Bem longe do underground, Skazi não renega imagem pop
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Bem longe do underground, Skazi não renega imagem pop
Para Asher Swissa, ser DJ é fácil, o difícil é criar algo novo como ele fez
04.04.06 01:45
O Skazi é um fenômeno único na cena eletrônica dos últimos anos. Criados na apaixonada e concorrida cena psy de Israel, a dupla Asher Swissa e Assaf B-Bass ganhou fama mundial ao criar uma sonoridade particular e até então inédita: a mistura de psy e trance com riffs de guitarra e samples pop. Ex-entusiasta do punk e amante das guitarras, Asher criou o Skazi em 1998 e o projeto virou uma dupla dois anos depois, após Assaf participar da elaboração de "Animal", álbum que explodiu junto com as gigs, cheio de instrumentos, ups e downs e muita pose rock'n'roll de Asher.

Prova do sucesso é o currículo: já tocaram em mais de 1500 festas por 20 países. Do Brasil à Bulgária, da Índia à Rússia. Arrastam multidões de fãs e mais do que sair do underground, foram para o outro extremo: é fácil ouvir ravers que, entre seus gêneros, listam o trance, o psy e o Skazi. Lançaram mais de 100 faixas em 40 álbuns e compilações pelo mundo todo, além de outro álbum próprio, "Storm" (2002), e as compilações "Zoo", lançadas de 2001 a 2004. Asher ainda criou um selo, o Chemical Crew, base para remixes e outros lançamentos da dupla.

O carisma e o ar de rockstar de Asher, uma das outras razões do sucesso do Skazi, parece incomodar os tranceiros mais tradicionais. Em tempos de volta por cima do trance, com mega-eventos por todos os cantos e pistas nos mais variados festivais, os fãs mais tradicionais devem achar um sacrilégio uma dupla montar um palco com ares de rock e fazer versões aceleradas e hard house de Nirvana. "Smells Like Homus Spirit", filho psicodélico de "Smells Like Teen Spirit", deve fazer Kurt Cobain dançar no pézinho dentro de sua cova. Ele também já prestou homenagem a seus fãs brasileiros: uma música chamada "Acelera" louva o grito de guerra mais conhecido dos ravers daqui.

Em turnê pelo Brasil com um quarteto de cordas, o Skazi tocou no Chemical Music Festival no Rio e em Curitiba, onde aproveita para divulgar seu DVD "Hit & Run World Tour Promo". Simpático e bastante consciente do sucesso que faz, Asher conversou com o rraurl por telefone em São Paulo. Falou sobre críticas, drogas e planos para este ano, entre eles o lançamento de um novo álbum ainda este semestre. Confira.

»Como você foi da cena punk para o trance?

Eu curtia muito o punk quando o trance nem existia ainda. De repente chegou uma hora que começou a ficar chato, sem novidades. Eu descobri na eletrônica a energia e o poder que eu estava procurando. Sempre pensei que guitarras poderiam cair muito bem com o trance e foi o que eu acabei fazendo.

»Aí você logo sacou que tinha feito algo novo e que poderia ter muito retorno.

Não, nem pensei em nada a não ser em fazer esse tipo de música. Não pensei como seria, que resultado daria, só quis fazer esse tipo de música e quando eu lancei "Animal", foi aquele sucesso todo.

»Israel é um dos países com o maior número de artistas e eventos ligados ao psy trance. Tem alguma explicação para isso? Talvez o misticismo do Oriente Médio?

O país é assim mesmo, tem muitos estúdios, artistas, festas... Mas tudo também é muito "fashion", todo mundo quer ser um DJ. Isso é até que fácil e se consegue com alguma prática, talento e boa vontade, mas criar algo novo, como a gente fez, é difícil.

»Muita gente dentro da cena psy reclama do som e da projeção de vocês. As misturas com guitarras e samples pop, as apresentações com clima de mega-show de rock. O que você pensa desse tipo de crítica?

Essas pessoas são ruins, com suas cabeças fechadas pensam que eu não sei o que é trance. Eu conheço trance há muito tempo, há mais tempo do que a maioria dessas pessoas que me criticam. Quando eu penso nisso fico um pouco incomodado, mas lembro que não é legal levar em conta pessoas com o pensamento restrito, com a cabeça fechada.

»Mas vocês têm de fato uma imagem pop, são os rockstars do psy. Uma prova disso aqui no Brasil é que o video "Hit n' Run" é veiculado no intervalo do seriado Desperate Housewives, a maior audiência do canal Sony. É um espaço onde aparece Beyoncé, Eminem e U2. Acho que vocês são os únicos artistas da eletrônica por ali.

O Skazi ultrapassou a linha do underground, fomos além dos DJs regulares. Isso me fez maior de uma maneira, mas por outro lado me transformou em algo novo na cena, por isso somos criticados. E não é só na Sony ou na Multishow aqui no Brasil, no mundo todo isso está acontecendo, a gente tem ido para a TV. Eu acredito que é a força do trance indo além, até mesmo na TV. Tenho certeza de que isso é bom para as pessoas, bom para a cena. Principalmente porque legitimamos e mostramos ao mundo a maneira como festejamos, nosso comportamento e estilo de vida.

»Vocês colocaram o tradicional grito de guerra raver brasileiro "Puta Que Pariu! Aceleeeeera!" na música "Acelera". Como foi que você teve essa idéia?

É verdade, essa música é um hit grande no mundo todo apesar de ninguém entender o que está sendo dito. Eu estava tocando por aqui uma vez e a música estava subindo, subindo, subindo, cada vez mais e eu peguei o microfone e disse: "Digam algo! Deve ter alguma coisa que vocês dizem num momento como esse!". Aí começaram a gritar "Acelera! Acelera!", aí eu também gritei "Aceleraaa!". Nesse momento o público ficou doido. Era o tipo de sentimento que a gente sempre buscou e resolvemos gravar essa expressão. "Puta que Pariu" é algo que a gente entende perfeitamente também, faz parte disso, é o "fuck off" de vocês.

»As raves aqui no Brasil têm sofrido certa pressão das autoridades por causa das drogas. Você acha que isso é algum tipo de preconceito, de bode expiatório, ou é um problema real na cena raver atual?

Eu acho que é uma perseguição exagerada. Bem, eu sou DJ, não uso drogas, mas elas estão em todos os lugares. Porque eles não fazem esse mesmo tipo de coisa com o Carnaval? Eu já li várias vezes que o consumo de drogas no carnaval do Brasil é imenso. Aliás, nem é preciso ler, é só sair nas ruas e ver a festa que você percebe. Por que a polícia não fecha o carnaval então? Isso é um problema que temos que enfrentar com o profissionalismo das festas e muita discrição.

»O que você tem ouvido que te inspira musicalmente nos dias de hoje?

System of a Down! Tenho ouvido muito, sou um grande fã do vocalista, gosto como ele varia a harmonia de sua voz. Voltei a ouvir Metallica, principalmente o começo da banda. Amo aqueles riffs. Depeche Mode é algo que nunca saiu da minha cabeça também, gosto muito.

»Quais são os principais planos para 2006?

Continuaremos tocando pelo mundo todo e daqui um mês vamos lançar um álbum novo chamado "Total Anarchy". Vai ser bem interessante, uma zona total, de verdade.

»Depois da consolidação da música do Skazi, álbuns de estúdio são essenciais na carreira de vocês ou o que importa mesmo são as gigs com milhares de pessoas gritando "Aceleraaa!"?

Bem, o grande hype em torno do Skazi é porque somos diferentes do trance tradicional. E claro, isso é visível e atraente tanto nas nossas produções quanto nas nossas apresentações ao vivo. Tentamos sempre inovar, qual outro artista do trance - e até mesmo da eletrônica - que viaja para a América do Sul com violinistas e violoncelos para tocar em festivais de música? Vamos trabalhar sempre para inovar, e o novo álbum também será assim.

»Qual vai ser a novidade de "Total Anarchy"?

Vai ser tudo novo. A principal diferença de nossas últimas produções é que agora estamos mais sofisticados, trabalhamos com novas tecnologias. O conceito ficou mais inteligente só que ainda é algo louco, e tenho certeza que ninguém terá feito algo do tipo.

»Mas você não acha que com o tempo a fórmula do Skazi pode acabar se desgastando?

Acredito que não, estaremos sempre nos reciclando e mostrando coisas novas, sempre dentro do espíritro trancer. Mas também é esperar para ver, nós ainda estamos muito bem.

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
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