Bpitch Control, de Berlim para o mundo
Selo vai do experimental ao pop, do glitch ao electro, e ganha reconhecimento internacional. Rraurl.com visitou QG da cria de Ellen Allien
24.07.06 12:30
À primeira vista, parece um depósito abandonado, assim como a grande maioria dos imóveis do leste berlinense. Mas o sticker com o macaco do Modeselektor nao deixa dúvida, é no terceiro andar, no meio de um amontoado de caixas e pilhas de revistas velhas, que fica o escritório do Bpitch Control em Berlim.
Nada de recepcionista ou sala de espera com cafezinho. Três comodos dois escritórios e um depósito de vinis, caixas e roupas à venda - é toda a estrutura oficial da Bpitch, que pode ser considerada precária se levada em conta a quantidade de gigs no exterior e a repercussão dos releases do selo: Modeselektor, Smash TV, Paul Kalkbrenner, Kiki, Ellen Allien, Apparat, etc. Mas ainda é coerente com a imagem de independente, por vezes pioneiro, que o selo quer manter, principalmente no que diz respeito ao tech IDM e o glitch. "Nós sempre quisemos artistas que não fossem capitalistas. Tanto é que todo mundo cresceu junto", resume Sascha Funke, integrante do crew Bpitch desde o fim dos anos 90 e o anfitrião da visita oficial do rraurl.com ao selo.
Turma do Leste
A história é simples: Ellen Allien era a jovem promoter das festas Bpitch e resolveu, em 1997, juntar alguns amigos músicos em torno de um selo de mesmo nome, que significa "as bitches controlam os pitches". E é ela que controla mesmo, além de ser a bitch da coisa toda, Ellen é a artista mais vendida e solicitada para gigs do selo. Do Japão à Eslovênia.
É a mais profílica também, analisa as cinqüenta demos mensais que recebe, visita o office para reuniões, além de já ter lançado três álbuns nos últimos anos, ao contrário de Sascha, que só começa a trabalhar seu segundo disco agora, depois de três anos. "Eu não conseguia voar de avião, tinha essa fobia que agora já está controlada. Isso me atrasou um pouco. Há pouco tempo que eu comecei a viajar para lugares mais distantes para tocar", revela.
O boom do Bpitch veio em 2000 com o EP "Missy Queens' gonna Die", de Tok Tok vs Soffy O, electroclash até o dedão do pé. Eis a grande ironia: hoje a bandeira do selo é o loop desconstruído e destorcido, o techno "inteligente", misturado. Mas os louros da glória vieram do electropop colorido. Sascha Funke que o diga, seu maior sucesso até hoje é "When will i Be Famous", versão de um hit oitentista, no melhor estilo Tiga. "Hoje em dia somos voltados a concepções mais modernas do techno", disse o DJ, ex-vendedor de móveis, ao reclamar do excesso de demos minimal que o crew do selo recebe.
Nessa mesma época a Bpitch já tinha uma forte identidade visual e o apelo berlinense, estampado até no logo "Berlin Stadt". O coletivo Pfadfinderei é o responsável por todo o design do Bpitch cada músico tem um designer responsável, que também são VJs com o Modeselektor. É um diferencial de outros selos alemães, reforçando a identidade do BPitch. Outro selo alemão, o Kompakt, carrega o mesmo orgulho de sua cidade, Colônia, mas é mais sério, sisudo.
"Tudo se desenvolveu muito rápido, mas não o suficiente para nos acharmos o melhor", explica Sascha. E é bom que nem se achem, porque tanto pioneirismo nada mais é que uma nuance musical que não vai além do próximo release do CD alheio. Kraftwerk foram os alemães que mudaram a vida de muita gente. Hoje em dia a concorrência é outra e no fundo, as idéias e as fórmulas são todas as mesmas, difíceis de serem rompidas. "Daqui pra frente tudo vai depender dos nossos releases, você não pode fazer planos no techno business porque tudo muda em 3, 4 meses", diz Sascha, ciente de como funciona a coisa toda.