COLUNA ANZOL: Olhando ao redor
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COLUNA ANZOL: Olhando ao redor
A cena podia prestar mais atenção no que acontece por aqui
15.08.07 15:35
Se o mundo fosse um grande clube, onde exatamente ficaria o Brasil? Não é difícil imaginar que a Alemanha e o Reino Unido se revezariam nos mixers (ou nos bares...), que a Espanha seria a pista de dança, a Itália o "terraza", e que aos Estados Unidos caberiam as bilheterias (sim, o mercado norte-americano é o maior do mundo até no quesito música eletrônica). Mas, e países periféricos como o Brasil, será que teriam algum espaço nesta brincadeira, ou ficariam limitados ao velho clichê de "drug dealers" sul-americanos do pico?

Deixando de lado o delírio e a tosqueira da caricatura acima, hoje parece óbvio que o Brasil já não é mais aquele exótico e pitoresco país com uma cena eletrônica idem. Afinal temos pencas de DJs bem-sucedidos, alguns ótimos produtores, festas e clubes cheios, a imprensa noticiando (e principalmente, sites fotografando) tudo isso, e por aí vai. Mas será que a tal da cena vai assim tão bem das pernas?

Esta foi a pergunta proposta em uma das matérias principais da primeira edição brasileira da revista DJ Mag, na qual alguns DJs e figuras da noite disseram o que pensam sobre a quantas anda nosso meio eletrônico. Em linhas gerais, as conclusões remetem quase todas ao fato de que hoje temos uma popularização nunca vista do estilo no país, com as inevitáveis benesses e riscos que ser pop impõe.

Mas o que passou despercebido na matéria da DJ Mag e pode ser um ponto importante nessa história toda, é que apesar de estarmos vivenciando um "boom" da eletrônica nacional, parece faltar uma base sólida para dar sustentação àquilo habitualmente referido como a "cena".

NEGÓCIOS "CULTURAIS"
Ora, quem sustenta esta cena, ou seja, o grosso do público que freqüenta os eventos eletrônicos, é gente atrás de "balada" (bebidas, "azaração" e tête-à-tête, seja a trilha sonora sertaneja, axé ou eletrônica), por mais que a "cena" possa ir muito além disso. Isso explica, de pronto, o fato de música eletrônica ser encarada antes como um nicho no mercado de entretenimento e só depois como um segmento cultural, o que pode até ser bom por fazer dela objeto de interesse de quem pode pagar caro para fazer grandes eventos, mas ao mesmo tempo pode ser péssimo por mercantilizar demais algo que é, essencialmente, arte.

A conseqüência disso já é conhecida: homens de negócios assumindo o papel de curadores culturais, o que significa submeter o público somente a atrações financeiramente interessantes, quando não às mesmas atrações de sempre.

Na prática só não é possível mobilizar o aparato que envolve muitos músicos, locais e pessoas apenas em torno de coisas literalmente baratas, porque há um comprometimento, ainda que mínimo, com o conteúdo dessa cultura, e é ele que dá todo sentido ao movimento. Melhor ainda: este pode ser o caminho mais curto para que a cena brasileira não fique tão vulnerável às tendências estrangeiras ou às cotações de mercado.

Apesar de soar complexo, o tal do comprometimento é algo que consiste em uma infinidade de coisas simples e fáceis. O que parece faltar à cena atual é sair só um pouco do isolamento e beber mais em fontes próximas e riquíssimas como a literatura, o cinema, as artes plásticas, cênicas, enfim... Chega a ser triste ver tão poucas referências bacanas à literatura ou até mesmo à música brasileira na cena de um país que possui uma diversidade cultural imensa.

LUCIANO VS MERCEDES SOSA
Se o produtor chileno Luciano usou vocais da cantora argentina Mercedes Sosa em uma faixa sua no começo deste ano, ou se Samin, produtor suíco-iraniano, é dono de um dos maiores hits do ano ("Heater", pelo selo Get Phisycal) graças à uma base de acordeom de uma canção folclórica, porque em um país como o Brasil é tão difícil ver iniciativas como a recente interpretação de Mau Mau para O Guarani?

A onda minimalista representada por DJs e produtores é outro exemplo de movimento que vai muito além de sonoridades. Até Sasha já assumiu influência de Shakespeare para dar o nome a um álbum. Porque, então, nossa cena não se relaciona só um pouquinho mais com a literatura nacional, ou não estende seu interesse para áreas como nosso crescente cinema?

Conquistar um lugar definitivo no grande clube do mundo exigirá muito mais do que pistas cheias, mulheres e visuais exuberantes enfeitiçando DJs gringos em visitas ao país. Se a nossa eterna preguiça for deixada só um pouco de lado, será possível construir uma história belíssima para tanto, com direito a roteiro, cenário, fotografia, e é claro, trilha sonora nacional.

João Anzolin
João Anzolin
twitter.com/joaoanzolin
comentários
18 comentários
João Anzolin
João Anzolin(04.09.07)
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Juliano:

- A coluna foi uma observação, e muito mais construtiva do que negativa.

- Homens de negócio: nada mais natural que eles fiquem com a parte de organização dos grande eventos, mas contratar ou chamar curadores culturais é rotina em qualquer evento grande decente, até por profissionalismo. Ou seja: homens de negócio bons no que fazem chamam curadores :)

- O "boom" da cena brasileira é recente sim: se em cidades como SP, Curitiba, Porto Alegre e algumas outras (poucas) são movimentos "antigos", foi nos últimos 3, 4, 5 anos que ela estourou mesmo no resto do país.

- Não toquei nos assuntos "underg x mains" ou sobre "panelas", acredito que vc confundiu alguma coisa...discussões de outro site mantemos no outro site ok? :)
Rodrigo SM
Rodrigo SM(25.08.07)
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"Discutir a cena" soa tão século XX...
Juliano
Juliano(23.08.07)
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Bom João, se é para falar então vamos falar. Homens de negócios na balada? Lógico que devem existir, ou você acha que um festival de milhões de reais, como o Skol por exemplo, ficará nas mãos de jovens inexperientes? E não me venha com o velho papo de mainstream X underground, porque o under não paga as contas de ninguém.
Os sites de e-music também não querem ganhar uma grana? O rraurl ainda tem matérias bacanas e está por dentro da cena local e mundial, mas o outro site que você escreve, é um "típico exemplo de panela" (curitibana) de informação. Me desculpe.
Sempre as mesmas atrações? Maravilha, se existe público para os mesmos. E os artistas desconhecidos pela "massa"? Por a caso alguém comparece?
Você ainda está no "boom" da música eletrônica? Nossa, nós já estamos a frente disso faz tempo, não?
Esse papo me cansa na verdade, porque pessoas como você só sabem criticar negativamente a cena. Que tal uma crítica construtiva?


...
...(17.08.07)
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Claude Vonstroke tocou heater no d.edge e a reação foi boa... e por favor corrigi a nacionalidade do Samim...
camilo
camilo(16.08.07)
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Quando mostrei "Heater" para um amigo ele me disse "se tocarem isso no D-Edge vão jogar lata no DJ" o que meio que resume a postura de mta gente na cena com qq coisa que tenha uma cara mais "étnica", "regional" ou "folclórica".

Acho que o Anzolin não está nem sendo nacionalista nem pedindo a volta daquelas musiquinhas com batucada pra gringo ver e sim está dizendo que, diante do vasto acervo cultural nacional, as tentativas de fazê-lo dialogar com a Música Eletrônica são mto poucas. E, claro, estamos falando de coisas inteligentes e criativas, não de CDs de "bossa lounge" para colocar na estante da Etna.