Late of the Pier
Ingleses se redefinem a cada música
14.09.07 11:25
Vamos fingir que a new rave não existe, pelo menos por hora, para podermos fazer um Perfil sobre a banda Late of the Pier que seja 100% original. Afinal, todas as resenhas, perfis e comentários encontrados na internet, os limitam a esse movimento modista e passageiro. E, às vezes, o mundo todo está errado e é sua obrigação, como cidadão esclarecido, nadar contra a correnteza. E esse, caros amigos, é mais um destes momentos. Porque o new da banda em questão é outro: o estilo deles se encaixa, quase que perfeitamente, na new WAVE.
Quando quatro adolescentes de Castle Donington, (a cidade mais heavy metal de toda Inglaterra), que preferem ouvir Brian Eno e dançar música sintética se encontraram em 2003, nasceu o Late of the Pier. O objetivo? "Fuder com tudo o tanto quanto for possível... mas então decidimos que o sol estava muito forte e não estavamos calçando as meias corretas para o dia. Por isso, voltamos para Zarcorp Inc. (industria multi-bilionária que cria grupos e artistas em linhas de produção) e escrevemos mais algumas músicas bombásticas e terminamos nosso cigarro", nas palavras desconexas do vocalista Samuel Dust.
2005 é o ano em que a banda entra em estúdio pela primeira vez. A gravação do EP Zarcorp Demo apresenta 10 faixas que mostram uma banda com ricas e criativas idéias, mas que esbarra na petulância típica de meninos em bandas (a faixa etária deles na época era de 17 anos), na pouca familiarização com seus instrumentos e no provável "medo" da estréia no estúdio. "Nós queremos que cada música expresse um sentimento diferente", disse Sam sobre a banda, porém o produtor (se é que existia um) não conseguiu fazer crescer as idéias da banda resultando num EP sem foco e ruim.
Um ano depois, a banda finalmente lança seu single de estréia, "Space and the Woods", por uma pequena gravadora inglesa, a WayOutWest. A música que fazia parte da demo ficou quase irreconhecível: com nova forma, batidas mais marcadas e sintetizador frenético, a banda se apropria de elementos característicos da new wave da virada dos 70 para os 80 e o atualiza com elementos da nova cena art rocker inglesa. De letra soturna e derrotista ("Suicide is in my blood, it always was. Its doesn't evaporate in the light anymore"/Suicidio está no meu sangue, ele sempre esteve. Ele não evapora mais na luz), a música chamou a atenção da nação blogueira internacional que a espalhou como notícia ruim, até que ela alcançou as pessoas certas. As pessoas influentes.
Criador da Trash, umas das festas mais conhecidas no mundo e que terminou esse ano, o produtor e DJ Erol Alkan se encantou de imediato com o Late of the Pier. Em recente entrevista, o DJ se derrete pela banda dizendo "Eles não são apenas a mais nova banda, eles são a banda mais excitante do momento." Após uma troca de e-mails, ficou decidido que Erol produziria o próximo single do grupo, a inédita "Bathroom Gurgle". Com influências psicodélicas, a música passa por diferentes fases até alcançar o semi-refrão cantado em maneira deseperada "So put your hands on your waistline/And move your body to the bassline/And get your hands on some cheap wine/ Então coloque suas mãos na sua cintura/ E mova seu corpo na linha do baixo/ E arranje um vinho barato"; nonsense nunca soou tão charmoso.
É assim, devagar, com bons contatos, acreditando que cada música pode criar seu próprio movimento que o Late of the Pier cresce e começa a se destacar como uma das mais promissoras bandas de 2007. Lembrando que dificilmente a banda alcançará algum tipo de sucesso comercial, afinal o mundo não costuma reverenciar artistas inovadores e cheios de si.
Pronto, agora a new rave pode voltar a existir.
Quem é: Samuel Dust (vocal e guitarra), Jack Paradise (bateria e percussão), Francis Dudley Dance (baixo), Red Dog Consuela (sintetizador e samples)
Como é: rock noturno, oitentista, new wave, artrock, alternativo, psicodélico, dançante
O que ouvir: os dois singles, "Space and the Woods" e "Bathroom Gurgle".
Para quem gosta de: Foals, Twisted Charm, PiL, You Say Party! We Say Die!, Human League