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Red Bull Music Academy 2001 - Cobertura completa
18.07.01 01:45



Marcelo SchildA Red Bull Music Academy 2001 teve início em 02 de Setembro, com a chegada dos primeiros estudantes à Nova Iorque. Como intenção principal da academia é a integração dos chamados estudantes, ou students, o primeiro fim de semana e o primeiro dia foi fechado, para que todos se apresentassem. Os estudantes eram DJs, ainda em início de carreira, de 24 países, convidados a passar 15 dias imersos em palestras, workshops e atividades. Dentro os participantes dessa primeira etapa (a academia é dividida em 2 quinzenas) estava o brasileiro Marcelo Schild (foto), DJ e produtor de techno do Rio de Janeiro.

E o Brasil estava muito bem representado! Schild já teve faixas lançadas em coletâneas do BUM (Brazilian Underground Music), grupo de DJs e produtores que atua na Baixada Fluminense e tem o mérito especial de levar a música eletrônica pra fora do eixo pra-gringo-ver do Rio, além de lançar diversos vinis e CDs com artistas do underground carioca. Schild participou ativamente da primeira semana, trocando música e informação com os outros DJs e participando também das palestras e workshops.

Entre os estudantes, 30 convidados de 24 países, todos DJs. A seleção começa com um processo de divulgação dentro nos países participantes. No Brasil, que participou do evento pela primeira vez, o responsável por divulgar a RBMA e encaminhar os interessados no processo de seleção foi o DJ Renato Lopes.

Todos os interessados enviam uma fita (curta) com mixagens ou produções próprias junto com um extenso formulário, disponível no site. Esse material é todo analisado pela equipe da RBMA mundial que então seleciona os participantes.

Uma vez dentro da academia, o importante é a interação, a troca de contatos. Mas informação é a palavra de ordem, então da-lhe palestras (lectures) sobre história musical, workshops técnicos ou discussões sobre a indústria da cena. As lectures são divididas em 4 temas - History, Busniess, Technical/Skilss e Practice (algo como História, Negócios, Tecnica e Prática) sempre relacionados à música eletrônica e suas aplicações, partindo de um ponto específico, como "Os novos Breaks" ou "A arte do remix".

Entre os convidados para futuras palestras e workshops, estavam Richie Hawtin, Derrick May, Patife, King Britt, Derrick Carter, Herbert, Ron Trent e Perry Farrell, além de outros jornalistas e promoters.

Infelizmente devido aos atentados de 11 de Setembro em NY, o restante da primeira temporada foi cancelado e a segunda temporada - que contava com os brasileiros Guga Castro e Ana PET - foi adiada para continuar em Janeiro, em Londres.



> Palestras e convidados


As lectures ou palestras eram concentradas em uma grande sala, cheia de sofás e poltronas pra deixar mesmo o povo meio jogado e 100% relaxado para que o palestrante, ou teacher não ficasse com aquela aura de superstar. Funcionou. No geral os palestrantes foram cobertos de perguntas e comentários dos estudantes, e em alguns casos ganharam e distribuiram discos, CDs e cartões de visitas. Ou aproveitaram para passar o dia por lá mesmo, como fez o Dj e produtor Mix Martes Morris, convidado a bater papo sobre ambient e suas experimentações musicais.

> História da Música

As lectures que tratam especificamente de música são, claro, as de maior interesse. Do Reggae à Disco, do Ambient ao Techno, de Patife a Derrick May. Aqui o importante é levar cultura musical e dar referência a uma geração da eletrônica mundial.

História da música, eletrônica ou não, é especialmente interessantes aos estudantes, e a impressão final deixada após cada uma era de que todo o futuro DJ/produtor deveria ter acesso a esse tipo de informação. Se a falta de referência musical as vezes pode tornar a eletrônica algo enfadonho, lições sobre a história do Reggae, raízes do Trance, o que realmente era a Disco foram ouvidas com atenção e interesse por todos os participantes.

A maior mostra disso foi a palestra de David Rodigan, um simpático e bem humorado senhor inglês, DJ e pesquisador das raízes do Reggae e Dub jamaicano. Rodigan é o tipo de nome que a Academia diz gostar de ter sempre como palestrante, não apenas por ser uma figura cativante e uma enciclopédia musical ambulante, mas porque o seu assunto é uma mostra da importância, muitas vezes desconhecida, da música jamaicana.

Tocando 2 cases de discos, Rodigan contou em detalhes a história do Reggae, ensinando como o estilo absorveu mudanças musicais e progrediu com o passar dos anos. Da influência do funk e do Soul norte-americano nos anos 60, o nacimento do Ska, as criações de King Tubby e a criação do Dub, os primeiros MCs, até as arenas de SoundSystems de hoje, a história de Rodigan se mistura com a história da da música da Jamaica. E no final, como é de se esperar, quase todo mundo na sala está balançando o corpo.

Também veio de Rodigan a melhor definição sobre o que é ser DJ:
"Eu tenho 50 anos de idade, faço isso desde os 16 e eu não sei quando vou parar. É uma paixão, uma infecção, e uma vez que você está dentro, não existe existe uma cura conhecida. As pessoas podem não ententer como ficamos horas em lojas de discos ou gastamos o tempo misturando músicas para criar algo novo. Fazemos isso porquê somos completamente viciados, é como uma droga. A diferença é que essa droga é boa".

Mais história musical? O chamado "Godfather of Disco" Mel Cheren contou a saga da Disco, do Paradise Garage e de seu label West End Records.

Mel foi um dos sócios do Paradise Garage, o lugar que criou e deu nome ao estilo. Junto com diversas histórias de sua vida, contou da luta gay contra o preconceito, das festas onde gays e heteros, brancos e negros podiam, pela primeira vez dançar juntos, do papel do DJ Larry Levan, até a descoberta da AIDS e como isso acabou com o sonho. Sempre tocando faixas da época e mostrando como a Disco foi provavelmente a influência mais forte dentro da eletrônica - da batida house ao idealismo PLUR.

Desse dia saíram lições a serem ouvidas e aprendidas, de tolerância e união. Mas a mais importante delas era mesmo relacionada a música numa pista de dança: "Hoje em dia o Dj é mais importante que a música. Nós tinhamos outra visão, onde a música era tudo que importava e se dividia em apenas 2 tipos: boa e ruim";. Lugar comum? Talvez, mas ao mostrar um pouco do que Larry Levan tocava no Garage, fica mais facil entender como isso se torna verdade. De produções feitas por amigos em estúdios caseiros até faixas da Cher, Larry misturava de tudo na pista, sem medo de ser comercial ou obscuro demais. Por mais de 10 anos teve seu público e seu clube, considerado por muitos ainda hoje como a melhor coisa que já aconteceu em Nova Iorque.

Mix Master MorrisOutro convidado falador, Mix Master Morris (foto), falou de tudo e mostrou mais um pouco. Discretamente vestido com uma jaqueta holográfica prateada, Morris, sempre super divertido, mostrou o lado mais calmo e experimental do ambient, em faixas longuissimas que serviam de pano de fundo enquanto falava. E aproveitou para meter a boca na indútria que controla a eletrônica mundial, em frases como "Você quer comprar bons CDs e tudo o que encontra são coletâneas de Ibiza!".

>Business

O bloco chamado Business (Negócios) pretendia mostrar um pouco do funcionamento da indústria musical, como A&R (Artists & Relantionship), o lado de dentro de uma distribuidora ou explicar como funciona "de verdade" um contrato de um major label.

Harry the BastardFoi interessante a conversa com o DJ e produtor Harry Russel conhecido pela simpática alcunha de Harry The Bastard (foto). Responsável pela Watts Distribution, Harry explicou os tortuosos caminhos de uma distribuidora que funciona mundialmente e recebe entre 500 e 600 novos lançamentos por semana. Esclareceu como pode ser possivel lançar sua própria faixa (com dicas principalmente para quem atua em mercados consolidados da Europa e EUA), correndo atrás de pequenos labels ou prensando tudo e levando de loja em loja (em alguns países você pode ter um custo final por álbum de menos de U$1,00).

Claro que a coisa fica mais dificil em países que, como o Brasil, não possuem uma rede de lojas ou labels já consolidados. O recado dado foi nosso conhecido "Faça você mesmo", com o máximo de qualidade possivel. Afinal, como o Harry falou: "Qualit doesn't go out of fashion". Mais uma lição a ser lembrada.

>Technical/Skills

A parte mais tecnica da Academia são as palestras dentro do braço Technical/Skills. Entre iniciações a Logic e Pro Tools ou um tira-dúvidas sobre estúdios caseiros, é o tipo de conhecimento passado de DJ para DJ.

Alex RosnerUma dessas palestras, com o engenheiro de som Alex Rosner (foto), acabou virando um enorme bate papo sobre a história da cena dos EUA e como cuidar melhor de nossos ouvidos. Reza a lenda que Rosner foi o primeiro a construir os mixers voltados a DJs, como os conhecemos hoje e esse era o assunto principal, mas a palestra se voltou muito mais para a história dos clubs da época áurea da Disco e Garage nova-iorquina. Em um determinado momento Rosner chamou o Dj David Mancuso, criador de um dos pilares da noite nova-iorquina, as festas The Loft, que foi curto e grosso em suas respostas, mas deixou no ar quando perguntado se voltaria a atuar na cena local: "Estou procurando um local novo".

Voltando à técnica, Rosner deu ótimos e impressionantes toques sobre como o volume de som nos clubes atuais pode vir a danificar nosso sistema auditivo. Segundo ele (e o cara tem conhecimento de causa), o "real perigo da cultura club está no volume do som". E não faltam DJs para confirmar o fato…

> Em estúdio


Fora as atividades marcadas, como lectures ou debates, no final de cada dia a academia abre as portas do paraíso, que vem na forma de confortáveis estúdios para serem usados a vontade junto com uma inacreditável sala de equipamento. Uma sala com mesas repletas de grooveboxes, teclados, mesas de som e modulos para serem usados a vontade. Só pegar, usar a vontade e devolver no lugar depois. Os estúdios também eram usados em workshops específicos, como uma sala com Macs ligados em rede servindo de espaço para grupos aprenderem mais sobre Logic ou Pro Tools.

Como no nosso mundo nenhuma língua fala mais que a música, o mais comum era ver, no final de cada dia, o pessoal pegando cases e mixers e se dirigindo a salinhas onde cada DJ tocava um pouco.

Essa era parte onde a troca entre os estudantes rolava melhor, claro, e nos primeiros dias já se via grupos se reunindo para escutar um ou outro colega. E para não ficar no bedroom-dj, a academia cuidou de bookar todos os estudantes para tocar em diversos lugares da cidade, de pequenos bares a pista principal de alguns clubes.

Como a noite de NY não ta na sua melhor fase (alias, todos os EUA vivem um momento de forte repressão cultural) nem sempre foi possível botar os DJs em clubs. Outras opções foram bares (como o Halcyon) ou lojas (como a Diesel) que tem turntables e pistinha, mesmo que seja proibido dançar se o espaço não tiver uma licença específica (é a lei por lá).

> Clubbing em NY

A noite de NY, mesmo recebendo constantemente boas atrações - para a segunda semana de Setembro estavam marcados nomes sem graça como Derrick May, Derrick Carter, Richie Hawtin e LTJ Bukem - vive um momento complicado. Os únicos clubes que podem funcionar tem que passar por cima de exigências absurdas e ter licenças especiais se quiser que as pessoas possam dançar ou beber cerveja.

Dessa forma, clubes como a Vinyl, que hospeda a noite Be Yourself do Dj Danny Tenaglia, por exemplo, adotam uma política linha dura no controle dos freqüentadores. Ou seja, não pode beber, não pode levar lightstick e a todo o momento você é lembrado por placas nas paredes que nenhum uso de drogas será permitido. Mais amistosa, e mais cara, é a pista no porão da Centro-Fly, onde o lendário Little Louie Vega (Masters at Work) toca às quartas feiras sua deliciosa mistura de house com ritmos latinos.

Mais na boa, e com entrada gratuita, é o clube techno Guernica, que recebe convidados especiais as segundas feiras, como Adam X e Christian Smith. Nada que lembre a brasileira Loca, claro (os americanos são comportados demais pro padrão brasileiro) mas a Guernica é o mais próximo de um clube de techno underground da cidade - escuro, quente e com o som alto.

Mas NY é terra da house! Soufull e com um pé no garage, foi nesse segmento que a cidade fez história e deu sua gigantesca contribuição á música eletrônica.

A Shelter, nos sábados da Vinyl, foi a dica dada por alguns palestrantes e especialmente citada pelo Mel Cherren e David Mancuso como a atmosfera mais próxima do que era Paradise Garage ou o The Loft. No sábado 15/09, a Shelter completaria 10 anos de existência e teria sua festa de encerramento, adiada devido a situação da cidade após os atentados.

Mas é aos domingos que rola a noite de mais sucesso da cidade, a mundialmente famosa Body & Soul, também na Vinyl, com residentes pilares da house/garage mundial como François Kervokian e Joe Claussel (que se apresentou em SP no Skol Beats de 2001).

Além disso, claro, NY tem uma intensa programação de festas. A cidade tem lugares insólitos que podem ser usados (algo que falta muito em SP, por exemplo) e as festas podem rolar com mais liberdade em relação ao rígido controle da prefeitura. A programação dos próximos meses incluía alguns eventos gigantescos e ótimas atracões. Infelizmente, com a situação atual da cidade, tudo isso é passado e planos são hipóteses. Fica a esperança de que a música possa ajudar quem está lá a superar esse momento.

Gaía Passarelli
Gaía Passarelli
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