Balanço final TIM Festival 2006 - Rio de Janeiro
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Balanço final TIM Festival 2006 - Rio de Janeiro
Daft Punk, Patti Smith, Beastie Boys e outros artistas levaram o melhor da eletrônica, do rock e do hip hop à Marina da Glória
30.10.06 14:30
E acabou o TIM carioca de 2006. Uma das edições mais atribuladas do festival teve Caetano de última hora; troca de local no Rio (do MAM para a Marina da Glória); falta de estacionamento no local; atrasos consideráveis no palco Lab; mico total na Motomix Village, área mais dedicada à eletrônica e 32 mil pessoas em três dias de festa.

Foi um belo resumo da trinca eletrônica-rock-hip hop, protagonistas do evento: Daft Punk, Patti Smith e Beastie Boys foram os destaques. Desses, o único não-headliner foi a tia punk e poetisa Ms. Smith, que abriu para a gritante e multi-flúor Karen O., do Yeah Yeah Yeahs, que seria brilhante se não berrasse tanto.

Coadjuvantes de bom grado fizeram as vezes no TIM Lab: Bonde do Rolê, Thievery Corp, TV On the Radio, Black Dice, Devendra Banhart e até Caetano. Palco menor, intimista e com acústica tão boa quanto a do Main Stage, foi o lugar mais agradável do festival.

SOM
Falando em soundsystem, o som do palco principal as vezes era tão alto, o baixo era tão pesado e gordo, que mais do que arrepiar e pulsar a garganta, tremia a vista. Isso foi bem perceptível na gritaria do YYY, nos scratchs de Mix Master Mike, o DJ do Beastie Boys, e no Daft Punk. Quando rolou uma versão techníssima de "Prime Time of Your Life", o estômago virava!

As tendas fechadas ajudavam o som, que ficava com acústica mais limpa, mas que tal um palcão aberto? Daria pra ver as luzes do Daft Punk lá de Niterói!

MICO
Já a grande decepção do evento foi o palco/tenda/lounge Motomix Village, que antigamente tinha lugar no Main Stage a partir do fim dos heads e esse ano foi colocado no corredor de entrada da Marina da Glória, com milhões de inserções comerciais da Motorola disputando espaço com transeuntes.

Foi um desastre para atrações como Booka Shade, que merecia Main Stage lotado. Foi um drama para o PET DUO, que fez de um corredor um abatedouro techno. Foi triste para Jason Forrest, que tocou para ninguém. E foi digno para a chatice belly-dance do DJ Shantel.

Festival encerrado, análises feitas, balanços divulgados e previsões confirmadas, fica a torcida para que o festival continue, tanto no Rio ou em SP, permitindo a nós escolher se veremos Booka Shade, Yeah Yeah Yeahs ou TV on The Radio no mesmo instante.

Eis alguns reviews do que pode ser visto na Marina da Glória, a serem inseridos aos poucos. Participe comentando aí abaixo e no fórum. Em breve, cobertura áudiovisual.


Sexta, 27 de outubro

DAFT PUNK

O atraso foi de uma hora e pouquinho até surgir os blips do contatos imediatos de terceiro grau. Antes disso, o palco pré-montado dava a dimensão do que veria pela frente: a nave luminosa e impessoal do Daft Punk.

Era legal ouvir a viagem do povo sobre o palco: "podia sair umas rajadas de fogo, tipo show do Kiss!", "não parece a nave da Xuxa?", "seria legal se andasse ou voasse até o meio do público", "eles podiam começar o show já lá dentro, a pirâmide abrindo", e por aí vai...

Quando começa, a ansiedade e o deslumbre com aquela parafernalha azeitam um pouco a percepção de que é basicamente o mesmo live de toda a turnê mundial da dupla Bangalter/Homem de Cristo. Destilaram hits surpreendendo os fãs mais antigos que não deram bola para o último álbum, Human After All: muita gente sabia de cara as músicas desse disco e ficou na cara que, para eles, Homework é um marco, mas é passado, ficou lá em 1997.

Clique aqui e veja um artigo mais detalhado opinando sobre a apresentação do Daft Punk


DEVENDRA BANHART

Não acredite no hype, diz um ditado. Mas é bom lembrar que as vezes, por trás de um hype, tem algo consistente, muito além do falatório e do deslumbre. É o caso do cantor americano Devendra Banhart, precursor do tal Neo-Folk afetado e levemente fashionista, que fez um show singelo e bonito no TIM Lab.

Hipponga e setentista, tudo bem, mas pouca gente consegue ter o timbre de Lou Reed e a improviso onomatopéico de Caetano ao mesmo tempo. Country, blues, reggae e folk estavam na salada do cantor, que falou mal das religiões, fez um (ótimo) cover esfumaçado de "Doo Wop (That Thing)" e claro, outro de Caetano. Perca o preconceito e ouça.


DJ SHANTEL

Shantel é um cara do leste europeu que trouxe sua festa Bucovina Club para o Rio. É um festão cigano, como diz o release, mas na verdade é um mega-mix belly-dance, muito vocal exótico, a world music levada para a pista. Infelizmente não foi além disso, ficou caricato tanto pela performance canastrona do cara - chamando as gostosas pra dançar o ventre no palco -, quanto por suas músicas de casamento grego. É divertido, mas é só isso!


Sábado, 28 de outubro

BONDE DO ROLÊ

Falem mal, mas falem de mim. O Bonde do Rolê é um trio de jovens curitibanos que processam rock, funk, eletrônico e outras bizarrices no mesmo show. Não é um "bonde" de pancadão, mas sim um mashup ao vivo de Nirvana, Deise Tigrona e até Daft Punk, na divertida "Daftpunkadão", que pega a base de "Robot Rock" e te leva até o chão, igual a maluca MC Marina, vocalista do trio.

É desbocamento total, tem uma música que fala que James Bond é viado, outra que fala, sem meias palavras, "mais vale dois cú que uma buceta", que deve ter corado a Tia Noêmia, mãe do DJ Gorky que via tudo lá do palco. Animou o pouco público, entre eles um fervido Jason Forrest, e emocionou os caras, que saíram de lá quase chorando.


PATTI SMITH

Bonito, emocionante e nervoso, a cantora punk americana Patti Smith fez o show de rock mais político que o Brasil viu esse ano. Falou mal das corporações, falou que os governantes devem obedecer a nós, não o contrário, falou de respeito, de atitude, de não desistir dos sonhos... Tudo isso com o punho fechado para o alto, intercalado com hinos do rock como "Because the Night", "Pissing in a River" e "People Have the Power", essa última tirando lágrimas de metade da pista.

Saciou a falta de um Claro q é Rock, já pensou ela cantando "No Fun" junto com Iggy? A tia tem o vocal nervoso, áspero - muito whisky, talvez - e bem harmônico, razão pela qual "Because the Night" é mais que um marco punk, virou poperô, foi regravada a exaustão, influenciou Pretenders. Uma aula! Acabou o show arranhando uma guitarra por uns 5 minutos, descabelada e voltando para o microfone do nada, como se nada tivesse acontecido. "Isso (a guitarra) é o seu único instrumento contra a guerra!", bradava.


BOOKA SHADE

A frase escrita na camisa de um dos integrantes do duo já dizia tudo: "We came to dance!". Enquanto os fãs se acotovelavam bem em frente à cabine, a turma mais distante batia papo como se a mais corriqueira atração estivesse tocando qualquer coisa por ali.

Foi gostoso ver o tanto que eles também se divertiam lá do alto da cabine, mesmo tocando em um local que não era o mais apropriado. Com um sorriso que cortava o rosto, os alemães mostraram as músicas do álbum Movements, como "Body Language" e "Mandarine Girl".

Um integrante na percussão eletrônica, o outro comandando 3 laptops e uma mesa de efeitos. A apresentação animada só acabou depois que a dupla voltou para 2 "bis". A torcida é grande para que eles voltem no primeiro semestre de 2007, e se apresentem em um local bem mais adequado.


PET DUO

Lição de casa feita. Ana e David vieram, tocaram seu hard techno e pronto. Quem esperou alguma mudança por ser o TIM, por ser o corredor da Motorola, viu que eles são fiéis ao gênero que os consagrou. Lá de baixo se ouvia o reverb do BPM a quanto? 190 por minuto?


Domingo, 29 de outubro

DJ SHADOW

Shadow entrou aplaudidíssimo só que ele pareceu não se contentar. Seu live de pouco menos de uma hora teve mais pausas do que música do fato por um único motivo: ele queria mais aplausos, mais louvor.

Não cansou de lembrar que era a primeira vez no Rio, toda vez que tocava uma música ele cortava bem no ápice, encarando o público, esperando uma resposta. Obviamente ele ganhava a barulheira mas essa atitude, repetida à exaustão, só revelou uma vaidade exagerada do cara. Até o MC convidado não parava de falar do Shadow, "RIIOOOOO, THIS IS SHADOW" foi dito umas doze vezes.

Foi ótimo para desconstruir o mito de "mestre conceitual" de um gênero onde, na corrente mais pop, o que impera é quanto dinheiro você tem e quantas gostosas você come. Vaidade! E nesse quesito Shadow foi decepcionante e não deveu nada para nenhum rapper P.I.M.P.

Vaidades a parte, valeu pela brilhante "The Number Song", tocada inteira (finalmente!). Quando ele começou a tocar de fato, era hora dos Beastie Boys entrar. Não chega aos pés de um Cut Chemist, brilhante e discreto.


BEASTIE BOYS

E quem disse que branco não sabe fazer hip hop? Os tiozinhos do Beastie Boys (sim, eles já são quarentões) fizeram um show que ficará marcado para sempre na memória de quem esteve naquela tenda.

Um show enérgico e empolgante, que começou com alguns scratches do ótimo DJ Mix Master Mike, sozinho em palco. Logo em seguida, os três MCs entraram vestidos com paletó e gravata. Foi então que a viagem no tempo e na carreira dos caras teve início. "No Sleep till Brooklin" e "Body Movin" fizeram o piso de madeira balançar tanto que mesmo os mais contidos, inevitavelmente, se mexiam. Das mais recentes, figuraram no repertório "Ch-Check It Out", "Triple Trouble" e "Time to Build".

No bis, uma surpresa: um roadie puxou um pano preto, revelando por trás dele uma bateria no meio do palco. Mike D assumiu o posto, enquanto Ad-Rock pegou uma guitarra e MCA, um baixo. Juntos, tocaram "Intergalactic" e "Sabotage", para delírio dos fãs.

Eles não cansaram de elogiar o Rio de Janeiro, suas praias e seus sucos (?), e o mais interessante: citaram São Paulo por várias vezes. A platéia respondia com força nestes momentos, dando a impressão de que grande parte do público veio da capital paulista. Será que a escalação do trio de MCs para o festival em São Paulo não teria alavancado a venda de ingressos para a festa no Anhembi?


BLACK DICE

Live honesto e coerente. Três caras, uma guitarra, muitos fios, laptops e módulos antigos (um deles parecia estar quebrado porque o guitarrista não parava de esmurrá-lo).

Nos momentos que toda aquela desconstrução cheia de microfonias e quebradas misturadas encontravam uma linearidade, lembrava um big beat ou um break bem elaborado. Era ótimo chegar esse momento, mas o TIM Lab com cerca de 8% da capacidade mostrou que as pessoas não tinham muita paciência para esperar.


CAETANO VELOSO

Lotou milagrosamente o palco voltado à IDM e mostrou que na verdade, não é rock, mas um pop-rock brazuca de qualidade, feito por uma banda boa.

Seis anos sem lançar álbum e Caetano não muda características básicas: sussurros, agudos potentes, brilhantismo na composição de baladas e letras neo-concretas: "Luaaa, fruta, flor, folhudaa", "o ir e vir de tua ilha", etc. Show para ver juntinho do seu amor, o vai e vém da ilha de Caetano.


CAMILO ROCHA

Hits e breaks!. Groove Armada e INXS em versão scratch, por exemplo, animaram a última pistinha do TIM até cedo. Se antigamente os DJs eram mais centrados pelo gênero que seguiam, hoje em dia a versatilidade de tocar electrohouse, 80s e breaks - caso do camilo-, é o tipo de variedade que qualquer pista procura.

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
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