Matias Aguayo e a riqueza dos seus detalhes
Elegância, tech-house e voz rouca no live do chileno, que toca essa semana em SP
12.12.06 17:30
O chileno Matias Aguayo chega ineditamente a São Paulo com um mistão de músicas sintéticas e orgânicas calientes para mostrar. Sem seu atual parceiro Roccness, com quem tocou no Rio de Janeiro em abril deste ano, ele combinará live e DJ-set na também inédita festa Magma. Ele vem com o impulso do seu primeiro álbum, Are You Really Lost, que revelou sua voz no ano passado.
Com novas produções para "testar", já pensando no segundo disco, Aguayo quer deixar todos perdidos no vácuo do desembarque do micro-Mutek na Pacha. Ele é o que mais adora se perder no meio das notas e dos beats. "Perdido é um estado da mente. Eu e um amigo estávamos fazendo umas festas chamadas 'Lost', em Colônia, e queríamos frisar que estar assim é não pensar em carreira, nem em reconhecimento social em nenhuma cena", conta com exclusividade ao rraurl. "O meu álbum é uma dedicação às pessoas que pensam e se divertem assim."
Músicas recheadas com synths elegantes e grooves secos, como "De Papel" e "Drums & Feathers" provocam, no mínimo, este sossego na alma. Mas seria sossego demais para as pistas? "As pessoas são capazes de dançar sons sensíveis e com poucos elementos. Eu estou convencido que o público é subestimado demais. Sempre vai existir gente reclamando se você toca devagar, mas eu sei que você terá muitos sorrisos e animação, além de pessoas se movendo de uma forma diferente".
Sua voz rouca está intimamente ligada no sons downtempo, deep e tech-house minimalista de Are You Really Lost, co-produzido por Roccness. Aguayo tem um jeitão pop que é bem marcante. Na faixa título do disco de estréia, que saiu pela Kompakt, ele sampleia sucintamente o tecladinho de "Planet Claire", hit de 1995 do B-52s. De forma criativa, ele salpicou fragmentos da melodia e, com climão sinistro, gritinhos e sussuros, o som arrepia remete mesmo ao clássico de Carl Craig com Laurent Garnier, "Demented" (2003).
Uma vez, aproveitando o remix que fazia para seu amigo Michael Mayer, Aguayo soltou o gogó e cantou "Slow", de Kylie Minogue. Deu bem certo e a versão improvisada saiu no mesmo single em que trabalhava, "Lovefood". "Eu finalizava o remix e comecei a cantar 'Slow' sobre a base, só pra dar umas risadas". Ele gravou, sabendo que era aniversário de Mayer e que ele é fã dela. "Nós dois assinamos a versão", diz sem revelar se já tiveram algum feedback da cantora australiana.
Mutek, influências germânicas e Pinochet
Antes mesmo da Kompakt existir, o chileno acompanhava as "boas dicas" de Mayer na sua extinta loja Delirium, em Colônia. Com o nome Zimt, chegaram a gravar um single pelo selo Ladomat 2000. Mas foi com outro alemão, Dirk Leyers, que Matias Aguayo foi adiante e estreou pela Kompakt. Com o projeto Closer Musik, a dupla ficou conhecida pelo álbum After Love. Dirk e Aguayo fizeram uma apresentação ovacionada no Mutek de 2001 e colocaram o Closer Musik na coletânea anual do festival canadense, mesmo se separando pouco depois. "Foi um bom tempo mas já passou, estou em outra direção musical", conta Matias, que acha difícil retomar a parceria.
A Europa entrou no contexto de Matias Aguayo logo cedo. Ele nasceu no mês do golpe militar que derrubou o governo de Salvador Allende em 1973. Com dois anos de idade acompanhou seu pai, um militante de esquerda, para o exílio em Karlsruhe, no sul da Alemanha.
Ver Pinochet morto o faz lembrar novamente "tudo o que foi feito" com sua família, amigos e todo o país. "Não posso estar tão feliz com isso, ele nunca foi preso ou processado e diversas figuras fascistas no Chile ainda têm muito poder e uma nojenta presença na mídia que não deveriam ter."
Sua esperança é que a recente morte do ex-ditador traga a chance de mais gente lembrar tudo o que aconteceu, marcas ainda latentes na sociedade chilena. "É importante educar, informar, deixar a memória viva e acabar com a influência dos antidemocratas em todos os lugares, para não deixar-se esquecer o que aconteceu não só no Chile, como também no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru e etc", enfatiza.
Nômade, ele nunca parou muito em um só lugar: na infância também viveu em Lima, no Peru, chegou com seus 20 e poucos à efervecência cultural de Colônia, onde estudou música e cresceu no cenário, e ainda gravou parte do álbum Are You Really Lost. O restante compôs em Buenos Aires, onde está novamente concentrado nos estúdios. Paris e Berlim também estão na rota mais constante dele. "Obter influências nunca é demais e enriquece a cultura. Há em todos os lugares música 'soulful' e pessoas com atitude para ouvir a alma".
Fluído? Inflamável?
Só tocando fogo, ein Poveza?rs