Kevin Saunderson fala sobre minimal, drogas e a era digital
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Kevin Saunderson fala sobre minimal, drogas e a era digital
Um dos fundadores de Detroit decreta: "Não sinto a menor falta do vinil".
15.05.07 17:15
"Às vezes as pessoas me pedem para tocar minhas próprias músicas ou 'mais coisas de Detroit' e eu não gosto apesar de entender porque querem ouvir Detroit. Eles ficam decepcionados quando não toco Detroit. Eu toco o que quero tocar na hora. Claro, às vezes toco um clássico, mas nunca toquei só Detroit ou só minhas produções."

Sentado no jardim de um hotel "boutique" em Londres, a lenda do techno de Detroit Kevin Saunderson assume que se irrita com pedidos, coerentes ou não. "Quando isso rola eu penso 'por que você ta pedindo pra eu tocar um disco?' Você deveria estar aqui pela experiência e isso diz para mim que a pessoa pedindo o disco não está curtindo a música, ela prefere aquilo que ouve no rádio ou na TV."

Saunderson conseguiu sucesso no mainstream pela primeira vez em 1988, quando seu grupo Inner City teve hits mundiais com faixas como "Big Fun" e "Good Life". Ele logo se tornou um dos DJs mais populares do mundo. Ainda muito prolífico e principalmente focado no techno, ele está divulgando sua mais nova coletânea mixada, Ekspozicija 07: The Detroit Connection.

O álbum tem "conexão Detroit" no nome. Qual a importância do tema Detroit no disco?

É só o título, apesar de que tem umas duas faixas minhas nele e um remix do Carl Craig. Sempre vai ter alguma coisa de Detroit em qualquer coisa que eu fizer.

Com o crescimento da internet e dos podcasts existem agora milhares de sets de DJ por aí. O quanto mudou o mercado para compilações de DJs nos últimos anos, na sua opinião?

Não sei responder isso. Antes, fazer CDs mixados era algo realmente especial e importante para os fãs, mas do jeito que está agora é tudo novo para mim, me sinto como se estivesse começando do zero de novo. Acho que mudou do mesmo modo que vender vinil mudou então estou curioso em saber como vai rolar.

O Todd Terry declarou que ele quase não ganha mais dinheiro com remixes e produções e que encara isso agora como ferramentas promocionais para seu trabalho como DJ. Isso se aplica a você também?

Eu concordo. Acabei de fazer alguns remixes não pelo dinheiro, mas mais para que as pessoas saibam que estou voltando na produção. Não tenho certeza se vou conseguir tocar mais como DJ por causa deles, na real não sei se quero mais trabalho como DJ (risos). Faz vinte anos que estou sempre viajando, cara...

"NÃO SINTO A MENOR FALTA DO VINIL"

Você ainda toca vinil?

Não, eu não carrego mais discos. A última vez que toquei um disco foi uns dois anos atrás. Abracei o Final Scratch assim que saiu. Carregar discos ano após ano não estava fazendo bem ao meu corpo. Sou um cara grande e forte, mas tive muitas dores e mau jeitos através dos anos. Precisava de outra maneira de fazer isso. No começo foi um pouco diferente mas acho que me adaptei bem. O que mais me atrai no vinil é que o som é único, o contato manual é ótimo, mas estamos na era digital e tudo mudou. E não sinto a menor falta do vinil agora.

O techno deu uma desacelerada nos últimos anos, você notou?

Sim, deu uma reduzida, especialmente com a onda do minimal. A coisa boa do minimal é que trouxe tudo pra baixo. E você precisa descer antes de poder subir de novo.

Muitos DJs de techno abraçaram o minimal, você chegou a considerar?

Nunca toquei uma faixa de minimal em toda minha vida que eu saiba. Eu toco o que para mim é bom e não considero minimal música para dançar. É um tipo de música mais relaxante e tranqüila. Quando escuto fico esperando para outras coisas acontecerem e simplesmente elas não acontecem.

Jeff Mills nos disse que ele acabou de abrir uma loja de roupas em Chicago porque acha que a cena eletrônica se tornou muito conservadora e preconceituosa. O que você acha da cena techno hoje?

Ele tem razão por um lado, mas por outro é isso que faz a cena funcionar. No techno ele tem razão porque a música segue as mesmas pegadas, as mesmas batidas quatro por quarto, as mesmas programações de chimbau e prato. Mas para o mundo real isso não é conservador porque ainda tem pessoas por aí que dizem "o que é isso?". Eu entendo o ponto de vista dele porque ele sempre tentou diversificar e tentar coisas diferentes, o Jeff sempre foi assim, mas existe apenas um pequeno grupo de pessoas que está disposto a quebrar as barreiras.

NA ESCOLA COM DERRICK MAY E JUAN ATKINS

É famoso o fato de que você foi pra escola junto com Derrick May e Juan Atkins (os outros dois fundadores do techno de Detroit, junto com Saunderson). Que tipo de estudantes eram vocês, CDFs, esportistas ou a turma do fundão?

Primeiro, freqüentávamos uma escola predominantemente branca com pouquíssimos negros, menos que 5%. Era no campo, literalmente, com vacas e pastos em volta, uns 40 minutos do centro da cidade, nos subúrbios. Minha mãe se mudou pra lá porque eu estava me metendo em muita encrenca em Nova York e ela queria me tirar do Brooklyn.

Conheci o Derrick primeiro e eu e ele éramos esportistas, ele corria e eu jogava basquete. A música não foi nossa conexão imediata. O Derrick conheceu o Juan primeiro. O Juan era um cara meio esquisito, bem reservado. Ele não falava quase nunca, ele falava "oi" e nada mais. Demorava anos para conseguir engatar uma conversa com ele. Quando fomos conhecendo ele melhor, a música surgiu.

O Juan sempre curtiu música, ele tinha seus tape-decks e pequenos sintetizadores e estava sempre mexendo neles. Mas eu estava ali só para passar tempo, o meu lance era esporte mesmo. Aí terminamos o colegial e fizemos um festão de formatura na minha casa. Minha mãe se mudou então eu fiquei com a casa pra mim por um mês. Fizemos uma festa que foi provavelmente a mais incrível da minha vida. Juan já fazia música e tocava como DJ, Derrick foi muito influenciado por Juan porque andava com ele o tempo todo e o plano era para o Derrick tocar com o Juan na festa. Quando eu vi eles tocarem e como isso fez a festa ser incrível, eu comecei a me interessar e foi assim que fui me conectando.

Você tem filhos?

Tenho três garotos, eles têm 17, 14 e 8. São bons garotos. O problema como pais é que sempre queremos mais para nossos filhos e, às vezes, damos muito a eles. Então eles não valorizam o trabalho duro.

O que você acha da guerra contra as drogas das autoridades e o fato de que números enormes de negros estão na prisão nos EUA, proporcionalmente muito mais que brancos?

Não acompanho muito isso, mas o que sei, baseado em alguns antigos documentários dos Panteras Negras, é que rolou uma armação de introduzir drogas nos guetos para supostamente subjugar as comunidades negras. Obviamente, as pessoas ainda sentem necessidade de tomar drogas, mas suponho que se elas estão deprimidas elas podem perder o controle. Os brancos usam tanto quanto os negros, mas a comunidade negra está desgastada e sem cuidado. Tenho um parente que acabou de morrer de overdose. Ele era mais novo que eu, tinha 32 anos. As drogas nunca aguçaram minha curiosidade o bastante para eu experimentar.

Você nunca experimentou drogas?

Fumei um pouco de maconha quando tinha 16 ou 17, mas nunca tomei bala, me dá medo. Se eu tomar uma bala, não sei o que tem nela, não sei se vou acordar no dia seguinte. E essa tem sido minha filosofia. Para mim, é muito assustador.

Mas você deve ter convivido com pessoas que usam drogas.

Claro, mas é fácil, eu simplesmente digo "não, obrigado". Tenho muita força de vontade, sou uma pessoa forte e ninguém vai me influenciar a tomar drogas. Só eu decido.

Você fica à vontade se misturando com pessoas sob o efeito de drogas?

Não faço isso realmente mas se isso acontece eu sei me cuidar, eu deixo cada um fazer o que quer e sigo em frente. Tento não estar nessas situações. É assim que funciona. Eu vou e toco, dou um tempinho depois que acabo, mas não por muito tempo, agradeço as pessoas por me receberem e saio fora de maneira respeitosa.

Você tinha essa visão de ser DJ quando era adolescente?

Eu tinha a visão, pensei muito nisso. Me imaginava nas situações, na cabine. Lembro de ter ido a Paradise Garage e ver o Larry Levan tocar e ficar tão impressionado! Só pensava que queria ser assim, conseguir mixar dois discos e tocar em frente de uma multidão.

Eu mixava muito mal quando comecei, não conseguia fazer as batidas encaixar. Eu olhava o Juan e o Derrick mixando e eles ficavam rindo de mim, dizendo "cara, é melhor você voltar para o esporte". E eu só pensando, "vou mostrar pra eles". Então entrei pra uma escola de DJ e aí aprendi a virar. E deu certo porque eu me dediquei muito e isso é importante. Tem que treinar e se colocar em situações onde as coisas podem acontecer.

Jonty Skrufff
Jonty Skrufff
comentários
35 comentários
kkkkkkkkkkkkkk
ótimo o texto!
já deixei de entrar na d-edge só de ouvir lá de fora o minimal tocar, o pior de tudo é que as pessoas se influenciam e acham que isso é musica e criticam os que ouvem outros sons. QUE SONO... NÃO FALA EM MINIMAL.
entrevistas com os djs do meio eletronico são otimas, assim podemos ver que opinioes sobre as drogas sao positivas, eles não usam e nao influenciam. muitas pessoas acham que se vc está no meio vc usa, se vc eh dj vc influencia. sao profissionais do ramo, sao experientes, tem familias e filhos para educar e nao iriam querer que usem tb.
otima entrevistas
kevin saunderson, otimo dj...
Anderson Rios
Anderson Rios(20.10.07)
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Minimal não serve p/dançar. Só p/ir no banheiro e comprar mais cerveja.Viva K.Saudersom!!!!!
N.I.C.K.K
N.I.C.K.K(18.07.07)
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NA BOA NO MINIMAL ACONTECE SIM E MUITO COM CERTEZA NÃO SABE O Q ESTA FALANDO APESAR DE TER SIDO UM MESTRE EM 90 QUEM SABE (ATUALIZA-SE QUERIDO) VOU QUEBRAR MEU VINIL DO INER CITY SÓ DE RAIVA , QUE TONTO
Daniel(Dadá)
Daniel(Dadá)(26.05.07)
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Bela Matéria, e o cara foi estudar em uma escola de DJ`S...
Lokito
Lokito(25.05.07)
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And he said:

"Quando escuto fico esperando para outras coisas acontecerem e simplesmente elas não acontecem."

True.. True..

Deu sono só de ler!

Salve o mestre!