De modo despretensioso, um grupo de amigos enlaçados por interesses como música e arte começam a organizar uma festa. Hoje, essa poderia ser a introdução de uma história qualquer, em qualquer lugar do mundo. Mas não. Em 2004, esse foi o começo de uma festa que, após dois anos de eventos muito bem-sucedidos, se consagra como uma das mais interessantes do Rio de Janeiro: a MOO.
Sob as batidas do disco-punk-funk de Diogo Reis e do minimal-techno-house de Eduardo Cristoph, a festa se estrutura através da produção do parceiro Bruno Guinle e da interferência visual e sonora de uma equipe de colaboradores: Rodrigo Bleque & Fabio Arruda (Cubículo), Eduardo Berliner & Cadu (Casa de Repouso Bogari), Gustavo Lacerda, Marcos Kotlhar (projeções), Diogo Reis, Tomás Ribas (iluminação) e Ricardo Pereira (engenharia de som). Tantas cabeças pensando no mesmo projeto não deixaram a MOO passar desapercebida. Os flyers começaram a chamar atenção pelo apuro estético, que destoa do padrão dos flyers que voam por aí. Bruno adverte: "o design é um dos pilares da MOO". Durante a primeira temporada do evento, no Dama de Ferro, a cada edição os flyers viviam um processo de remixagem, onde a idéia impressa do último designer era reprocessada na próxima festa. Essa é a pista para o que esperar da MOO, que não tem uma periodicidade certa, mas tem cuidados com a locação em espaços interessantes, e dão a importância necessária à acústica, atrações musicais, imagens e iluminação.
No currículo, a MOO traz nomes como o alemão Superpitcher, o chileno Pier Bucci, o finlandês Luomo, o sul-africano Portable, os ingleses Tom Gilleron e Paul Mac, os espanhóis Oscar Mulero e Christian Wunsch, além dos nacionais Robinho e Filipe Forattini, de Belo Horizonte; Nego Moçambique, Drezin e Oblongui, de Brasília; e Gil Barbara, de São Paulo - sempre envoltos por locais como Rafael RM2, Gustavo Tatá e Gustavo MM, além dos residentes. Nas 24 festas em dois anos, 11 tiveram apresentações ao vivo. Conheça mais sobre essa despretensiosa e bem sucedida construção de conceito da MOO, na entrevista que Bruno Guinle e os designers que atuam na festa concederam ao rraurl.com.
Como vocês se conheceram e em que contexto surgiu a idéia da festa?Bruno: Eu e o Eduardo somos amigos de infância. Há uns 8 anos conheci o Diogo no curso de Desenho Industrial da PUC. Nós três sempre fomos viciados em música, mas eu e o Eduardo caímos mais cedo na música eletrônica. O Diogo nessa época ia bem mais para o lado do rock, principalmente bandas de garagem dos anos 60 e maluquices pós-punk, mas também adorava dub, experimentalismos em geral.
Conheci o Eduardo Berliner, o Cadu e o Marcos Kotlhar no escritório de design onde eu trabalhava. O Bleque, do Cubiculo, era amigo do Berliner e do Gustavo Lacerda, outro designer amigo nosso. Todo esse pessoal fez flyers e material gráfico para a MOO. O Diogo já era amigo do Tomás Ribas desde moleque. O Tomás é iluminador e tem experiência de luz em teatro e grandes eventos. A festa começou meio na brincadeira, com o Diogo tocando nas quartas-feiras do Dama de Ferro, convidado pelo Dudu Llerena e pela Adriana Lima. Nessa época, antes do nome MOO, acontecia um evento de poesia no Dama, no mesmo dia da festa. O pessoal da poesia que sobrava e não ficava bolado com a música, virava a pista. Já que eu ia sempre, entrei numas de ajudar a promover a noite e começamos a chamar amigos para tocar. Não demorou para chamarmos convidarmos DJs mais conhecidos da galera para tocar: o Ric (Mr. Spacely) e o Gustavo Tatá, deram a maior força e foram os primeiros convidados da festa, que nessa época nem tinha nome. A primeira festa com o nome MOO mesmo teve como convidado o Tom Gillieron (dos selos britânicos Reverberations e Wrong), um inglês muito figura, que fez um live de tech-house para uma pista pouco numerosa, mas muito animada. Percebemos então, que além de DJs conhecidos como convidados, precisávamos trazer um público diferente, porque o pessoal da noite já via esses DJs normalmente. Começamos a fazer uma força para trazer gente que não fosse da noite, ou freqüentadora do Dama. E foi ótimo ver o povo da noite chegar em um Dama de Ferro diferente, com rostos desconhecidos ou pouco prováveis, em uma "festa de música eletrônica em plena quarta-feira". E muito bom também quebrar o preconceito de amigos nossos que não curtiam música eletrônica. Gente "do rock" ou "do samba" ou "da praia", se esbaldando na pista ou acompanhando com o pé o ritmo da música.
A música da festa é marcada pela pluralidade. Como chegam às escolhas dos DJs convidados e como percebem o diálogo entre os diversos estilos tocados na mesma noite?Bruno: Depois de decidir o nome da festa, achamos que era importante comunicar os estilos dos DJs. Então o Diogo toca disco-punk-funk e o Eduardo cai para um minimal-techno-house. Assim mesmo, tudo junto, procurando enfatizar a proximidade, a mistura, não os rótulos. Como na época ninguém anunciava que tocava minimal techno no Rio de Janeiro, a MOO passou a ser conhecida como "a festa carioca de minimal". Ajudou (ou atrapalhou) o fato da primeira MOO amplamente divulgada trazer como convidado o Luomo, conhecido como produtor de micro-house e minimal techno. Mas o fato é que na época ninguém anunciava que tocava disco-punk ou punk-funk no Rio de Janeiro. Esse contraste entre os dois estilos é importante. O Diogo começou em festinhas na Casa da Matriz: psicodelia, bandas de garagem, kraut... O Eduardo, com toda a bagagem acumulada como colecionador compulsivo, descobriu a house e o techno. O contraste entre a sujeira-rock'n'roll do Diogo e a assepsia-funky-minimalitas do Eduardo é o que faz a pista da MOO. Nunca fez o menor sentido separar essas coisas, então achamos legal bookar artistas que tendessem mais para um gênero ou mais para o outro e construir festas em torno disso. Já tivemos line-ups como Oscar Mulero e Christian Wünsch, mas também Jamanta Crew e Gustavo Tatá, Pier Bucci e Superpitcher...
Também existe uma característica que é a seguinte: por exemplo, o Troy Pierce vem tocar e traz todas aquelas novidades hiper minimalistas e cabeçudas, então não faz sentido o Eduardo só tocar coisas do gênero, como produções da Magda ou do Marc Houle, porque não dá para competir. Vale muito mais a pena ir para um outro lado, buscar sonoridades diferentes, dando mais variedade para a noite. Achamos importante desde o início buscar line ups extraordinários para o Rio. DJs brasileiros que não tocam por aqui com freqüência: Gil Barbara, Oblongui, Nedu Lopes, Robinho, Filoops, Drezin... E também live pas. Desde o início demos uma ênfase enorme para apresentações ao vivo. Hoje não escrevemos mais os estilos dos residentes ou dos convidados nas filipetas. Preferimos falar em "Festa boa com música boa para dançar" do que "festa de música eletrônica".
Como vocês interferiram nos ambientes de cada um destes locais?Bruno: No Dama de Ferro trazíamos o nosso som e mudávamos a cabine de lugar. Na época em que a MOO começou, a cabine do Dama era complicada para o DJ, que ficava meio escondido. Além disso os lives não cabiam na cabine. Toda quarta-feira montávamos nosso esquema: cabine inserida na pista e som extra. A diferença para a festa era enorme. Foi no Dama que começou a colaboração do Marcos Kotlhar, que mandava DVDs com animações que ele fazia para projetar durante a festa. Quando mudamos para o Espaço Constituição, percebemos que o som reverberava muito o pé direito do local era muito alto e as paredes, chão e teto, de pedra lisa. Aí é que entra o trabalho do Ricardo Pereira, que é um puta engenheiro de som, especialista em acústica. Ele foi lá no espaço, fez umas medições e sugeriu uma solução: criar superfícies na parede atrás do DJ e na parede oposta com duas camadas de tecido, uma dessas camadas tencionada e a outra com rasgos. Quase ninguém lembra do revestimento de tecido, que era preto e acabava ficando "invisível", mas o som no espaço ficou muito melhor. E passamos a usar um som mais completo, um equipamento mais parrudo do que o que levávamos para o Dama, porque o espaço é maior e lá tinhamos mais liberdade. Outra especialidade do Ricardo é projeção e vídeo. No Espaço Constituição projetávamos no teto os vídeos do Marcos e ele começou a fazer as imagens ao vivo. O local onde as últimas festas têm rolado é um estúdio em Botafogo. Tomamos partido do fundo infinito do estúdio e projetamos os vídeos do Marcos em três paredes, de forma que a pista fica envolvida pelas projeções. Elas têm um papel muito importante na ambientação da pista. Sempre tomamos cuidado para que as projeções não sejam invasivas ou iluminem demais. Outra peça importante para a ambientação é o Tomás Ribas, que cuida da luz. É de autoria dele o teto de luz sobre a pista da MOO no Espaço Constituição e os baldes com água borbulhante e anilina, que flutuavam sobre a pista do estúdio.
Como será a próxima Moo?Bruno: Como dissemos aí em cima, ainda não fechamos o local da próxima festa. Estamos sempre à procura de novos locais. Gostamos muito da idéia de fazer uma festa ao ar livre, de dia. Sentimos muita falta de algo assim aqui no Rio de Janeiro. A cidade pede isso. Também estamos fechando as próximas atrações, nada confirmado ainda.
Todos os colaboradores da MOO já se conheciam ou conheciam os trabalhos dos outros ou vieram a se encontrar com a festa?Bruno: Tirando o Marcos, que se formou em NY, e o Cadu, que fez faculdade de Belas Artes, todos estudaram na PUC em épocas diferentes. Esse é o pessoal do design. Tem também o Tomás, amigo de longa data do Diogo. E o Ricardo Pereira, engenheiro de som que além de amigo é uma espécie de guru para assuntos de áudio e vídeo.
MOO-art!

A questão do design dos flyers e da identidade visual da festa era algo que vocês tinham desde o início ou foi se configurando como algo relevante ao longo das edições?Bruno: O design sempre foi muito importante para a MOO. Eu e o Diogo estudamos design e temos muitos amigos designers. Nós três adoramos arte. A preocupação com a parte gráfica é a mesma que temos com as atrações. O primeiro flyer com o nome MOO foi feito pelo Diogo no fim de 2004, anunciava duas festas e era bem simples: preto e branco, com impressão só na frente. O contraste entre os estilos dos residentes serviu de inspiração para o design da segunda filipeta. Foi o início da colaboração do pessoal do Cubículo. A história do nosso flyer é curiosa: o Bleque prometeu que ia a uma das festas e furou. Conversamos e eu cobrei o furo. O Bleque acabou prometendo pagar uma prenda. De zoação eu disse que ele teria que fazer a filipeta da festa do Luomo. E esse flyer deu o tom do que deveriam ser as próximas, para nós ela tinha a cara da MOO, definiu a MOO muito bem. Não explicamos nada para ele nada de briefings - e não fizemos nenhum pedido em especial além de detalhes técnicos. Nessa época já conversávamos com o Cadu e com o Edu Berliner sobre os flyers seguintes e dessas conversas nasceu a idéia de fazer uma mixagem gráfica, uma espécie de "back to back" de design. Um designer fazia um flyer e o seguinte partia de onde o outro havia parado, interferindo no trabalho anterior. Isso aconteceu mais nos flyers eletrônicos... Não imprimíamos flyers toda semana, mas sempre mandávamos pela internet. Olhando a seqüência das filipetas da primeira temporada fica fácil entender. (NE: confira a sequência dos flyers da Moo na Galeria, link no final da página!)
O que o designer tem em mente ao fazer um flyer para a festa?Marcos Kotlhar: Nada muito específico. Acho que o legal da MOO é o conceito aberto para experimentação de todos os aspectos que fazem o evento: música, design, iluminação, projeções, locação... Não estava com minha mente comprometida em fazer um "flyer de festa", mas sim um trabalho livre que precisava informar certas coisas. No flyer resolvi explorar a técnica de overprint, que acontece quando se sobrepõe duas tintas de cores diferentes para chegar a uma terceira na impressão. Fiz só este flyer para a MOO, mas os outros designers também acabam dando importância para a experimentação do que para o resultado final. Um bom exemplo disso está no último flyer, feito pelo Eduardo Berliner e pelo Cadu, impresso em uma máquina de tipos móveis (técnica hoje já obsoleta inventada por Gutenberg por volta de 1500). Usando a composição manual, letra por letra e imprimindo em um papel mata-borrão eles fizeram um flyer composto por uma só fonte, com uma só cor. Preto no papel branco: coisa rara para divulgar uma festa de música eletrônica. O fascinante não é necessariamente o resultado final do flyer, mas o processo de execução e experimentação que os designers empregaram para executá-lo. Aí filmamos e projetamos na festa o clipe desse processo de impressão na máquina totalmente manual, para as pessoas entenderem a história e a beleza por trás desse flyer de uma cor. O meu envolvimento maior é com as projeções, que também seguem essaexperimentação. As projeções que eu faço são todas feitas em tempo real, movimentadas a partir da música que sai da mesa do DJ. Sem som não tem animação. Esse sistema de animação gerada por áudio foi feito adaptando um programa 3D que não tem nada a ver com projeções ao vivo, mas que agora respondea sinais de amplitude do som e a sinais de amplitude da cada freqüência (graves, médios e agudos) com muita fidelidade. Por depender do áudio ao vivo eu nunca sei qual será o resultado da animação, isso só vejo na hora da festa. Crio as animações que podem ficar interessantes movidas pelo áudio, tento fazer uma simulação com algum som já gravado, mas na hora da festa sempre fica totalmente diferente. É isso que me dá prazer nas projeções: saber que ela não está controlada.
Gustavo Lacerda: O mesmo que tento por em tudo o que faço: continuidade, ruptura, coerência, esquecer quem sou.
Casa de Repouso Bogari (Eduardo Berliner & Cadu): A escolha da linguagem reflete um desejo de equivaler a limites que comentem características do próprio evento. Serialidade, repetição, composição, edição e ritmo pertencem ao domínio da música eletrônica. Mas podem, caso haja intenção para isso, serem reforçados através de escolhas tomadas durante a realização do material. Esse nível de decisão é inerente a tudo que é realizado para este cliente por todos os autores convidados.
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e a pilha pra day party tá funcionando hein!!! logo mais vai rolar...
abs
Pena q acaba cedo rs!