Viva a música POP! Pronto, falei!
09.11.06 12:10
No underground, pop é palavrão. "O set do cara foi muito pop", "A banda tá muito pop" "Nossa, que som pop!" (acompanhado de cara de nojo). Anthony Rother já tinha montado até um grupo de extermínio em Popkillers. Já o rapper Beans agitava a bandeira da militância no seu ex-grupo Anti-Pop Consortium.
Calma crianças, música pop não é o bicho papão. Pode sim ser óbvia, repetitiva, presa a fórmulas, limitada, sem originalidade, banal mas, quer saber? 80% da música dita underground também pode ser acusada de exatamente a mesma coisa. Se tem alguma dúvida passe pelos lançamentos semanais de minimal, electro-house, techno, prog ou psy do Beatport e faça a peneira pra ver como sobra pouca coisa. Entendo perfeitamente o Apparat quando ele diz que está mais interessado no último Justin Timberlake do que em algum lançamento de minimal.
Como qualquer coisa na Terra, existe pop bom e pop ruim. Em 2006, estamos numa safra de pop excelente. A melhor música do ano, independente de estilo, popularidade, cor, credo e orientação sexual é uma música POP que não sai do rádio, graças a Deus, porque cada vez que a ouço uma agradável brisa de serotonina areja meu cérebro. Estou falando, é claro, de "Crazy", do Gnarls Barkley. Não, ainda não enjoei dela.
Tem muitas outras boas faixas pop por aí. Alguns exemplos:
"Promiscuous" Nelly Furtado feat. Timbaland
A voz da moça é, na real, o elemento mais fraco da equação. Esta inclui ótimo vocal e base matadora de Timbaland, um dos melhores produtores do momento, synths anos 80 e refrão tesudo.
"Fergalicious" Fergie feat. Will.I.Am
Já a ovelha branca dos Black Eyed Peas faz questão de dizer que é muito gostosa, safada, "mas não é promíscua". Com levada electro-funk e homenagem à "Supersonic", é cheia de banca e suingue, ainda melhor que a divertida "London Bridge".
"Sexyback" Justin Timberlake
O cara não é fraco. Depois de "Rock Your Body", algo que Michael Jackson poderia tranquilamente ter gravado na sua fase áurea, o ex-N'Sync vem cheio de propriedade, groove e malandragem no seu disco novo.
"Smile" Lilly Allen
Base reggae ensolarada, um refrão doce como caramelo e uma letra acabando com o namorado que estava "fodendo a menina que mora aí do lado". Mas isso não é nada! Puxe o vídeo no YouTube e veja o quão vingativa pode ser uma mulher enciumada (detalhe: o namorado é DJ e ele castiga de acordo). A moça é a nova sensação do pop inglês e estourou via MySpace.
"Smoke Bubbles" Basement Jaxx
Eles sempre foram muito mais que um grupo "eletrônico" e cada vez mais se entregam ao pop. Esta é do último álbum Crazy Itch Radio
"Ring the Alarm" Beyonce
Aqui a moça tá muito, muito brava. Ótima voz, ótima produção, precisa mais? Ela é a rainha do pop atual, indiscutivelmente.
"Rudebox" Robbie Williams
O rapaz aqui empresta descaradamente o refrão de "Boops", de Sly & Robbie. Mas a faixa tem vida própria graças à pegada electro, que aliás aparece em outras faixas do novo álbum de Robbie.
"Rock Steady" All Saints
Trio de inglesas que faz muito sucesso na ilha volta depois de ter sumido por um tempo. A música é um reggae-pop (aliás, como o ritmo jamaicano é influente no som do Reino Unido...) de bem com a vida.
"Feel Good Inc" Gorillaz
Acho que nem o mais xiita e severo dos gostos undergrounds consegue resistir isso aqui né? Todo mundo já ficou com essa na cabeça em algum momento da vida.
"Yeah Yeah" Bodyrox feat. Luciana
Já rola forte nas pistas por aí, via o monstruoso remix electro-house de D Ramirez. Esta versão usa a base desse remix com uns vocais femininos cheios de energia.
Em 1991, publiquei meu primeiro texto na Folha de S. Paulo. Era sobre uma coletânea dos Pet Shop Boys, dupla que no fim dos anos 80 sabia manipular como ninguém o DNA da canção pop. Em um momento do artigo, eu dizia que mais difícil do que fazer bom jazz era fazer bom pop. Continuo acreditando nisso.
A dificuldade suprema é esta: fazer algo acessível, grudento e divertido sem cair no vulgar, no repetido ou no mau gosto. Algumas das melhores canções pop cativam os corações, mentes e pés de milhões de pessoas enquanto trazem ousadia e originalidade. Por isso considero gênios nomes como os compositores/artistas da Motown, os Beatles, Beach Boys, Michael Jackson, Prince, T. Rex, Chic, Human League, Depeche Mode, Madonna, só para citar alguns.
E apesar do pop ser sempre acusado de descartável é o underground que muitas vezes não sobrevive ao teste do tempo. Outro dia estava escutando faixas das coletâneas Acid, da SoulJazz, só com acid house underground de Chicago de 1987 e 1988. Boa parte é inaudível: bases simplórias, combinações pobres de baterias e sintetizadores que não vão a lugar nenhum. Devem ter feito muito sentido nos porões da época. Hoje não mais. Agora ouça o equivalente "pop" dessa fase da música: faixas como "Theme From S'Express", Beat Dis", "Pump Up the Volume", não preciso nem falar o que essas músicas provocam até hoje né?
- Querer ser conhecido por muitas e muitas pessoas (como claramente indica o texto da UR publicado por tee) é querer ser popular!
- Conclusão