Sem as máquinas não somos ninguém
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Sem as máquinas não somos ninguém
Festeira, "sound colocator" e acadêmica, Adriana Amaral lança livro sobre cyberpunk, sua estética e implicações na música
25.09.06 16:55
Que vivemos na era tecnológica e do efêmero – e que a música eletrônica é uma ramificação desta fase histórica – todos sabem. Quais seriam, entretanto, as implicações na forma subjetiva do ser humano? Será que ainda existe esta forma? As tintas das perguntas podem variar na tonalidade e intensidade, mas são dilemas nos quais os artistas da música eletrônica, por exemplo, sempre nos colocam.

A dicotomia do humano versus não-humano não é de hoje, mas ela se intensifica justamente pelo fato de estarmos absolutamente imbuídos na cibercultura. No momento exato em que milhares de pessoas acessam seus iPods, notebooks, palmtops e celulares de alta tecnologia, alguns acadêmicos pensam nas mudanças das relações de comunicação do meio social. Enquanto você dança ao som de um DJ executando softwares que picotam e transformam música em outras múltiplas possibilidades musicais, eles filosofam sobre essa posição do homem como extensão da máquina (ou da máquina como extensão do homem?).

Essa teoria leva um nome: pós-humano. Não é, como pode parecer à primeira vista, algo em oposição ao humano ou que prega o fim do humano. É, na verdade, a parceria indissociável do homem atual com a máquina, como por exemplo o DJ e suas mixagens ou o internauta. Com a intervenção tecnológica, a razão humana se amplifica e se dimensiona de uma forma absurda, inimaginável e não-humana, justamente pelo fato de ser um prolongamento dos nossos raciocínios e sentimentos. E muda de figura. (pausa). Mas muda para onde? Difícil prever. E dá um medo...

A idéia de pós-humano é relativamente nova para os estudos acadêmicos, mas não para as ruas (inclua-se, aqui, a cultura dance) e para a literatura. O pós-humano comunga com uma idéia que pontuou alguns dos elementos da década de 80: o cyberpunk. Mas por favor, esqueça, ainda que momentaneamente, a idéia daqueles homens esquisitões com implantes de braços mecânicos nas costas e de intervenção tecnológica nas memórias humanas – depois a gente retoma ela, e atenção: qualquer semelhança com blockbusters norte-americanos lançados nos últimos anos não é mera coincidência.

Uma das estudiosas que tenta apreender essa nova configuração é a gaúcha Adriana Amaral, aka Lady A., doutora em comunicação pela PUC-RS, tradutora, jornalista, darkwaver e, nas noites vagas, DJ (ela prefere "sound colocator", jargão gaúcho para acabar de vez com a eterna polaridade do DJ vs "sound colocator"), e que lança o livro Visões Perigosas – Uma Arque-Genealogia do Cyberpunk, na próxima sexta-feira, dia 22 de setembro, em Curitiba. O livro também terá lançamentos em Porto Alegre e São Paulo, mas já há exemplares disponíveis para nas Livrarias Cultura, em São Paulo.

Segundo Adriana, a música eletrônica ainda é um tema incipiente, mas tem tido bastante espaço para estudos no meio acadêmico. "É uma temática que tem chamado muita atenção na universidade e também tem crescido bastante nos últimos cinco anos, principalmente. Na semana passada, por exemplo, fui integrante de uma banca em Bauru (SP), para a qual uma garota defendia uma tese sobre o psytrance no Brasil. Na PUC do Rio Grande do Sul houve uma defesa de uma tese de mestrado sobre os flyers. É incrível, há uma geração na faixa dos 25 anos desenvolvendo um trabalho relacionado à cultura da música eletrônica, e disso posso concluir que a influência da cybercultura é inegável".

Derivado da tese de doutorado da autora, o nome do livro vem da visão distópica que a humanidade tem do futuro – porque as pessoas vêem o futuro com os olhos apocalípticos, repleto de hecatombes e humanóides decadentes com olhos biônicos saltando das órbitas. A própria ficção científica, responsável pela invenção do cyberpunk, apontou diversas vezes para este caminho.

Adriana transita com desenvoltura olímpica por grandes nomes do pensamento humanista mundial (como Friedrich Nietzsche, Michael Foucault e Jean Baudrillard), passando pelo dândi do LSD Timothy Leary, autores de ficção científica, até chegar a citações e referências a New Order e Daft Punk. "O objetivo do trabalho não era falar de música, mas o assunto acabou por aparecer naturalmente. Fiz um rastreamento do cyberpunk na literatura de ficção científica, e a música, na verdade, acabou por ser mais um componente central da estética e da filosofia cyberpunk, pela influência dela em trabalhos literários e vice-versa. Muitos artistas de rock e de música eletrônica assumem que bebem da fonte da ficção científica como um dos elementos de influência", comenta a escritora.

Mas afinal, o que é o cyberpunk? "Atende pelo nome de atitude", ela explica no livro, concatenando os preceitos filosóficos do escritor norte-americano Philip K. Dick, do pensador inglês William Gibson e da banda nova-iorquina Ramones. "É ela que estabelece a ponte entre o punk enquanto um movimento, um estilo de vida, uma sub-cultura e o cyberpunk enquanto uma visão de mundo". O cyberpunk é, então, o conhecimento adquirido nas ruas e o uso das tecnologias encontrado pelos distintos grupos que habitam as metrópoles em decadência, e que aparecem com clareza pela linguagem, pelo estilo e pela urbanidade.

A idéia do pós-humano, lembra Adriana, vem no rastro da própria cibercultura. E ao se pensar em cyberpunk, o ideal é pensar em um amálgama de conceitos: comportamentais, musicais, literários, filosóficos. Porque, se as modificações corporais já estão nas ruas – não em braços mecânicos e olhos biônicos, mas em corpos adornados por tatuagens e piercings, no mínimo – na música e nas nossas tecnologias cotidianas, trata-se de uma visão de mundo que deve ser levada em consideração.

Marina Lang
Marina Lang
you can't quit me, baby.
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