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Evento celebra inventividade e diversão, e o rraurl.com marca presença em mais um festival europeu
27.07.06 13:35
Se comparado com os inúmeros festivais que permeiam o longo verão inglês, o Lovebox Weekender desse final de semana podia até ter entrado para a categoria "modesto". Erguido em meio ao menos conhecido Victoria Park no leste de Londres e com um line-up relativamente menos estelar, o festival tinha tudo pra ser um fracasso. Não foi. Pelo contrário, mais de 17 mil pessoas enfrentaram o calor e desconforto do transporte público londrino pra prestigiar uma mistura eclética mas não menos interessante de DJs locais, bandas novas, artistas consagrados e vários brasileiros que tomaram os palcos das 10 tendas espalhadas ao redor de 70 acres.

Depois de uma semana que viu o termômetro atingir a marca dos 35 graus – algo impensável para os padrões ingleses – o começo do festival foi agraciado com chuva e céu nublado, bem aos moldes do tempo londrino. Na entrada, entregadores de flyers faziam propaganda dos próximos festivais e vendedores ambulantes tentavam fazer um extra com o que tivesse nas mãos ("Hats? Cameras? Poppers?").

Enquanto o povo ia chegando aos poucos, a programação começava a se desenrolar. No main stage, o trio australiano Cut Copy, grande aposta do festival, fazia sua única apresentação do ano no Reino Unido para os poucos dispostos a enfrentar a chuva. Quem resolveu se abrigar na tenda vizinha Bacardi B-Bar pegou o set de house swingado e percurssão do duo de Manchester Slammin Boys. Enquanto isso na Brownswood, tenda representante do selo homônimo do entusiasta da MPB e Radio 1 DJ Gilles Peterson, DJ Nuts tocava tracks de Ed Motta e Max de Castro para o público sentado no chão. Mas esse clima de lounge durou pouco. Às 4 e meia da tarde o sol voltou a dar as caras e foi quando a tenda pegou fogo, com o povo pulando sem parar com o jazzy d'n'b ao vivo do nativo de Bristol Ben Westbeech, e logo a seguir com o set cheio de influências latinas do próprio Peterson, acompanhado dos vocais ragga de Earl Zinger.

Festival com personalidade

Para entender um pouco do caráter do festival, vale aqui falar sobre o público e o local. O Leste de Londres tem ganhado fama internacional por agregar em Brick Lane e Shoreditch as maiores comunidades de jovens músicos, artistas, diretores, roteiristas, designers, produtores, enfim, gente que está de alguma maneira envolvida com arte, música, moda e cultura vanguardista. É de lá que saem alguns dos nomes que o resto do mundo vai ouvir e idolatrar, e tendo consciência disso, essas comunidades são fiéis quando o negócio é prestigiar e nutrir os talentos locais.

Assim se explica o crescimento fenomenal do projeto Lovebox, criação dos Groove Armada boys Tom Findley e Andy Cato, e que começou como uma baladinha underground em 2002. Como toda boa festa londrina, o sucesso corre via boca-a-boca e quatro anos depois a festa saiu de Clapham Common no Sul da cidade e veio se instalar ao lado da comunidade mais criativa de Londres.

Assim também se explica o sucesso da tenda em forma de oca indígena da Secretsundaze, que se manteve abarrotada com apenas três DJs e um live no line-up: os residentes James Priestley e Giles Smiths, e o chileno residente em Berlim Pier Bucci mais o conterrâneo Ricardo Villalobos. A Secretsundaze é uma das mais bem sucedidas squat parties dos últimos verões – festas com line-up supresa e locação secreta – sempre atraindo um público cada vez maior de gente interessante, inovadora e fã de electro-techno e funky house.

Mas os pontos altos do festival não foram somente os artistas e DJs locais com suas pequenas legiões de adoradores, mas sim a mistura diversificada de arte e ritmos em suas mais variadas formas. Enquanto em tendas como a Caukus e Rumbleteaser se apresentavam bandas novas – algumas, como Fridge Magnets e Mistys Big Adventure, bastante teatrais e uhm, dramáticas – a tenda 55DSL Block Party dava espaço para a cultura hip hop mostrar sua graça com shows de break dance do grupo Imperal Steps, set do londrino Rodney Smith aka Roots Manuva, e painéis de grafitti sendo criados ao vivo pelos artistas do grupo itinerante Aerosolics.

Brazucas ganham destaque

Mas quem recebeu destaque especial foram os brazucas do coletivo Favela Chic, que ganharam tenda própria. O que era apenas um bar brasileiro em Paris, acabou ganhando uma filial londrina no coração de (onde mais?) Shoreditch e acabou virando mania dos ingleses moderninhos com sua decoração kitsch e som sem-vergonha. Com clips no telão mostrando o Rio de Janeiro dos sambistas e malandros, DJ Cliff do projeto Batmacumba fazia o povo rebolar com sua mistura de funk carioca, hinos da Tropicália e samba de raiz, preparando o terreno pra aparição (bastante atrasada) da bateria da Mangueira, que acabou obscurecida pelo aguardadíssimo show do Groove Armada.

Quem abriu para os donos do festival foi Patife, acompanhado de dois MCs e sem a presença de seu comparsa Marky, que por motivos desconhecidos até o fechamento dessa matéria não apareceu. Mas o paulista deu conta do recado, levantando um público achochado depois de um show morno e rápido do trio X-Press 2, que começou bem com "Smoke Machin"e e "I Want You Back" e encerrou repentinamente com o hit "Lazy".

Falando em d'n'b, quem disse que o ritmo tinha perdido a força na terra onde foi criado? Além de Ben Westbeech e Patife levando a galera à loucura, o coletivo asiático Shiva Sound System conseguiu lotar a pouca freqüentada tenda Rumbleteaser com um set "punk d'n'b", e no palco principal o beatboxer Shlomo impressionava, tocando hip hop e d'n'b com nada mais do que as próprias cordas vocais.

Groove Armada, como de praxe, encerrou o sábado com maestria, mostrando que a banda sabe dar show ao vivo como só mega-stars conseguem. Abrindo com a levanta-defunto "Easy" e seguindo com "If Everybody Looked The Same" cantada pela divina Sunshine Anderson, a banda levantou o público com a clássica mistura de soul, hip hop e house, e hits como "Purple Haze", "My Friend", "I See You Baby", "Superstylin'" e claro, hits do álbum de 2002 Lovebox.

Em suma, Lovebox foi exatamente o que prometia ser: um reduto de inventividade e diversão, e uma celebração das qualidades que fazem de Londres a capital da criatividade anarquista e independente.

 Thais Mendes (glittah)
Thais Mendes (glittah)
I love you honey, I think you're a terrific girl, but you have clothes like a f•ckin' d•ckhead.
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