Música eletrônica produzida no Espírito Santo
24.04.06 01:45
O Espírito Santo pode estar lá, escondido entre seus gigantes de fronteira. Mas os produtores de música eletrônica capixaba não se escondem, e aproveitam-se das facilidades tecnológicas atuais – a internet – para se comunicarem com o mundo, sem esperar por um midas salvador da pátria ou por uma luz divina que chamem a atenção para suas almas. Quem gosta deste negócio de música eletrônica aqui no estado tem mais é que correr atrás, fazer por si mesmo, e mandar tudo para sites de hospedagem virtual como My Space e Pure Volume. E o negócio anda rendendo, pois já tem gente daqui com faixas distribuídas por selos europeus, distribuidoras japonesas, trilha sonora de jogo de videogame e por aí vai. Vale lembrar que todo o conhecimento adquirido por cada produtor citado nesta matéria foi conquistado de maneira auto-didata, fuçando programas de produção musical e aprendendo na marra sem cursos ou workshops. É trabalho de formiguinha mesmo, mas a qualidade uma hora salta aos olhos vistos dos gigantes. Outro fato importante a ser citado é que, na maioria dos casos, todos estes produtores acabam colaborando entre si.

Os produtores:

Alex Zee-la

Alex Cepille, aka Alex Zee-La, é músico multi-instrumentista, produtor e DJ. Começou muito cedo, já aos seis anos de idade com aulas de piano. Absorveu muitas influências musicais desde criança através dos discos que seu pai, comandante da Marinha Mercante Italiana, trazia de suas viagens. Fez parte, nos anos 80, de bandas de rock alternativo no ES e, nos anos 90, após voltar de uma estadia nos EUA, montou o estúdio Sala 11, junto com os integrantes do que viria a ser a banda Zémaria. Junto com eles, foi o pioneiro na utilização de equipamentos eletrônicos (hardware e software) que pudessem definir um estilo musical para a banda onde tocava. Da primeira aquisição de um sintetizador Roland JP-8000 esquecido num sebo de instrumentos musicais a novíssimos softwares de produção musical, Alex sempre manteve-se na ativa com diversos projetos.

Com o Zémaria, ganhou reconhecimento nacional e internacional pela "eletrônica orgânica" praticada pela banda, tendo excursionado pela Europa e tocado em diversas casas noturnas importantes de São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo. Atualmente produz faixas junto do combo Audiomindz (electrohouse), da banda Radio Experienza (dub reggae/pop), do Piscina Lounge Orchestra (com o músico Alexandre Lima - easy listening/low breaks), do rapper/músico J3 (ragga/hip-hop), além de seu projeto solo e de live PA, Zee-La (electro/house). Suas produções com o nome de Zee-La & Audiomindz constam no renomado selo Influential House, e em breve sairão também pelo selo norte-americano Portamento Records.

J3

Músico multi-instrumentista e auto-didata, Jair Miranda Neto, mais conhecido como J3, atualmente goza de uma excelente fase de sua carreira. A faixa "Freestyle Em Movimento", de seu primeiro álbum "Freestyle" (2003), foi incluída na trilha sonora do game Fifa Street 2, do Play Station 2, ao lado de gente de peso como Flaming Lips, Roots Manuva, e dos brasileiros Marky e Patife. Trata-se da versão atual do jogo mais vendido no mundo em 2005, sendo que 2006 é ano de Copa do Mundo e o nome de J3 estará vendendo junto igual água. A música citada representa bem o som de J3: base eletrônica (breakbeats e drum'n'bass), arranjos "orgânicos" (guitarra e baixo), e vocais rapeados e melódicos. Seu nome é mais forte no meio do hip-hop (principalmente na cena carioca), mas a eletrônica é componente marcante em sua música, além de sua própria vocação melódica e de letras muito bem sacadas. Seu primeiro álbum ganhou fortes bases eletrônicas do produtor local Felipe Gama, e seu segundo disco, que deve sair no final deste ano, terá algumas faixas produzidas por Alex Zee-La.

Sybel Calmom

Foram cinco anos morando na Espanha, mais precisamente em Barcelona, onde estudou piano clássico, e que abriram a mente para música do DJ e produtor musical Sybel Calmom. Ainda na Espanha travou contato e paixão imediata com a house music e suas variações para colocar em prática (ou desvirtuar...) seu aprendizado musical. Como DJ é presença certa em alguns dos maiores eventos de música eletrônica do ES. E como produtor revela seu bom gosto estando sempre antenado com as mais atuais tendências, como o minimal e o electro. Seu ritmo de produção contabiliza praticamente uma faixa por dia e, com certeza, já deve estar dando nó na cabeça dos ingleses do selo Influential House, que já lançaram dois EPs seus em vinil e que abriram espaço para os demais produtores daqui do Espírito Santo enviarem suas tracks também.

Tamy

Tamy é uma cantora que sempre correu atrás de seus objetivos, buscando se antenar com as novidades, mas também cercando-se de um estilo musical próprio. Tomou a atitude corajosa de remar contra a moda do "drum'n'bossa brasileiro" que reinava em 2003 - e que todo mundo daqui esperava que ela seguisse - ao lançar seu álbum-solo no começo de 2004, com o sintomático título de "Soul Mais Bossa". Com produção de Felipe Gama (que também produziu J3), o disco possui uma sonoridade mais voltada para o balanço, com programações eletrônicas em BPMs mais lentos e valorizando violões, percussão e melodias. Hoje ela colhe seus frutos, pois o selo inglês Curve Music licenciou seu disco para distribuição no Reino Unido e também no Japão. O mesmo selo bancou sua ida a Londres, onde fez vários shows em 2004, culminando com a abertura do Brazillian Summer Festival, na mesma noite onde tocaram Paralamas e Jota Quest. Seu disco de estréia fez bonito no Japão, onde figurou por dois meses no top 10 de "música brasileira" da loja HMV.

Audiomindz

Projeto de house music encabeçado pelos DJs Victor Kill (foto) e Guga Prates, o Audiomindz segue os passos de Sybel Calmom e também acabou de ter a faixa "Taste It" licenciada pelo selo londrino Influential House. A música foi produzida em parceria com Alex Zee-La. Victor e Guga fazem parte da segunda geração de DJs de house do estado, e estão sempre presentes nos maiores eventos e casas noturnas capixabas.






terrorturbo

Com cinco anos de estrada, a banda terrorturbo (em letras minúsculas mesmo) de certa forma foi uma das primeiras daqui do Brasil a investir radicalmente em sonoridades low-fi oitentistas. Sua participação num importante festival do Espírito Santo (Dia D) em 2002 chamou a atenção de gente como Carlos Eduardo Miranda e Fábio Massari, que vieram cobrir o evento e os elogiaram bastante. Fundada por Gimu (vocais/programações), a banda conta atualmente também com Marcelo (sintetizadores), André (guitarra) e Raphael (baixo), e investe em novas composições seguindo a linha da qual apenas eles pareciam acreditar no começo, e que hoje é uma tendência dominante na praia eletrônica + rock.



Napalma

Instigante e original mistura de batidas eletrônicas, percussões e vocalizações africanas direto da matriz. A banda Napalma surgiu em 2004 como um bloco de carnaval, e posteriormente tomou forma com a adição de bases eletrônicas que transitam entre o jungle, o techno, o hip-hop e o breakbeat. Ivo Maia (vocal, natural de Moçambique), Paulo Bolzan (programações), Java (trompete), Jabah e Cidinho (percussão) promovem shows incendiários, com muito balanço africano e eletrônica hipnótica.




Control Z
Hoje já se fala que a música eletrônica não é mais sinônimo de moda ou modernidade. A garotada se espelha em astros do rock alternativo como Arcade Fire e Arctic Monsters, e só ouve eletrônica quando rola um remix dos mesmos. Porém, Diego (guitarra), João (programações/vocal) Lorena (vocal) e Felipe (baixo) gostam mesmo é de drum'n'bass pesado, breakbeats e hard techno. A diferença é que todos são beeeem novos – entre 15 e 19 anos, e demonstram muita, mas muita disposição de aprender e tocar cada vez mais e melhor. Com apenas cinco meses de formação, e com sua música em constante evolução, estes jovens não têm vergonha de buscar referências com DJs locais e também com a banda Zémaria, musa-inspiradora do Control Z. É a novíssima geração capixaba mandando o seu recado.

*Obviamente deve ter mais gente daqui do Espírito Santo produzindo em casa e que não foi citada nesta reportagem. Portanto, a hora de se desentocar é agora!

Fotos: Fabio Martins
Foto terrorturbo, J3 e Napalma: divulgação

Fabio Martins
Fabio Martins
Dark Kalunga
comentários
1 comentários
Vivian Caccuri
Vivian Caccuri(29.09.09)
0AprovadoQueima
Fabio, esse post é demais. Adoraria saber o que rola AGORA por aí...
bjs