Prolífico, talentoso e desconhecido, Jens Lekman chega ao Brasil
Esqueça Cardigans e conheça um dos artistas mais interessantes da nova safra sueca
14.11.06 17:30
Na segunda semana de dezembro, curitibanos, paulistas e cariocas vão ter a oportunidade de conhecer uma pequena parcela da nova música pop sueca. O coletivo Coquetel Molotov promove nas três capitais a turnê Invasão Sueca, com Jens Lekman, El Perro Del Mar (codinome de Sarah Assbring) e a banda Hell on Wheels. Esta última já esteve por aqui, em 2004, quando tocou em festivais em Recife (No Ar Coquetel Molotov) e Curitiba (Curitiba Pop Festival), mas Jens e Sarah nem sequer conheciam a América do Sul.
Jens Lekman é um sujeito de 25 anos que em menos de três já gravou mais de uma centena de músicas, quase sempre fazendo tudo sozinho. Além de prolífico, é também incrivelmente talentoso. Apreciador de arranjos sofisticados, bem humorado, tímido e um tanto confuso com as relações humanas, ele se inspira nas pessoas ao seu redor para compor o que às vezes pode causar problemas, como quando a "homenageada" em "Psychogirl" enviou uma carta não exatamente agradecendo. Segundo o próprio, nem todas as mulheres de suas músicas referem-se à experiências afetivas, mas dificilmente algo passa despercebido e não é aproveitado em alguma música.
Modesto, diz que nem é muito conhecido em seu país natal, embora costume freqüentar a parada de lá e já tenha sido eleito o 15º homem mais sexy da Suécia pela revista Elle. Mas realmente, talvez tenha mais fãs espalhados em outros países, já que quase não pára em casa. Já esteve em toda a Europa, na Austrália, Estados Unidos...e gente de todos os cantos vive postando mensagens em sua página no MySpace, perguntando pelos próximos shows e questionando quando ele vai estar em determinado país ou cidade.
Para ouvir o que ele faz, é relativamente fácil. Além da tal página no MySpace, ele disponibiliza três EPs gravados durante suas turnês em seu site, na seção "presents". E também avisa que você pode encontrar MP3 de seus EPs e discos nos sites das gravadoras Secretly Canadian e Service. Ou ainda, sugere, baixar os discos inteiros em programas como o Soulseek. "Se você gostar da minha música, por favor compre meus discos, faça downloads legalizados", pede apenas.
A menos de um mês de sua chegada ao Brasil, Jens concedeu a entrevista por telefone.
Você começou a fazer música muito cedo, não foi? Como foi isso?
Eu comecei a compor quando tinha 14 anos. Estive em algumas bandas, mas sentia que não era aquilo que eu queria fazer, porque em uma banda você fica meio preso aquele esquema de guitarra-baixo-bateria. Naquela época eu costumava ouvir um monte de coisas depressivas (risos), a maioria delas eu nem gosto mais. Mas aí comecei a ouvir músicos que usavam samples e loops...e eu queria uma orquestra, mas tinha 16 anos. Então vi que tinha que fazer as coisas por minha própria conta.
É verdade que ninguém conhecia suas músicas até você mandá-las para o pessoal da (gravadora americana) Secretly Canadian?
Nunca mostrei minhas músicas pra ninguém, sempre fui muito tímido. Nem mesmo pra minha mãe. Aí, quando eu tinha 22, mandei algumas delas pra Secretly Canadian, e eles foram os primeiros depois de mim a ouvi-las. Eu os escolhi porque eles eram parte da minha vida, cresci com eles. Comprei o primeiro disco deles quando tinha 17 e ainda compro tudo que eles lançam. Eu gosto da maneira como eles trabalham e da maneira como eles lidam com a música.
Você realmente prefere trabalhar sozinho? Qual o principal motivo? Manter o controle?
Eu gosto de fazer as coisas sozinho não só porque eu gosto de ter o controle, porque eu não gosto muito das pessoas interferindo. Mas também porque é difícil achar pessoas que pensem em música da mesma maneira que eu, que tenham a mesma visão.
E você acha que existem outras pessoas por aí fazendo algo parecido com o que você faz?
Podem existir outras pessoas fazendo o mesmo tipo de música em outros lugares, mas mais que o mesmo estilo, existem pessoas que têm a mesma relação com a música que eu tenho. Como a minha amiga Sarah Assbring, mais conhecida como El Perro Del Mar, que também trabalha sozinha. Ela inclusive está me ajudando no meu novo disco, porque é a única pessoa em quem eu confio para isso. Eu confio na maneira como ela lida com a música.
E esse disco novo, quando será lançado?
Eu poderia dizer que o meu próximo disco sai na primavera, mas eu não sei, pode ser na primavera de 2007 ou na primavera de 2008.
Qual a história da confusão com o nome Rock Dennis? Ainda hoje é possível encontrar arquivos seus com esse nome em programas de compartilhamento e você lançou um EP só com músicas sobre ele...
A história é que algumas pessoas pensavam que esse era meu nome, porque eu fiz uma música sobre ele. Foi um mal entendido que eu não me esforcei muito para esclarecer e que durou um ano, até um pouco mais. Só que aí eu descobri que tocavam minha música no rádio e me anunciavam como Rock Dennis. Então eu lancei o EP Rocky Dennis, com aquelas músicas (com títulos como "Rock Dennis in Heaven" e "Jens Lekman Farewell Song to Rock Dennis"), como um marco da minha separação definitiva do personagem, como uma maneira de executá-lo de vez.
Você é bastante popular na Suécia?
Não sei se eu sou muito conhecido na Suécia. Ontem por exemplo eu estava gravando um programa de TV e ninguém parecia saber quem eu era.
Mas e a história da revista Elle ter te colocado na lista dos 100 homens mais sexies da Suécia?
Teve essa história, mas isso foi há dois anos. Eu estava lá, em 15º lugar. No ano seguinte, cai umas posições. E este ano nem apareço na lista. Talvez porque eu tenha passado muito tempo na Suécia nos últimos dois anos, sei lá.
E quanto à cena sueca? Existe algo de novo acontecendo, realmente?
Eu não sei bem se temos uma espécie de nova cena sueca. Existem bandas e artistas muito bons, mas o mercado sueco ainda é bastante fechado. Gente que faz sucesso aqui pode não ser conhecido fora, e acho difícil todo mundo se tornar tão grande a ponto de mudar a imagem que as pessoas têm da Suécia, de um país pop, por causa de bandas como Abba, Ace of Base ou mesmo Cardigans. Mas, de qualquer forma, a cena sueca gira muito ao redor de certos selos. Posso citar alguns, como o Service, que lança, por exemplo, The Embassy e The Tough Alliance, o Hybris, de El Perro Del Mar, Vapnet e Kalle J, o Friendly Noise, dos Most Valuable Players, Testbild e Differnet e o Häpna, que lança Hans Appelqvist e Tape. Existem outras bandas também, como Nicolas Makelberge, Cake on Cake, Radio Dept....
O que está achando de vir para o Brasil? O que você sabe sobre o país, o que pretende fazer aqui, além dos shows?
Eu não sei muito sobre o Brasil, preciso estudar um pouco antes de ir. Eu muitas vezes não vou a lugares muito falados porque você acaba tendo aquela imagem estereotipada. É um pouco assim com o Brasil, como é com o Japão, por exemplo. Por isso eu às vezes prefiro ir pra cidades pequenas, no interior de algum estado que ninguém comente muito. Pra mim vai ser mais ou menos como ir pra Antártida, um lugar novo e que eu tenho curiosidade em conhecer. Por isso mesmo temos apenas três shows, mas vamos passar dez dias aí. Vai ser uma espécie de pequenas férias.
E fãs brasileiros? Você já conhece alguns? Muita gente tem escrito pra você, não é?
Sim, eu tenho recebido alguns emails e mensagens de brasileiros. Mas não sei se isso significa exatamente que eu tenho muitos fãs por aí, se as pessoas estão curiosas, já que estão sabendo que eu vou fazer shows aí, ou se os brasileiros simplesmente são do tipo que gosta de escrever para artistas, se vocês têm esse hábito (risos).
INVASÃO SUECA
CURITIBA
11/12 - Era Só O Que Faltava*
Hell on Wheels, Jens Lekman e El Perro del Mar
SÃO PAULO
13/12 - Studio SP*
Hell on Wheels e Jens Lekman
15/12 - SESC Vila Mariana
El Perro del Mar
RIO DE JANEIRO
14/12 - Teatro Odisséia (festival "Algumas Pessoas...")*
Hell on Wheels, Jens Lekman e El Perro del Mar
*Abertura: Erlend Oye (Kings of Convenience / The Whitest Boy Alive)