Painel: Toca-discos x guitarras
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Painel: Toca-discos x guitarras
Nunca a venda de guitarras foi tão alta no Reino Unido... seria o DJ uma figura "uncool" hoje? Músicos, Djs e produtores respondem
05.09.06 00:00
Semana passada o mundo do rock comemorou mais um gol. Segundo a Associação Britânica da Indústria Musical, nunca a venda de guitarras no Reino Unido foi tão alta como em 2006. Aparentemente inspirados por bandas como Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs e Arctic Monkeys, os jovens de hoje querem mesmo é aprender a tocar e fazer parte de uma banda.

No mundo da dance music, sobrancelhas se levantaram, claro. Enquanto a poucos anos atrás todo jovem sonhava em juntar dinheiro para comprar um par de toca-discos e dominar as pistas de dança, hoje, a começar pela Inglaterra, o DJ segue perdendo o status de artista cultuado – estará ficando "uncool". Será?

O rraurl perguntou a DJs e produtores no Brasil e na Inglaterra se esse é momento da música eletrônica vai voltar para o underground de vez.


"O que torna o rock atraente é a possibilidade de ser tocado em grupo e não de forma solitária como um DJ. Eu não acho que essa onda seja inspirada nessas novas bandas e sim nas bandas que movimentaram a cena rock nos últimos 40 anos. O rock é como um legado, uma herança deixada de geração a geração, onde ninguém simplesmente copia, mas sim aprimora. Acho que isso não representa uma derrota para cena da música "tocada" por Djs, mas uma adaptação da cena, que deixará de ser uma cena global para retornar aos guetos. O que é ótimo pois nos guetos ela se torna pura, sem a necessidade de ser comercial. Outra coisa que acompanha a guitarra é a poesia e hoje, com guerras, terrorismos, injustiças e outras coisas causadas pelo homem, a melhor forma de contestar isso tudo é através da guitarra em punho, um microfone a frente, uma bateria atrás e um baixista ao lado e dessa forma, poder gritar suas insatisfações. Existe um ditado cigano, muito pertinente a isso tudo, que diz "meu futuro está lá atrás", ou seja, em questão de alguns anos os DJs voltarão a cena com toda a força. Mas antes disso, se preparem para a nova onda de rock progressivo que deve nos atormentar por alguns tempos."
Edgard Scandurra, músico e DJ

"Eu não acho que isso é ruim. Já faz um tempo que a dance music em geral deteriorou, desde que qualquer um pode montar no PC qualquer coisa que parece uma música e lançar. Os padrões de musicalidade começaram a cair e o mercado foi inundado com discos de quinta categoria. Eu acho que quanto mais pessoas aprenderem a tocar um instrumento musical, melhor vai ser pra música em geral. Pessoalmente, eu não tenho me impressionado com o rock que tem saído nos últimos 10 anos, com algumas exceções. Eu espero que esse ressurgimento alimente uma onda de bandas de rock que irão se comparar com os grandes dos anos 60 até os 90. Quanto a música eletrônica, o consumo em massa está diminuindo, mas se você procurar qualidade, ela ainda está lá. A única diferença é que está voltando a ser uma cultura alternativa ao invés de ser empurrada ao público. As pessoas que estão nisso pelas razões erradas estão ficando pra trás e os realmente interessados permanecem. Dance music commercial é agora quase uma coisa do passado, e isso não é ruim."
Asad Rizvi, DJ e produtor, Reverberations Records

"Acho que enquanto forem criadas novas tecnologias e novos meios de comunicação sempre teremos espaço para a musica eletrônica, e também acho que a mistura de estilos e elementos é que fará a diferença. A necessidade cada vez mais veloz da mídia por novidades é cruel, não vemos o amadurecimento de uma tendência e já surge outra. Mas acredito que em vez de uma tendência teremos várias, cada vez mais tendências locais e regionais, o que é bem melhor de uma cultura massificada e burra. Sou músico, antes de ter escolhido ser produtor e DJ. Quando ao DJ tocar um instrumento, não acho que vai acontecer assim. Mas como a maioria faz música eletrônica sem ter quase nenhum ou nenhum conhecimento musical, acho totalmente válido o DJ que quiser aprimorar seus conhecimentos aprendendo um instrumento, usando na performance ou não."
Eraldo Palmero, músico e produtor musical, Waterfront House


"Eu acho que o DJ sempre será necessário, independente de ele tocar dance music ou outra coisa, alguém tem que tocar a música nos clubs. Existem DJs hoje – Erol Alkan por exemplo – que tocam uma mistura excelente de estilos diferentes como rock, house, electro, etc. Em termos do que é "cool" entre os jovens, definitivamente há uma mudança massiva em direção a música com guitarras, o que tem causado um efeito devastador nas vendas
de discos e equipamentos de DJs. Nem todos os DJs são músicos – alguns deles só tocam a música de outras pessoas, e se precisasse tocar piano, guitarra ou flauta não ia idéia de como começar. Mas todo o DJ competente tem que ter um conceito de ritmo para poder combinar as batidas de dois discos diferentes. Eu sempre senti que a cultura do DJ tem pisado em ovos quando o assunto são 'teens'. Ficar de pé num lugar com um par de headphones mixando o disco de outras pessoas não é tão divertido como tocar em uma banda com seus amigos – e eu fiz os dois. Acredito que o que está acontecendo com a dance music certamente já aconteceu algumas vezes com outros estilos – no final dos anos 70 o rock deu lugar ao electro-pop – e tenho certeza que em 10 anos haverá uma nova onda para os jovens seguirem."
Tom Gilleron, DJ e produtor, Reverberations Records


"Não acredito em catastrofismos. Música não é e nunca foi monocultura."
Dudu Marote, produtor, Jamanta Crew


"A minha visão é que a house music original, e num nível menor a música eletrônica, teve seu pico no final dos anos 90. Agora a geração mais nova esta mudando para o rock como uma reação a isso –da mesma maneira que eu fugi do rock horroroso que estava a minha volta no começo da minha adolescência. A razão pra isso, e tenho certeza que o mesmo acontece agora, é que eu não queria escutar a mesma música dos meus pais. Eu queria algo que, como o The Who dizia, fosse a cara da minha geração. Olhe para o rock popular dos anos 80 –triste e inchado, cheio de egos... muito parecido com o que a dance music mainstream se tornou no final dos anos 90. Agora o rock está de volta e é cool again graças a bandas como Artic Monkeys. Eu acho que é cíclico. Em certo ponto quando os jovens da nova geração de rock disserem 'eu não quero escutar a mesma música do meu pai!' e procurarem algo diferente... quem diz que não vai voltar a ser música eletrônica de novo? Dito isso, com a velocidade com que música e moda se movem nos dias de hoje, nada é underground por muito tempo. Pode acontecer mais cedo do que você imagina..."
Anthony Hill, editor da revista inglesa de cultura club Fact


"A Inglaterra sempre foi referência musical. Mas acho que de 5 anos pra cá o país perdeu esse status, principalmente em música eletrônica. Não existem grandes produtores ingleses como há 20, 15 anos atrás. O inglês sempre foi culturalmente mais rock, mas isso não significa que a musica eletrônica está ficando "uncool". No meu ponto de vista, hoje, a Alemanha é muito mais referência quando se fala de DJs, produtores e grandes labels, e isso está crescendo a cada dia. Acho que a música está sempre em transformação. O rock nunca deixou de ser cool, apenas passou a ser menos executado em algumas partes do mundo. Assim está acontecendo na Inglaterra, com o techno. Acho que as novas bandas que misturam rock com batidas mais "dançantes"
estão fazendo a cabeça da molecada, e acho isso é um casamento feliz entre a cultura rock e o universo eletrônico da música."
Guilherme Boratto, músico e produtor musical

"Isso é um ciclo. Os jovens querem estar em uma banda porque a mídia tem dado mais espaço para bandas do que DJs. Mas DJs puros sempre estarão bem, não interessa a época. Só olhar para gente como Françoise K, Louie Vega, Frankie Knucles, Laurent Garnier, Carl Cox. Todos são exemplos que estão aí ha 20 anos. O importante é ser criativo, independente do que você escolher tocar."
Freddie Love, residente do projeto Sancho Panza e PR, Phonica Records

 Thais Mendes (glittah)
Thais Mendes (glittah)
I love you honey, I think you're a terrific girl, but you have clothes like a f•ckin' d•ckhead.
comentários
10 comentários
Cédrik Damábiah
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As pessoas que fazem a mídia hoje, são pessoas que vieram de festas e de influências musicais roqueiras, desde os anos 60, 70, 80 e assim por diante. O Brasil (o povo brasileiro) está, efetivamente, ouvindo música eletrônica agora, no novo milênio. A Inglaterra (o povo inglês) ouve música eletrônica há mais de 25 anos!!!
Cédrik Damábiah
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Existe sim uma guerra entre estilos musicais diferentes, porque a maioria das pessoas quer ter a razão voltada para seu gosto pessoal e aquilo que ela foi educada. Música é produto de consumo. A questão da mídia também é preocupante, principalmente, quando ela mistura as coisas. Ao invés de apenas divulgar ela se mete na história e acaba promovendo um estilo musical mais do que o outro. Entende! No meio dessa história as pessoas têm sua particularidade, mas acabam consumindo determinados artistas e estilos musicais, não por gostarem, mas porque a mídia disse.
No Brasil, a grande maioria das pessoas que está na mídia, não freqüenta clubes, não ouviu música eletrônica e não está familiarizada com toda essa tecnologia, logo, é fácil aprender a tocar guitarra e violão. No Brasil, grande parte da mídia trata a música eletrônica como se não existisse. Dessa forma, percebo que o rock nunca esteve fora de moda por uma simples razão
Lagartixa
Lagartixa(15.09.06)
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Palmas pra sensatez do Dudu Marote. Alguém aí lembra de toda aquela babaquice "techno x rock" e "vendem-se mais toca-disocs que guitarras na Inglaterra" de 7, 8 anos atrás"? É música, e ponto.
Rafael
Rafael(14.09.06)
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O Killers não é inglês, eles são norte-americanos de Nevada. Mas totalmente influenciado pelos ingleses, com certeza uma synth-pop band dessa época.
Rafael
Rafael(14.09.06)
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