o clima não era oitentista, mas sim aquele início de 2000 quando os anos oitenta voltaram como uma deliciosa referência retrô. Muita pulseira de pino, camiseta preta, sombra no olho e festa no CIO do Stereo. O set do Robotnick lembrou muito Magal naquela época, lembrou também, nos momentos mais ácidos o David PET tocando new wave. E muitas faixas mostraram de que mamadeiras se alimentaram o electroclash e o new rave de hoje. Dava até para brincar e cantar alguma letra da Miss Kittin por cima.

Mais pra frente, qualquer clima ameno de electro pop foi embora e quem viu, viveu, Alexander Robotnick cantando "Dance Boy Dance" por cima das bases, para em seguida descamisar-se e misturar acid house, com "Smalltown Boy" (Bronski Beat), com algum techno de fácil digestão a ponto de ser fundido com "Perfect Kiss", do New Order e bons momentos de italo disco. Tudo isso em knobs e teclas de um controller Edirol PCR-3000, nada de vinil ou CD.

Mais para o final, quando 50% da boite se arranja e vai para casa acompanhado, ficou aquele clima sempre bom do Freak Chic de festinha, palco perfeito para Maurizio Dami encerrar seu live com a boa opinião de que o italiano consegue misturar bem 4x4 com faixas conhecidas, mas não de apelo pop exagerado. Exemplo, "Perfect Kiss" ao invés da cansada "Blue Monday", "Pocket Calculator" ao invés de, sei lá, "Boing Boom Tschak", do Kraftwerk, música a qual, apesar de seus hits próprios, consegue capturar bem o clima da música de Robotnick: versátil, pop, dançante e animada. Era só reparar nos pulos e na dancinha dele.

Fotos: Fabio Tavares


BOOKA SHADE
Quinta, 08 de novembro - Clash Club

Quarta, ali na frente do palco do Chemical, avistei Walter Merziger e Arno Kammermeier, respectivamente o cabeludo e o careca do Booka Shade, assistindo à apresentação dos ingleses com tanta animação quanto alguém que lê folheto de seguro de carro na fila do banco. "Eu respeito muito o trabalho deles, mas não gosto muito", contou Arno, o mais simpático, depois que puxei papo só para elogiar como foi bacana a idéia de mixar "Numbers" com Brigitte Bardot no DJ-Kicks deles, lançado há pouco tempo.

Ele disse também que o Booka não faz DJ set - o que é curioso tendo em vista a criatividade na elaboração da compilação citada, e que também não faria sentido tocar músicas dos outros porque não cabia na "performance de palco".

A coincidência foi que no dia seguinte ao show no Credicard Hall eles tocaram numa festa promovida por uma alma generosa (e secreta) que desembolsou 15 mil euros de cachê e fechou o Clash apenas para convidados, que haviam sido "bookados para uma festa inesquecível", segundo o flyer. O nome da festa, "Única", corroborava a idéia.

PERFORMANCE
Então lá fomos, Clash lotado, promessa de um live pontualíssimo às 01h30 que começou 02h e pouco no requisitado palco de cinco metros, impedimento fatal para clubes que tentaram contratar o live.

O que rolou pode ser resumido justamente numa expressão usada por Arno: mais que a música, foi a performance de palco. Foi pouco mais de uma hora de um live correto para um público errado, ou equivocado ao menos, aquela velha história: muita gente andando na pista, muita rodinhas exacerbadas e pouca atenção ao artista, se é que essa era a intenção.

Lá na frente alguns fãs e singelas manifestações de reconhecimento à música: a intro da nova e linda "Numbers", que infelizmente assim como o Chemical em vários momentos, podou o vocal; "In White Rooms", o ponto alto e o óbvio highlight em "Mandarine Girl", onde a associação básica de um hit aconteceu, mas já era tarde, fim de live. "Aii, essa música eu conheço", foi o comentário ouvido não apenas por uma pessoa.

MÚSICA, O MENOS IMPORTANTE
Arno e seu mic
Arno e seu mic
Curioso que, ao contrário do Chemical, que no começo parecia dar de ombros ao humor médio da pista, o Booka agradecia a cada música encerrada, que era sempre acompanhada de uma desnecessária parada. "Obrigado, obrigado. SÃO PAULO!". Aplausos eram justos, principalmente para o pulso mole de Arno na bateria eletrônica e nos botões de alguma máquina, às vezes as duas funções juntas. Walter também estava empolgado nos laptops e no microfone Madonna que estava lá de enfeite, já que não foi usado. O tempo perdido nessas firulas dava para ter usado para tocar a versão extended de "Numbers", com o vocal.

Foi mais um episódio da sempre cabalística presença do Booka Shade no Brasil: no TIM RJ do ano passado, aquela muvuca no corredor-pista para um live 150 vezes mais animado e potente. Semana passada, festança playba na Daslu regada a drink de sorvete. E no Clash, outra festa para playboy - com o perdão da palavra temendo ser preconceituoso.

A atmosfera realmente era de balada no seu sentido mais superficial, e por mais que a dupla alemã tenha empolgado um pouco por seu ânimo e a tal presença de palco - é um show, não se pode negar -, o clima no geral foi justamente o que o flyer mais propôs: estar convidado para uma festa fechada exclusiva para poucos com uma atração famosa, internacional e cara. Claro que havia inúmeras exceções nessa constatação, gente interessada, bacana, alguns momentos animados. Mas podiam ter explicado para a maioria que o mais importante não era a exclusividade, e sim a música.

Fotos: Gustavo Louver


1º DIA - CHEMICAL BROTHERS
Quarta, 07 de novembro - Credicard Hall

O palco do Credicard Hall estava roxo e escuro como o purgatório enquanto James Holroyd quebrava uns breaks e a multidão se aglomerava curiosa ali na pista da arena da Marginal Pinheiros. Dava medo, mas essa atmosfera The Knife acabou quando o DJ vazou e o palco esfumaçou para Ed Simons e Tom Rowlands chegarem tranqüilos, como qualquer reles mortal prestes a pegar no batente.

E se em 2004 o Pacaembu recebeu os Chemical Brothers de forma magnânima, o clima do Credicard Hall no começo era bem esse, dois caras que estavam sendo pagos para tocar - não havia muita mística, muita idolatria mútua entre público e artista, mais uma curiosidade misturada com ansiedade e pressa, já que a história começou um pouco cedo, umas 22h30. Não chegava a ser uma antipatia, mas o clima estava frio. O vocalzinho de "No Path To Follow" contextualizou a dupla, só que eles já queimaram "Burst Generator" na seqüência, faixa que tinha tudo para ser daquelas para encerrar o show em delírio coletivo.

Alguém falou em Justice?
Alguém falou em Justice?
Então dá-lhe estrobo piscando e luz soltando, pulando... Ali do meio a sensação era um pouco frustrante a la Via Funchal: o som parecia reverberar demais, com o grave tímido e o médio quase inexistente. Talvez por isso eles abriram mão dos vocais. "Galvanise" ficou só no grito don't hold back! do público e deixou passar a chance de provar ao vivo como as críticas à Push The Button (2005) foram injustas, "All Rights Reversed" veio com os Klaxons distorcidos até o talo, dava até dó. "Out Of Control" foi assim, até que "Hey Boy, Hey Girl" entrou e óbvio, teve o vocal. Manjado demais? Se "Hey Boy..." veio inteira, por que "Salmon Dance" não veio? Foi difícil entender essa relação deles com os hits. Isso era o que passava aquela hora nesta cabeça cética, bastante influenciada pelo clima de marasmo ali do povo no meião.

REDENÇÃO vs CATARSE
Mas Tom Rowlands, sempre o mais simpático, começou a puxar o coro da torcida, o estrobo diminuiu, a batida ou aumentou ou os ouvidos se acostumaram com o reverb exagerado e surgiu a celestial "Star Guitar". Emotiva, epopéica e enfim com a letra até o final, proporcionando a catarse "you should feel what i feel..." cheia de olhos piscando no telão. Não por acaso, a reação do público mudou, passou o clima de começo de festa e muita gente começou a ficar estranhamente pululante e exaltada, exageradamente suada e com um bruxismo esquisito.

Logo, a constatação de que o Chemical funciona de maneira muito diferente sobre efeitos químicos, isso é um fato óbvio que remete às origens noventistas da banda, quando ecstasy ainda não matava adolescentes em raves de Psy na baixada fluminense. "Star Guitar" foi criada em 2002, mas remete à época que "Dig Your Own Hole" e "Get Yourself High" (essa tocou!) significavam mais do que bonitinhos nomes de músicas.

Dali pra frente tudo fluiu, as projeções do palhaço sinistro, a fauna de elefantes, pássaros e felinos, bailarinas, os senhores britânicos de chapéu dançando e os robôs do meio-final ilustraram um combo de hits sensacional. Um exemplo foi "Sunshine Underground", linda, uma das faixas mais emotivas e psicodélicas que o Chemical já fez. Some a isso as bolhas de tinta de "Saturate", a gaitinha de "Das Spiegel" tocada ao vivo e a fusão de "Leave Home" e "Block Rockin' Beats", quebrando tudo e mostrando como o big beat é break beat, e o trabalho cotidiano deles virou festa.

BACK TO 2004
Lá em 2004 no Pacaembu houve uma narrativa parecida, mas o clima do estádio - e do frio que fazia, junto com uma garoa -, deu outra percepção. Lembro de que o momento em que minhas pernas foram picotadas e a percepção de momento foi completamente invertida naquele show foi quando eles soltaram "Got Glint", inteira, que eu mal lembrava que era uma das minhas prediletas deles.

Então não importa onde, nem quando e nem qual música foi tocada ou deixou de rolar, o Chemical sempre vai tirar uma carta dos knobs e vai fazer sua vida mudar ali, naquele instante. É o efêmero da música eletrônica, sua catarse instantânea como elemento essencial, abastecido por batidas e/ou substâncias químicas. E se isso parece papo de clubber velho ou zé droguinha deslumbrado, é bom lembrar que em 2008 completa-se vinte anos do último verão do amor, que só existiu com o advento de uma nova droga - o ecstasy, e de uma nova vertente musical - a acid house.

Fotos: Alberto Boni

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
comentários
60 comentários
Manu
Manu(23.11.07)
0AprovadoQueima
Nossa..... Cansei junto! hauhauhaua A academia não tem feito bem a vc, Xade! Muita endorfina, minha gente! :)

Lets get physical.
O comentário do Rodrigo ali atrás é bastante pertinente!
kaks
kaks(17.11.07)
0AprovadoQueima
mark farina incrível mesmo! derek carter não precisa nem mais vir...nada mais a dizer
Lucio Morais
Lucio Morais(16.11.07)
0AprovadoQueima
Otima materia!
pevermelho
pevermelho(14.11.07)
0AprovadoQueima
me dá o microfone, quero falar uma coisa:

SWEET :)