Tony Wilson (1950-2007)
Morreu um dos personagens mais importantes da música inglesa
13.08.07 21:20
"Eu sou a pessoa nesse negócio que todo mundo sabe que nunca ganhou dinheiro. Costumava dizer que algumas pessoas fazem dinheiro enquanto outras fazem história o que é muito engraçado até você descobrir que não tem condições de se manter vivo."
Tony Wilson morreu de ataque cardíaco na sexta-feira (10/8), aos 57 anos de idade, depois de uma vida onde fez muita história.
Seu problema maior era o câncer renal e a parada cardíaca, na verdade, não estava relacionada com isso. Sua situação era complicada: ele não tinha como pagar o remédio que o ajudava a segurar o avanço do câncer. Este custava 3.500 libras por mês e, durante muitos anos, foi custeado por um fundo que recolhia doações, especialmente de pessoas ligadas à indústria musical.
Não é à toa que tinha tanta gente querendo ajudar. Tony Wilson foi um dos maiores heróis da música inglesa dos últimos 30 anos, peça-chave em momentos como o punk, o pós-punk e a acid house. Numa história onde geralmente só os músicos aparecem, Tony se destacou como apresentador de TV, radialista, lançador de bandas novas, empresário, agitador cultural, dono de gravadora, dono de clube e cara com um faro especial para capturar tendências. Apaixonado pelas artes, idealista, obstinado, exibido, falastrão, egocêntrico, com gosto pelo subversivo e pela filosofia, ele era uma figura absolutamente única no meio musical. Sua missão maior era tornar a decadente mancha urbana pós-industrial de Manchester em um pólo cultural expressivo o que, pode-se dizer sem medo de exagero, ele conseguiu. Ele ganhou o título de Mr. Manchster das autoridades locais pelos seus esforços na projeção da cidade.
FAREJADOR
Em meados dos anos 70, ele era era um conhecido rosto das donas-de-casa inglesas por seu trabalho na TV. Em 1975, ganhou seu próprio programa, So It Goes, na TV Granada, emissora do norte da Inglaterra. Como bom jornalista farejador, foi uma das 40 pessoas que estavam presentes no primeiro show do Sex Pistols em Manchester (outros presentes incluíam pessoas que depois formariam as bandas Buzzcocks, Joy Division, Simply Red, The Fall, The Smiths e Magazine). Ao ver a apresentação, teve "algo próximo de uma epifania". Ele tratou logo de colocar o melhor da nascente onda punk para passar no seu programa. A primeira aparição de TV dos Sex Pistols foi lá.
Tony seguiu com uma ativa carreira no rádio e TV até recentemente. Mas foi sua carreira paralela que realmente inscreveu seu nome na história da música. Atento ao chacoalhão que o punk tinha dado na molecada de Manchester, Wilson começou a fazer uma noite chamada Factory onde tocavam novas bandas, entre elas uma chamada Warsaw, que tinha um vocalista bem esquisito.
O nome dele era Ian Curtis e em pouco tempo o nome de sua banda mudaria para Joy Division. O Joy foi um dos primeiros contratados da Factory, o selo que Wilson fundou com outros sócios. Ao lado da sua segunda encarnação (pós-suicídio de Ian Curtis), o New Order, ajudou a carregar a Factory Records nas costas. Sim, porque o catálogo da gravadora era basicamente composto de bandas bizarras e nada comerciais como A Certain Ratio, Durutti Column, Crispy Ambulance, ESG, Section 25, Stockholm Monsters e The Wake.
Mas a Factory se tornou uma lenda cult, e isso se deveu em boa parte à imagem que conseguiu construir. Nos anos 80, havia uma aura de mistério e reverência em torno da Factory e uma das coisas que certamente contribuiu para isso eram as estilosas capas de disco com pouquíssima informação (às vezes, era difícil até achar o nome da banda). A maioria era obra do brilhante designer Peter Saville. Ele também era um dos sócios da Factory com Wilson, o produtor Martin Hannett, e os empresários musicais Alan Erasmus e Rob Gretton.
APLAUDINDO O DJ
Em 1982, o povo da Factory fundou o Haçienda, um clube totalmente diferente do que existia na época na Inglaterra, inspirado nos galpões de clima meio industrial que já rolavam na noite de Nova York. Demorou para o Haçienda engrenar e ele ficou uns bons anos sendo um ralo por onde saiu muito dinheiro sem volta. Mas, em 1987, o Haçienda encontrou sua razão de existir: a explosão da acid house que acabou tendo no clube um de seus epicentros através de DJs como Mike Pickering, John McReady e Dave Haslam.
Foi nessa época, batizada de MADchester, que os Happy Mondays subiram pras cabeças, fazendo uma colisão entre house e indie rock que foi uma das trilhas sonoras da época para legiões de moleques usando calças super-largas e camisetas de smiley. No filme 24 Hour Party People (A Festa Nunca Termina), sobre a trajetória de Wilson, da Factory e da cena de Manchester, tem uma cena memorável em que Wilson (na pele do ator Steve Coogan) diz para alguém, com a pista do Haçienda ensandecida ao fundo: "Você viu? Eles estão aplaudindo o DJ." Em 1987, isso era uma grande novidade.
Nem a Factory nem o Haçienda sobreviveram aos anos 90. No seu fim, a gravadora somava mais de 2 milhões de libras em dívidas (boa parte delas veio das sessões de estúdio para o quarto álbum dos Happy Mondays, que levaram meses a mais do que o previsto, devido ao intenso uso de crack por parte do vocalista Shaun Ryder). Já o clube começou a ter problemas demais com gangues de traficantes que passaram a dominar o lugar.
Wilson não deixava nada abater seu entusiasmo. Ele continuou com suas outras atividades, incluindo o In The City, um festival de novas bandas e debates/palestras sobre a indústria musical que ele promovia em Manchester desde o começo dos anos 80. Este ano, ele planejava levar o In The City para Nova York. Ele também prestou consultoria para o filme Control, sobre a vida de Ian Curtis. Numa entrevista para o pitchforkmedia, dada no começo desse ano, ele contava do seu entusiasmo com novos gêneros como emocore e screamo, de bandas barulhentas como Enter Shikari, que ele havia descoberto com seus filhos.
Tambem voltei a ver estes dias o 24 hours party people e recomendo os extras com entrevistas a Tony Wilson.
qu descanse em paz este craque que amarrou todas as pontas necessarias para contruir sonhos a base de musica.
Brincadeira a parte: R.I.P. - mesmo sem lucro, foi uma vida invejável!