Review: Sensation Black
O rraurl.com esteve presente em um dos eventos mais importantes na agenda dance de Amsterdam
17.07.06 17:35
As portas dos trem se abrem e uma multidão uniformizada de preto invade as plataformas do metrô e desce as rampas em marcha em direção ao Arena, um estádio hi-tech que acaba de completar 10 anos e se tornou a casa do Ajax, o time do coração de Amsterdam. Mas não é o futebol que trouxe essas 40.000 pessoas para cá nesse começo de noite de sábado. Apesar do clima de final de campeonato e algumas turmas animadas agitando bandeiras da Noruega e da Holanda, não existe uma torcida visitante absolutamente todo mundo no estádio veste preto!
A festa Sensation Black é um dos eventos mais importantes na agenda dance de Amsterdam. Acontece todos os anos, no segundo sábado de julho, sempre no Arena, uma semana depois da festa Sensation White, dedicada aos estilos de trance e techno, considerados mais leves e onde todos aparecem vestidos apenas de branco. A SB é dedicada aos gêneros mais pesados das pistas holandesas, como o hardtrance, o hardcore e o hardstyle, um estilo novo que é considerado a hard house holandesa. O line-up é composto pelos nomes mais importantes da história do hardcore holandês, como The Prophet e Darkraver, além do americano Rob Gee. Tudo muito organizado, com revista minuciosa e educada. E todos muito receptivos com o fato desse tipo de evento despertar interesse no Brasil.
O público começou a lotar o campo do Arena minutos antes da festa começar, recebido por um loop ambient sinistro que acompanhava a contagem regressiva nos telões. A tensão vai se acumulando até que pontualmente às 22:30, explode no maior espetáculo pirotécnico indoor que já tive o prazer de presenciar. Fogos de artifício de todas as cores e colunas de fogo tão altas que seu calor pode ser sentido nas arquibancadas! O apresentador anuncia o tema da festa desse ano: sonhos. Mais especificamente a captura deles através de um "dream catcher" que irá registrar os sonhos secretos de alguns membros do público e projetá-los nos telões em vídeos surreais sobre as tentações do sexo e das drogas.
Toda essa superprodução não é novidade para a ID&T, ou Irfan, Duncan & Theo, iniciais dos fundadores da maior empresa holandesa de promoção de festas. No início dos anos 90 realizavam o evento Thunderdome para dezenas de milhares de gabbers, além de lançarem coletâneas que definiram todos os hits essências do hardcore gabba. Em pouco tempo passaram a promover festas dedicadas a outros estilos, como a Trance Energy e a Mistery Land. Hoje também comandam a rádio Slam FM, de alcance nacional, seu próprio selo e dezenas de negócios no ramo do entretenimento. O culto local pela ID&T beira o fanatismo a tatuagem com o logo da empresa parece bastante popular no estádio e aqui e ali aparecem cabeças quase totalmente raspadas, exceto pelo logo da empresa esculpido na nuca.
Kai Tracid apelou para uma versão infalível de Pendulum para « Voodoo People » e conseguiu abrir a festa com todo o estádio dançando, mas no geral variou bastante nas BPMs e no peso dos estilos. Foi do trance mais tradicional de Yves deRuyter ao hardstyle, chegando ao hardcore de Holy Noise. Foi um aquecimento apropriado para a entrada triunfal do veterano The Prophet, um dos DJs que definiram o som original do hardcore gabber holandês no distante ano de 1991, quando formou The Dreamteam com os DJs Dano, Buzz Fuzz e Gizmo. Antes disso ele já havia trabalhado um bom tempo com o coletivo de hip hop Osdorp Posse, e essa influência se nota na maneira como usa MCs em algumas de suas faixas. Parte dos produtores de gabba de sua época acabou sendo muito influenciada pelo speedcore e pelo industrial e The Prohet aos poucos se afastou dos sons mais rápidos e barulhentos até chegar aos 140 BPMs do hardstyle, estilo que produz atualmente e divulga pelo seu selo Scantraxx.
Meu primeiro contato com o gabber foi através de um CD que ouço até hoje "The Hardcore Rave Mix", com umas 40 faixas mixadas pelo Dreamteam. Meu respeito pelo The Prophet era proporcional à minha expectativa e foi emocionante ver o estádio inteiro cantando alguns dos hinos do hardcore como "Shizzle My Dizzle" e "The Killing Scun". Nesta cena em que o público se confunde com torcida organizada, os sons mais antigos ganham força através dos anos. O orgulho com que esses hinos são recebidos é uma das coisas mais bonitas que presenciei nessa noite, reflete uma identidade nacional, uma maneira de dançar própria (na época do gabber chamavam a dança de hakkuk algo como picar ou moer) e uma disposição física invejável, que só se ve na Holanda, para acompanhar esses ritmos por tantas horas.
Depois do veterano Prophet foi a vez da novíssima geração do hardstyle a dupla Showtek, dois irmãos muito talentosos que apresentaram um live animado onde predominaram suas próprias composições como « The Colours of the Harder Styles » e o superhit « Puta Madre », outra que bota o estádio inteiro cantando junto.
A grande surpresa da noite foi a curta apresentação do produtor americano Rob Gee, não discotecando, mas cantando com uma banda de hip hop metal formada por músicos do Slipknot, Bioharzad e Pantera. Como se isso não bastasse, o lendário Kurtis Blow em pessoa soltava as bases dos hits do Megamix 2006, como "Who is Calling" de Tatarola e ironicamente, até a nova "No More Fuckin Rock N Roll" de A.S.Y.S. Mas para Rob Gee, não adiantou abrir o show com versões ao vivo de seus sons mais respeitáveis em parceria com Ralphie Dee, como "Sex, Drugs And Gabba House" e "Get the Fuck Up" e agradecer os poucos entusiasmados: "you are open-minded motherfuckers" O publico reagiu com uma frieza que chegou a ser embaraçosa. Gee foi um dos responsáveis pela renovação que os americanos deram ao hardcore europeu e também foi um dos inventores do estilo conhecido como "speedcore" mas seus interesses não se limitam ao hardcore, e nem mesmo se fecham na música eletrônica. Segundo Gee "há mais nessa vida do que só BOOM BOOM BOOM" e por isso o seu status na cena é mais ou menos o daquelas bandas punks que experimentaram novos sons e são consideradas "traidoras do movimento". Achei a inciativa interessante, mas as guitarras logo me cansaram e decidi que era a hora de aproveitar a pulseira que me deram na entrada para dar uma conferida nas pistas da área Deluxe. O publico era bem mais diversificado do que o das arquibancadas e o som variava entre electro, minimal e house tocados por nomes como Michelles Sars, Lauhaus, Jesse Voorn e Nuno dos Santos.
Quando voltei para as arquibancadas o clima no show do Gee tinha piorado e o clímax do mal estar rolou durante a apresentação da clássica "Ecstasy You Got What I Need". Alguem do público decide atacar Rob Gee e sobe no palco antes que a segurança consiga impedir. Um dos guitarristas de Gee passou por uma tragédia recente num show americano, por conta de um maluco que invadiu o palco e matou seu colega no Pantera, o guitarrista Darrell Abbott e mais 3 membros da platéia. O cara tá meio traumatizado e ele e Gee reagiram à altura deram um cacete no invasor, digno de final de vale-tudo. Bem feito!
Em seguida entra outra lenda do hardcore e do hardstyle, o DJ Darkraver, da mesma geração do The Prophet e um dos DJs mais animados das grandes festas da ID&T. Eu tinha assistido o seu set na Sensation Black 2004 em DVD e achei bem levinho, mas dessa vez ele entrou num horário de pico e desceu o braço no hardcore com pedradas do naipe de "Kick this One", de Jeckyll & Hyde e "Zombie", do PCP exorcizando completamente qualquer vibração ruim que tivesse sobrado do show anterior. Depois dele entra DJ Zany, herói local dos primórdios do hardcore, quando emplacou hits como "I Like it Loud" com os Shadowland Terrorists. Seu set atual vai do hardstyle de Donkey Rollerz ao hardcore de Jack Overdose. Pra fechar sua participação, o MC Syco comandou a multidão com outro hit antigo de Zany com os Shadowland Terrorists impossível não gritar junto: "It's Party Kicking Time!". Na sequência entram o DJ Technoboy e MC Ruffian, para agitar o público com uma mistura de sons novos e exclusivos com hits recentes do Hardstyle, como Cocaine Bizznizz, além de versões bem peculiares de "Sure Shot" dos Beastie Boys e Tainted Love.
Catscan entrou com o estádio já iluminado pela luz cinza das 5:45 da manhã e mandou um dos sets mais interessantes de toda a festa, alternando hits do hardstyle como "Powerrave" e "My Empty Bottle", do DJ e produtor Korsakoff (considerado o mais comercial do estilo), com hardcore pesado, em especial as suas próprias faixas; Agency e WOIII. Para fechar a festa, a voz anuncia: "Attention Sensation Black: 150BPM" e dispara um loop nessa velocidade. A voz continua a anunciar BPMs cada vez mais altos. O estádio inteiro ainda dança quando a contagem atinge os 300 BPMs, e alguns poucos ainda conseguem acompanhar o pico de 1000 BPMs
fantástico!!!
Saí deslumbrado com esse festão, mas mesmo com todo o profissionalismo do evento, a importância cultural dessa cena ainda é subestimada. O noticiário local da emissora da cidade AT5, destacou apenas as poucas apreensões de drogas e praticamente ignorou a música mais ou menos o mesmo tratamento que nossas raves recebem das TVs brasileiras