O caminho nas redondezas do Aeroporto de Schiphol, Amsterdam, era arborizado demais para ser verdade. O descampado de Spaarnwoude, local do festival anual da label Awakenings, tem tanta sombra quanto a superfície lunar. Mas isso não foi problema para cerca de quinze mil pessoas de diferentes lugares da pequena e integrada Holanda que se jogaram no festival de horário invertido para os padrões brazucas: das 10h30 da manhã até meia-noite. E não é brincadeira, chegar às 14h é enfrentar trânsito, fila para entrar e povo já pilhado vendo Richie Hawtin no Open Stage. Tudo isso com 35, 36°C de calor, céu sem nuvens e vento úmido.
Um dos principais nomes por trás do techno nos Países Baixos, a Awakenings reúne os destaques de todas suas festas do ano nesse festival-matinê com cara das saudosas raves brasileiras. Sem farofada comercial, gasta-se dinheiro com o essencial: duas tendas grandes, uma menor e um palco principal com decoração e laser system abusados. No ápice do verão e com o sol se pondo às 23h30, o laser ficou só para o final apoteótico com fogos de artifício e Adam Beyer. Uma gracinha e outra é proporcionada pela organização do evento. Esse ano tinha mini curral com ovelhas do lado do bar, corujas e dinossauros infláveis gigantes e um casal fantasiado de Papai Noel e Bento 16 andando pelas pistas.
A falta de classificação musical e muita teorização entre uma tenda e outra, entre um DJ e um live, é o que faz o Awakenings ser um festival basicamente de techno. E parecer com as antigas e descompromissadas raves brasileiras. Claro, o pai-nosso do techno e todas suas sub e neo vertentes estão lá: hard, minimal, etc. Mas não tem muita frescura. No palco, os heads. Na tenda 1, hard; na 2, techno com mais groove e na 3, chamada também de UFO, clicks mais experimentais e para dançar com o ombrinho.
Descompromisso à parte, muitos baques e pepinos no soundsystem fecharam a cara de muita gente. Quando entrou uma interferência pesada no grave, Ricardo Villalobos fez uma cara de "meu, nao é culpa minha!" que deu até dó. E dá-lhe disco pulando, cabo solto... Talvez se o festival tivesse uma cobrança de mega-festival-inesquecível-anual a patrulha técnica seria mais rígida. O Hawtin uma hora bem que tentou, mas não conseguiu convencer um técnico de que o som estava com problema. Foi mesmo uma atropelada do chefe da M_nus, que acabou engolindo a birra seco mas virou macio, para alegria da geral.
E a geral estava bem animada. Uma arquibancada com vista para o palco fazia às vezes de lounge com bronzeamento natural. Para fugir do sol, ou se ficava dentro das tendas, nas bordas da UFO ou nas laterais do palco, onde pinheiros faziam sombra com os raios mais inclinados do sol. Sem muito turista, o público era basicamente holandês, em todas suas variações que tem uma matriz básica: gente bem colocada. Em festa com fumo free e de turbinantes mais baratos que cerveja, não colava a história de que europeu é um povo fechado. A confraternização era geral.
Confira alguns reviews do que foi possível ver ou ouvir por lá.
TENDA 01
UmekTechno feito de ferro, para as massas. E que massa. O hard em breve vai acabar virando algo tão centrado em sua personalidade que vai precisar de uma tenda só pra ele no Skol. No Awakenings só não tinha mais público que o main stage por questões de espaço.
PET DuoEnquanto Ana tentava descobrir o placar de Brasil x Franca no celular, David fazia o inferno. E quando ela voltava, ela riscava o inferno de vermelho com os knobs. Ana e David na essência, por mais que às vezes pareça que o techno virou gabba.
TENDA 02Rumenige & LoktibradaA dupla da Eslováquia pesou, pesou, bumbou, tropeçou (culpa de quem?) mas uma hora engrenou e foi de um industrial pesado e marcado, daqueles de fazer dançar quem está sentado. Lotou.
Cari LekebuschTechno, puro, cru, bem mixado por excelência. Mas fica pesado demais uma hora, porque ele entra na onda do público "from hell". Garoto simpatia, distribuiu discos e beijos.
TENDA 03 UFOAndrea ParkerTocou com classe para uma pista vazia: techno, ragga, IDM e electro, tudo isso com uma base melódica de bit de videogame. De arrepiar os pêlos dos fãs de Street Rage no Mega Drive.
Anja SchneiderPreste atenção nesse nome. É um dos destaques da Alemanha e com a ajuda visual, promete estourar em breve. Anja é uma berlinense que virou DJ depois de apresentar um famoso programa de rádio. Rapidamente virou habitué do circuito minimal daqui e nome forte de grandes festas, inclusive no encerramento da Love Parade, ao lado de Paul Van Dyk e Villalobos. É basicamente um click house que às vezes tenta ficar nervoso, mas não consegue. Anja é muito fofa pra isso. Toca toda dançante, pescoço mole e cara de fofa.
Aril BrikhaVersão sueca e amadurecida de Anja Schneider. Live incrível, o cara brincou com umas bases que pareciam barulhos de trem-fantasma que fez a tarde de muita gente ali.
OPEN STAGE
Richie HawtinSet de 3 horas que cozinhou muita gente. Estava morno, click demais para um espaço onde as pessoas precisavam de mais impulso para vencer a vontade de fugir para sombra. Acabou tendo mais turma conversando em rodinha no chão do que gente dançando. Set parecido com o do Sónar, muitos tóins longos e retorcidos, feitos com prazer. Tocou uma música com base de saxofone que já está virando hit. Seria ótimo em outro contexto.
Ricardo VillalobosIdem, mas o set teve duas horas e como sempre, mais alma e menos técnica. Uma dupla que se completa.
Paul KalkbrennerDa geração criativa alemã que nos deu Isolée, Paul Kalkbrenner arrancou lágrimas. Sentimental e inesperado demais, ia de sample de "Born to be Alive" até techno meio Sapiano que não deixou nem rastro de Villalobos e cia.
Alexander KowalskiSoft pop, soul e techno em perfeita fusão. Não negou a fama de "live maravilhoso" que eu sempre ouvi. Os vocais foram um belo respiro entre tanto loop. Melhor, só se tivesse tido momento hit com "All I Really got to Know".
Adam BeyerBom moço do techno sueco e agora de tudo mais que vier pela frente, cumpriu com êxito o papel de encerrar a noite. Bombou no começo, trabalhou experimentos no meio do caminho e acabou sentimental, junto com os rojões, como era de se esperar. E era o que todo mundo queria, antes de começar a correr atrás de outra festa ou chill-out, porque ainda era meia-noite.