Cohen, o embaixador do techno brasileiro
Ao completar dez anos como produtor, Renato Cohen prepara set inédito para o Skol Beats
Faz tempo que você não o vê tocar ou não tem notícias dele? Fique tranqüilo, porque o DJ e produtor Renato Cohen, aos 32 anos, está no ápice da sua carreira. Quatro anos depois de "Pontapé", hit absoluto que figurou no chart de gente como Laurent Garnier, Technasia, C1, Dave Clarke, Funk D'Void e Carl Cox, por exemplo, ele é um dos nomes do techno brasileiro mais freqüente em festas e festivais no exterior. Só nesse semestre ele passa por Londres, Valencia, República Tcheca, Chicago, Nova York e Berlim, capital alemã que é base da agência Global Arrangements, empresa que cuida das tours do DJ pelo mundo. Até na Ásia Cohen já mostrou seu techno marcado (pra muita gente, pesado), funkeado e de personalidade. E para alegria dos brasileiros, ele volta para o Skol Beats 2006 após quatro anos sem apresentar seu live.
Cohen iniciou sua carreira musical como baterista da banda Disk-Putas, grupo underground dos primórdios dos anos 90 que fazia um contraponto mais ácido à brincadeira do Que Fim Levou Robin. "Sô Lôra, Sô Burra", hit do grupo, virou cover na voz dos absurdinhos do Cansei de Ser Sexy, inclusive na fatídica apresentação do grupo no TIM Festival de 2004. Enveredou-se para o techno e tocou como DJ até começar a produzir em meados de 1996, mantendo as duas atividades. Foi residente dos principais clubes paulistanos, como o Stereo e Lov.e, e rodou o país com seus sets e lives sob a alcunha Level 202. "Random Collection", faixa do Level, foi hit entre os principais DJs de techno brasileiros dos últimos anos. Trabalhou em conjunto com vários deles, de Anderson Noise a Mau Mau. Vale a pena conferir "So Funky", techno quase tech-house grooveado do EP "Two Bass", lançado em 2001 pelo Noise Music, selo criado em parceria com o mineiro Anderson Noise. Os três serão as estrelas do encerramento do Skol Stage desse ano. O live de Cohen seguido pelo back to back entre Noise e Mau Mau.
O rraurl.com bateu um papo por telefone com Cohen enquanto ele viajava entre São Paulo e Porto Alegre para um DJ set. Confira.
»2006 marca a primeira década de você como produtor. Quais as principais mudanças de 1996 até hoje?
1996 foi na verdade quando eu toquei minhas primeiras músicas. Mudou tudo, nessa época não tinha internet, as coisas não eram tão acessíveis. Eu comecei a andar com um pessoal do meio publicitário para ter acesso à tecnologia, aprender sobre midi, aprender a seqüenciar. Só publicitário fazia isso na época por causa de jingles e comerciais. E os computadores eram bem diferentes, não dava pra produzir muita coisa não.
»E o Level 202? O live com essa alcunha nunca diferiu muito das suas faixas feita sob seu nome.
Não. Num certo período eu criei o Level 202 pra separar as coisas, diferenciar os sets do live talvez, mas com o tempo comecei a usar só Renato Cohen. Acho que desde 2002, por aí, é só Renato mesmo. A minha proposta sempre foi fazer música para a pista, sempre fiz pensando em tocar, esse era o princípio básico.
»E desde o começo, sempre techno, certo?
Falar de techno é igual falar de rock. Você pode estar falando sobre death metal ou rock hippie dos anos 60 que é tudo rock. O minimal, por exemplo, eu incluiria no techno. As coisas mudam, a música muda, o techno muda. Só que eu sempre tive minha meta e trabalhei dentro dessas variações.
»Parece que todo mundo não resistiu aos encantos do electro e do minimal, inclusive muitos DJs de techno. Qual sua relação com esses gêneros?
O minimal é engraçado, muita gente mudou, renegou tudo e passou a tocar. Teve um boom, sem dúvida, mas eu acho que é mais fácil você seguir uma onda do que achar alguma outra novidade ou produzir novidades. Isso é uma coisa bastante pessoal.
»Um dos argumentos desses DJs que migraram para o minimal é que os lançamentos de techno não mudavam, não traziam novidade nenhuma.
Sempre teve muito disco saindo toda semana, sempre. Claro que a maioria é ruim, normal, sem muito atrativo, mas tem muita coisa boa que sempre vai sobressair. Tem muita gente fazendo coisa o tempo todo, não é possível que seja tudo igual. E isso é assim desde sempre, desde quando não tinha internet, por exemplo.
»Você não acha que a internet massificou demais a música? Toda semana tem um monte de EPs, singles, labels, faixas e artistas sendo lançados.
Acho que não, mesmo antes da internet saía muita coisa o tempo todo. Eu não sou estressado em lançar música todo dia. Prefiro demorar e fazer uma música com qualidade.
»"Pontapé" saiu faz quatro anos, como você vê sua carreira depois dessa música?
Abriu muitas portas, antes era difícil conseguir alguma coisa, a principal conquista foi poder tocar no mundo inteiro, ser reconhecido e apontado por um trabalho que muita gente gostou.
»Sim, você ficou marcado como o primeiro DJ brasileiro de techno com êxito lá fora. Hoje em dia vários artistas nacionais estão tocando lá fora, como vê esse crescimento?
Acho que aconteceu um crescimento do Brasil, uma maior visibilidade. Começaram a gostar mais do nosso país, veio junto com essa leva de gente sendo chamada pra tocar no exterior. Dez anos atrás as coisas eram diferentes. O país cresceu, junta aquela história do futebol, etc e espaços foram abertos. Por exemplo, eu tenho uns amigos designers que abriram uma agência, a Lobo. Hoje em dia eles divulgam o trabalho lá fora e estão dentro do roteiro internacional de design; as pessoas tem curiosidade de ver o que está sendo feito aqui.
»Na mesma época do "Pontapé" muita gente conheceu seu trabalho porque sua música "Space Is" foi trilha de um comercial da Semp Toshiba. Você faz muitos trabalhos paralelos como músico? Trilha, faixas encomendadas, esse tipo de coisa. Por exemplo, o Marky participou da trilha de um novo jogo do Playstation.
Não, nunca. Eu sempre odiei isso. Mesmo porque eu não teria tempo hoje em dia, ando muito ocupado tocando em vários lugares e produzindo. No caso da Semp Toshiba, eu não fui contratado para fazer trilha para eles, a empresa gostou da minha música e colocou no comercial, foi o contrário.
»E O Skol Beats, como vai ser o live desse ano?
Estou ansioso, faz tempo que não toco ao vivo lá. Eu estou desenvolvendo um live diferente do que eu já fiz. Digo diferente no sentido técnico, porque antes eu me preocupava em fazer as músicas exatamente como elas eram para poder mostrar ao público o meu trabalho. Hoje em dia eu não tenho mais essa preocupação. Era muito chato tocar, porque eu ficava preso às condições pré-pensadas do live. Se as condições técnicas não estavam perfeitas para mim na hora do live, poderia dar errado. Agora não tem mais isso, vou tocar baseado no improviso, bem mais divertido.