Sónar muda perfil e celebra passado
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Sónar muda perfil e celebra passado
Destaques foram shows de nomes "clássicos" como Beastie Boys e Altern8
18.06.07 18:30
O festival tem "música avançada" no sobrenome, mas o que se viu de melhor na edição deste ano do Sónar, realizado neste último final de semana em Barcelona, foram grandes celebrações do passado. Dois shows dos Beastie Boys, uma apresentação memorável do conjunto de new wave Devo e uma chuva de hits ácidos da dupla inglesa Altern8 marcaram os pontos altos de um festival que parece buscar um novo lugar no mapa dos grandes eventos espanhóis e europeus.

Os números, como sempre, colocam o Sónar entre os maiores eventos de música do mundo. Nos três dias de shows, que acontecem durante a tarde no centro de Barcelona e à noite num enorme pavilhão de exposições, mais de 83 mil pessoas passaram pelas catracas. Houve 90 apresentações performances de bandas ou artistas de laptop, 79 DJs, 14 VJs, 12 obras multimídia, 58 filmes e compilações de vídeos e documentários e nove palestras.

E o cardápio do festival não se esgota na programação oficial: aparentemente, todos os DJs do planeta tocam em algum clube ou barraca de praia durante a semana do Sónar. A semana do festival atende os anseios do mais incansável hedonista ou do nerd musical em busca da experiência musical mais obscura.

Mas o equilíbrio entre os dois extremos de público, ao que parece, está cada vez mais difícil de alcançar. A concorrência dentro e fora da Espanha é enorme, tanto pelos euros dos freqüentadores como pelas atrações mais quentes da temporada, e ao final de três dias de sol, calor e muita música, é difícil não sair da experiência com a sensação de que o Sónar, às vésperas de completar 15 anos, passa por um momento de transformação.

Devo
Devo
THIS IS DEVO!
Um sintoma disso foi o pequeno público que chegou a tempo de assistir a apresentação dos americanos do Devo. A banda voltou a pisar num palco europeu depois de 17 anos e fez um dos primeiros shows da noite de encerramento do festival, no sábado à noite, enquanto a maior parte dos pagantes ainda estava a caminho da Gran Fira de Barcelona.

Quem deixou para chegar mais tarde perdeu um show vigoroso, recheado de hits conhecidos e que conservam a força e o humor nonsense depois de mais de quase 30 anos. O show do quinteto da pequena Akron, no meio-oeste americano, começou com um apanhado de imagens de videoclipes da banda, talvez para que todos se dessem conta de que os senhores que subiriam ao palco instante depois já passam dos 50 anos e foram figuras-chave para o pop eletrônico que se ouviu durante boa parte dos anos 80.

De capacete vermelho e macacões amarelos, pulando e tocando um set extremamente redondo, como se nunca tivessem deixado de ensaiar, a banda começa o show começa com "That's Good". Na frente do palco, o público tem uma idade média bem superior ao das outros dias do festival - e cantou "Whip It!" e "Satisfaction" de cor. No decorrer da noite, o espaço encheu, e muito, mas para ver Jeff Mills, o "DJ residente" das noites de sábado do Sónar. Mills, como sempre, castigou o mixer, os CD players e a mãe do techno, a bateria eletrônica TR 909. Mas em seu set, assim como no de Dave Clarke, que o sucedeu nos CDs, pouco havia de novidade: o som era apenas um estimulante a mais para a horda de espanhóis e turistas que queriam dançar e beber água.

Do lado de fora, a história era um pouco diferente. A dupla de hardcore clássico Altern8 levou o público a um êxtase diferente, mais nostálgico, tocando apenas hits de breakbeat e rave dos anos 90. Para quem não se convenceu pelo set da dupla Simian Mobile Disco, no fim da noite anterior, foi refrescante ver uma multidão de turistas ingleses dançando músicas lançadas mais ou menos na época em eles nasceram.

Beastie Boys
Beastie Boys
BEASTIE BOYS: SUCO DE TANGERINA
Se Devo e Altern8 fizeram duas das apresentações mais empolgantes do Sónar 2007, quem levou público e fez a massa pular foram os Beastie Boys. O grupo fez duas apresentações. Uma, modestamente batizada de "noite de gala", aconteceu na quinta-feira e viu o trio nova-iorquino empunhando baixo (Adam Yauch), guitarra (AdRock) e bateria (Mike D). Os brancos mais famosos do hip hop tocaram faixas de seu disco novo, The Mix Up, incluindo uma chamada "Suco de Tangerina", em homenagem às lojas de suco do Rio de Janeiro.

Mas, como instrumentistas, os Beastie Boys ainda são melhores de rima, e foi o show do dia seguinte que levou o maior público do Sónar: mais de 25 000 pessoas passaram pelo local, e maioria delas tentou chegar para ver o show, a julgar pelas filas do Sonarbus e pela confusão na entrada. Pelos relatos da imprensa espanhola, a apresentação empolgou o público, mas foi convencional: dá para supor que todos os hits foram tocados, todas as piadas foram contadas e o show acabou com "Sabotage", como na apresentação do Brasil em outubro passado.

Enquanto os jovens pulavam no palco principal, preferi dar uma olhada na área ao ar livre ao lado, onde se apresentava o inglês Kode9, acompanhado pelo MC Spaceape. O som era um negativo do hip hop tradicional: ao invés dos samples histéricos e dos gritos a três vozes, Kode9 apresentou sua variedade de dubstep, o som dos porões de Londres. Como ele próprio me disse uma vez, o dubstep é um tipo de música quase paranóico. Bem, no poderosíssimo sistema de som do festival, e sob o céu estrelado de Barcelona, a descrição não funcionava muito bem.

As batidas quebradas do estilo continuam esparsas: batem em cheio no abdome e reverberam pelo ambiente, fazendo tremer objetos e pensamentos, mas talvez estejam um pouco foram do lugar longe dos porões londrinos. A idéia se aproxima do dub e de alguns sabores de techno minimalista, mas tenho dúvidas de que o dubstep tenha credenciais para ser "a próxima grande onda" da música eletrônica, como apostam muitos por aí – e como apostam os curadores do Sonar, de acordo com os materiais distribuídos à imprensa.

DISTORÇÃO E HORMÔNIOS
Wolf Eyes
Wolf Eyes
A aposta do dubstep como uma das grandes tendências musicais do ano é um sinal da dificuldade que tiveram os programadores este ano também ao montar a programação diurna. Houve uma competentíssima apresentação do produtor inglês Mark Stewart, mais conhecido como Claro Intelecto, responsável por uma mistura de electro e techno fiel à raiz americana e absolutamente irresistível sob o sol do fim da tarde. Também é de notar a apresentação do metal-drone do trio americano Sunn O))). A música sai de guitarras, uma parede de amplificadores Marshall e um microfone, mas o que se ouve é uma parede intransponível de distorções. Não consegui ficar até o final, mas uma fonte muito fiel me disse ter chegado a um estado de quase-transe ao final de uma hora. Perdi os ainda mais barulhentos Wolf Eyes. Um amigo disse ter saído do palco, montado dentro do museu de arte contemporânea Macba, quase surdo (ele foi às festas noturnas de protetor auricular).

No mais, o clima geral do dia era de calor. Numa estatística absolutamente empírica, fica a sensação de que o festival recebeu um contigente enorme de turistas ingleses, tamanha a quantidade de copos de cervejas e cabeças vermelhas deitadas na grama do Sonar Village, o palco principal das apresentações diurnas. O clima geral era de festa de verão e cerveja barata, não de procura por sons inusitados.

Existem algumas explicações para a mudança que atravessa o festival. Talvez uma delas seja o fato de que o Sónar antes reinava sozinho como único grande festival da Espanha. De alguns anos para cá, conta com a concorrência de dois grandes eventos na própria cidade (Primavera Sound e Summer Case). Ambos têm um forte pé no rock indie e no pop eletrônico, e dificultam a tarefa de trazer bandas que têm tudo a ver com o Sónar, como LCD Soundsystem ou até mesmo um show como o retorno do The Jesus and Mary Chain, ambos programados para julho na mesma Barcelona.

Justice
Justice
No Sónar, houve apenas dois tentos marcados. Um deles foi a apresentação do Junior Boys, durante o dia (que foi prejudicada por problemas no som e por ter de tocar seu pop melancólico depois de um set animadíssimo dos locais do Lovemonk Soundsystem). Outros dois foram a escalação de duas duplas que são, hoje, provavelmente os melhores DJs de festa da Europa: Modeselektor e Justice. Os alemães mais uma vez mostraram como se toca techno sem cair na mesmice: o set misturou breaks, influências de dub e o techno ortodoxo tedesco.

Os franceses jogaram para o público (faixa-símbolo do set: "Killing In The Name Of", do Rage Against the Machine) e fizeram talvez a discotecagem mais divertida do festival. Pulando a meio metro de altura e cantando uma das músicas mais carregadas de hormônios da história da música pop, é a hora de lembrar que um festival de música também é feito da boa e velha diversão.

sete
sete
Gs up hoes down
comentários
8 comentários
sete
sete(23.06.07)
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Eh claro que nao esperava nada diferente do que o Jeff Mills ou o Dave Clarke fizeram na noite de sabado, no maior e mais aditivado espaco do Sonar. Talvez tenha faltado algumas ressalvas: foi na minha terceira vez no Sonar, e em todas elas a apresentacao do Jeff Mills me deixou com a mesma impressao. Alem disso, estava um pouco gripado (e cansado) e um pouco desapontado com a programacao geral. Mas que tinha MUITA gente se divertindo ali, isso tinha.
O James Holden fez um set interessante, para decepcao dos ingleses que esperavam um progzinho disfarcado. Tocou alguns barulhinhos, maneirou nas batidas, mas nada para ficar guardado na memoria.
Bernardo Costa
Bernardo Costa(22.06.07)
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Como alguns andam dizendo por ai "Minimal por obrigacao, techno por diversao". Tirando a rima fraca, infelimente nao podemos exigir dos 90 mil pessoas que foram no Sonar, 100% sejam cacadores de vanguarda. Timo Maas fechando a noite de sexta,na hora certo e no lugar certo.
ortega
ortega(22.06.07)
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James Holden foi muito bom, não sei dizer se foi "diferente", mas manteve a linha minimal em boa parte do tempo.
estava otimo para o dia, era quinta feira a tarde, começo de Sonar em "clima" tranquilo.
ortega
ortega(22.06.07)
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só vi o começo do set do Ritchie Hawtin, era minimal. Não consegui ficar, ainda mais depois do set brutal do Modeselektor, com direito a breakcore e td mais.
Deu até dó do Ritchie Hawtin, sai e fui ver Justice, pra mim o melhor show de sexta.
Jade
Jade(20.06.07)
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e o James Holden, como foi?

o release dizia que ele ia fazer um set "diferente".