Noite de Melbourne é cheia de opções
Cidade está hospedando o Red Bull Music Academy. Nossa repórter conta mais sobre a balada australiana
26.10.06 23:00
Na noite de Melbourne é preciso se perder pelos becos para achar os lugares certos. Os caminhos formados pelos "alleys" que dividem as ruas principais são a chave para encontrar a diversidade que marca a cultura noturna local, na cidade conhecida por ter a melhor noite da Austrália.
Quem se aventura pelas ruas experimenta o prazer (raro para nós brasileiros) de poder andar a qualquer hora pra cá e pra lá em plena madrugada atrás da melhor festa, de segunda a segunda. É uma entrada que você descobre e pronto, está num local como o St. Jerome, bar e espaço para música formado por um grande corredor de becos. A mais urbanóide das cidades dessa ilha da Oceania oferece diversão àqueles que clareiam quando escurece, independente do gênero musical que lhe apetece.
HISTÓRICO CLUBBER
Se o rock está em alta principalmente depois que a banda local JET explodiu nos charts mundiais, a história clubber da cidade não deixa os locais de afastarem das pistas de dança. Melbourne experimentou a devoção a musica eletronica entre 1994 e 2000, como contou Caine Cheruvin. "Era o tempo das raves, que chegavam a juntar milhares de pessoas", um número significativo para um país de densidade demográfica pífia. "Melbourne gosta muito de cair na pista", ele continua, "Hoje as festas mais cheias são as que tocam hip hop, mas há espaço considerável para a cena drum'n'bass e para a musica eletrônica experimental." No dia da entrevista, Caim chegava com fotos de um show burlesco no HiBall. " Tem vários lugares abrindo espaço para esse tipo de arte", ele conta, "como o Gotharama".
Apesar da maioria dos bares fechar às três da manhã, não são poucos os focos de resistência que oferecem abrigo àqueles que querem celebrar até além das seis, como o Revolver, na Chappel St, essa uma rua grande e movimentada fora do centro. Ali o público se divide entre dois grandes salões, um lounge com muitos sofás, almofadas, bar e pista; e o outro um vasto bar com mesa de sinuca e uma pista menor. A programação musical é variada mas a partir de determinada hora da noite, só se ouve música eletrônica.
Receptivos, os "aussies" indicam o melhor "venue" para cada noite sempre com um sorriso no rosto. E abrem as portas para quem quiser sugerir uma ou outra modificação na programação usual, o que tem acontecido muito em outubro de 2006: razão de sobra para peregrinar pela noite de Melbourne, já que a cidade é sede da 9ª edição da Red Bull Music Academy. "A academia tem contribuído com a vida noturna graças às gigs internacionais que acontecem pela cidade", conta Tom Sigelski, nascido e criado na cidade e coordenador do marketing cultural da RB. "São grandes noites, como a que juntou participantes e palestrantes da academia em uma banda de cinco pessoas que incluía DJ, baterista, percussionista, trompetista e vocalista para se apresentar no Honkytonks [casa noturna que ganhou o prêmio de melhor pista da cidade nos dois últimos anos]."
Fabio, o inglês precursor do DB fez palestra e se apresentou na mesma noite no The Lounge, que além da pista, oferece varanda e sinuca. Derrick May esteve por lá na mesma época da primeira fase do evento que durou da última semana de setembro até a primeira de outubro - e se apresentou no Corner Hotel, um local voltado ao rock mas que abre suas portas para a música eletrônica vez por outra. Foi lá também que se apresentou um DJ/participante da Irlanda, numa noite memorável, como conta Tom. "O som experimental que ele apresentou no Corner Hotel foi de arrancar o teto." Outros DJs que estiveram ou vão estar por aqui: Kevin Saunderson, Frankie Knuckles, Craze e Zinc, Kid 606, Drop the Lime e até o Gorki (isso, aquele do Bonde do Rolê).
MINIMAL PAQUISTANÊS
O bom é que locais também aproveitam para ouvir coisas inimagináveis, como o minimal electro produzido por um DJ do Paquistão ou o "multiple" minimal que o DJ da Áustria tem para oferecer." Para fechar a primeira temporada com chave de ouro, Kode 9 se apresentou no Croft Institute e saiu peregrinando até terminar no Revolver, num inesperado set para aqueles que perseveraram para acompanhar ao que a noite de Melbourne oferece. A promessa é que a segunda temporada, que vai de 16 de outubro até o fim do mês, também traga surpresas.
Uma coisa que a cena australiana tem em comum com a nossa é a atual praga do "progressive" no mainstream da música eletrônica. Mas, ao mesmo tempo, não tem noites tão cheias como as brasileiras já que não há tanta gente. Eles compensam isso levando constantemente bons DJs pois para eles não sai tão caro assim, afinal o dólar australiano vale 1,5 dólar americano .
A multiplicidade se apresenta em cada local, oferecendo todo tipo de entretenimento à disposição de seu público: arte de rua, projeções e sinuca são onipresentes. Para um alemão com quem a reportagem conversou, a noite de Melbourne pode ser definida como "muitos drinks" enquanto algumas meninas estranhavam o jeito que as locais dançavam. Uma coisa é certa: só não se diverte quem não quiser.