CocoRosie
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CocoRosie
25.08.06 23:30
Não foi fácil conseguir falar com elas, que estavam em turnê até agora. Finalmente as irmãs pararam um pouco em Nova York para acertar a vinda para o Brasil. Depois de dias esperando uma entrevista, por email que fosse, um telefonema recuperou minhas esperanças, mas aumentou minhas preocupações. Vários foram os relatos: elas são arredias, não gostam de dar entrevista, são lacônicas... Para minha surpresa e alívio, a conversa com Sierra Casady, 25, foi tranquila, cordial e divertida. Ela é a mais velha das duas irmãs (a outra se chama Bianca, 22) que formam o projeto CocoRosie, e que se apresenta em São Paulo no próximo dia 30, em Recife no dia 1º e no Rio de Janeiro no dia 2. Abaixo, a íntegra da entrevista.

Qual será a formação do show?
Nós duas, o MC francês Spleen, que também faz beatbox, um percussionista e mais uma pessoa fazendo beatbox. Ou seja, vai ter muito beat rolando.

Como foi a sua educação musical?
Na infância, a gente não teve uma forte influência musical externa. Nossa mãe cantava músicas folk pra gente, além de músicas de rituais indígenas. Nosso pai tocava percussão em rituais indígenas, e isso geralmente acontecia em cabanas próprias para isso: feitas de madeira em formato de meia-lua, cobertas com tecido e forradas com pedras quentes, o que faz com que o ambiente fique muito quente. Aí você fica naquele calor rezando, cantando, fazendo música, desenhando e suando muito. Acaba entrando em transe.

Que história é essa de que você é capaz de fazer a eletricidade passar pelo seu corpo?
Meu pai estudava muito o fenômeno dos raios, e ensinou para nós muito sobre a dança da chuva. Em determinado momento, eu saí da casa dos meus pais (eu era muito independente), e tive uma experiência nas montanhas: eu consegui capturar a eletricidade do ar sem nenhum raio ter caído por perto. Mas acho que eu tive foi muita sorte. (risos)

Como foi que você e sua irmã resolveram começar este projeto?
Ela me surpreendeu. Bateu na porta do meu apartamento em Paris, se convidou pra entrar. Eu tinha muitas restrições em vê-la naquela época, e quando ela entrou, toda mágoa desapareceu. Os eventos que aconteceram depois daquele momento ainda são muito nebulosos, parecem um sonho. Foi uma coisa muito natural e orgânica, algo a qual nos rendemos. Não pensávamos muito no que estava acontecendo, a não ser que tínhamos que nos render à nossa comunicação telepática, unir nossas forças e fazer nossos sonhos virarem realidade juntas. Parte desse processo resultou em material para o La Maison de Mon Rêve.

No que um disco difere do outro?
o Maison era mais uma expressão completa de alegria e melancolia ao mesmo tempo. Sabe quando uma pessoa chora de alegria? Ele tem uma tristeza profunda, mas um imenso alívio de alegria. Em Noah's Ark, sinto um tipo de anseio, um tipo de busca, uma tensão. Ele foi composto na estrada, enquanto fazíamos a turnê do Maison, e juntamos tudo novamente no apartamento em Paris. O Word to the Crow... (álbum de hip hop gravado dias antes de gravar o Maison, lançado pela Touch and Go em edição limitada) naquele momento, para mim e pra Bianca tinha a ver com arrombar a porta, a gente precisava de um escape, e só tinha um jeito: arrombar a porta. Para nós, aquilo foi uma total e completa explosão, uma união de forças para criar coragem para fazer aquilo. Sim, aquele disco foi uma imensa explosão.

Vocês usaram sons sampleados ou saíram gravando por aí?
Foi um processo muito natural, a consequência de nossa exploração e registros honestos. Para o Maison, a maior parte dos sons vem de um aparelhinho à pilha que a gente encontrou nas ruas perto da minha casa, em Paris. Tem alguns sons de animais e da natureza que foram gravados quando fizemos uma viagem ao sul da França. Gravamos enquanto estávamos em uma fazenda. As músicas que foram gravadas lá (para o Maison) foram feitas praticamente ao vivo, e os sons ao nosso redor funcionaram como trilha incidental.

Vocês escutam música durante o proceso de composição?
Não escutamos muito, não. A tendência é ouvir as vozes que estão em nossas mentes, e contamos piadas bizarras uma pra outra. Mas temos uma família de músicos ao nosso redor: Diane Cluck, Vashti Bunyan, Antony (do Antony & the Johnsons), um amigo muito especial, Jana Hunter, Devendra Banhart... esses são muito especiais para nós.

E o quarto disco, já está pronto?
Sim, quase pronto.

Também será gravado no apartamento de Paris?
Não. Já reunimos quase todo o material e estamos prontas para juntar tudo, e acho que isso vai ser feito na Islândia.

Já tem um nome?
Sim, mas acho que não devo dizer ainda... (risos)

Se você tivesse que explicar para os seus filhos que tipo de som vocês fazem, o que diria?
Provavelmente diria pra eles que cada música é um pequeno mapa espiritual que explora alguma coisa sobre o seu eu e sobre a vida.

Gostaria de saber um pouco sobre o seu projeto paralelo Metallic Falcons. É mesmo um heavy metal para bebês?
O álbum Desert Doughnuts, do Metallic Falcons (Voodoo Eros)... a textura é de rock e até de heavy metal, mas muto lento, suave, onírico e atmosférico. A inspiração vem do deserto, da natureza e dos animais que lutam para sobreviver ali. Tem um tom delicado, paisagístico e atmosférico. Poderia ser a trilha sonora de um sonho. É diferente, tem uma atmosfera cinética...

Ou seja, os bebês vão poder dormir tranquilamente ouvindo esse disco, então?
Sim, vão. (risos)

O que é o Vodoo Eros?
A Bianca lançou o selo Voodoo Eros, até hoje só foram feitos três lançamentos, e em breve ele funcionará como base para vender também livros e arte. A idéia é agrupar os artistas que são crianças, são visionários, que se inspiram e que mesclam mitos e emoção. O primeiro lançamento foi uma compilação chamada The Enlightened Family, velhas canções de artistas folk antigos. O segundo foi um álbum da Diane Cluck (Countless Times), uma cantora de folk com uma voz assustadoramente poderosa, o terceiro foi o Metallic Falcons (Desert Doughnuts), e tem mais por vir.

O que você espera dos shows no Brasil?
Não faço idéia do que nos espera, mas quero conhecer muita gente e comprar alguns brinquedinhos percussivos, porque acho que por aí deve ter bastante coisa diferente. Não vejo a hora.




Erika Brandão
Erika Brandão
então tá, né?
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