A Cena Eletrônica do Espírito Santo
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A Cena Eletrônica do Espírito Santo
Saiba o que rola no Estado
31.03.06 01:45
Estamos na Região Sudeste, mas nunca estivemos tão longe das capitais. É comum um capixaba na cidade de São Paulo, por exemplo, falar que é de Vitória, e receber a seguinte pergunta: "Vitória da Conquista?". Aí responde que é de "Vitória, Espírito Santo", e o paulistano rebate com "Ah! É no Nordeste, certo?". Errado! Somos da mesma região do Brasil, mas estamos espremidos entre três gigantes culturais e econômicos – a saber, RJ, MG, SP, para não falarmos de BA. E o ES, pequenino, fica lá, esquecido, aparecendo nos noticiários apenas por conta de assassinatos de juízes e queima de ônibus a mando de traficantes. No meio deste tiroteio, sobra espaço para alguns bravos combatentes amantes da música eletrônica, remando contra todas as marés, tentando sobreviver e aparecer ao mundo.

Dizer sobre quando foi o início de tudo no Espírito Santo é redundante, pois o que veio antes pouco influiu no que é hoje. No início dos anos 90, a febre da acid house, via disco homônimo lançado pela Som Livre na época, também atingira as pistas daqui. Pelo menos três casas noturnas (Zoom, Blow Up e Nimbus) tocavam house, naquela mistureba típica de Ice MC com Inner City. DJs como Luiz Cláudio Casado, Renato Vervloet, Mauro Brand, Josh, Paulinho, Dedeco, entre outros, mixavam de tudo um pouco entre seus programas de rádio e suas residências nas boates, fazendo história ao sustentar, até idos de 1993, a primeira – e única! – loja especializada para DJs no Estado (DJ Factory). Porém, integridade artística aqui é um buraco muito, mas muito profundo mesmo, e antes de chegar na metade da década passada, o respiro de uma possível cena eletrônica do ES foi pro saco e vivemos um abismo profundo.

Por volta de 1999, diversos focos independentes entre si começaram a se mexer. Havia um bar (com uma pista beeem pequena) localizado num dos pontos mais badalados de Vitória (Rua da Lama), cujo proprietário era um DJ veterano (Josh) que soltava sons eletrônicos e que começou a agregar público. Paralelamente, o pessoal de uma banda de rock alternativo (É) mudava seu nome para Zémaria (foto) e começava a investir em brinquedinhos eletrônicos, e transformaram o estúdio de sua propriedade (Sala 11) em espaço para shows e festas com pista de dança. No meio de tudo isso, os (futuros) DJs Tourco, Kalunga e Pablo haviam pirado a cabeça nas raves de Trancoso (BA) e agitaram o começo de uma cena trance no Estado. Como se não bastasse, ainda havia a galera da house music de gente como Flávio Zogaib, Victor Kill e Guga Prates, que começava a fortalecer os alicerces com festas para públicos selecionados. Toda esta movimentação se deveu ao surgimento em massa do acesso à internet. Todas (sim, todas!) as casas noturnas da Capital tocavam lixo da pior espécie, e o lema punk "do it yourself" despertou na mente de quem queria algo diferente a atitude de correr atrás e fazer tudo por conta própria. Na maioria dos casos era precário, meio desorganizado, mas acontecia!

A música eletrônica no Espírito Santo teve um boom efetivo no ano de 2002, quando surgiram as festas rave que saíram do espectro de "gueto" e ganharam as massas. Todo e qualquer evento, a partir de então, tinha as palavras "DJ" ou "Tenda Eletrônica" impressas nos cartazes. Surgiram três núcleos de raves bem organizadas – BASE 1740 (mais eclética), Elements (house) e Ipnotyca (psy trance), além de diversos projetos específicos em locais diferentes (Pub 455, Sala 11 e Too Much – todos já extintos) como Speedz (breakbeats), House Connected (house), Entrance (trance) e Moove (mpb eletrônica). A maioria dos DJs não havia passado pelo vinil, indo direto aos sites de download e tocando o que estivesse a fim, mixando toscamente e procurando evoluir de maneira auto-didata. Os "profissionais" que tocavam bolachões eram – e ainda são – raras exceções. A partir daí é que pode-se traçar o cenário atual.

Passada a novidade, a música eletrônica no Espírito Santo voltou a viver de espasmos. É fato que o público capixaba é muito imediatista, querendo sempre novidades, exigindo grandes produções, mas quase sempre não aderindo a nenhum tipo de fidelização. Isto gera isolamento em relação às cenas gigantescas de nossos vizinhos. Grandes nomes de house, techno, electro e drum'n'bass só passam por aqui em grandes eventos esporádicos que não necessariamente buscam por plantar raízes. Alguns bravos combatentes já tentaram penetrar no circuito das casas noturnas locais com noites semanais ou quinzenais que já trouxeram Marky, Patife, Mau Mau, Renato Lopes, entre outros. Mas é o velho caso de tocar música eletrônica de qualidade para um público que só quer azaração, hits e drinks. Sobram novamente as noites mais underground, na maioria das vezes gratuitas e somente com DJs locais tocando o que gostam. A única e louvável exceção é o psy trance, que aqui no Estado ganhou status de febre entre os jovens de classe média alta. A cena psy capixaba conta com pelo menos quatro grandes núcleos de festas, que trazem simplesmente os maiores nomes do cenário mundial, sempre com produções do mais alto nível. Em contrapartida, suga 99% do público potencial de música eletrônica para si, deixando muito pouco para os demais gêneros.

A saída para muitos DJs e amantes de música eletrônica capixaba em geral é a produção de sua própria música. Com as facilidades da tecnologia atual, gente diversa como Sybel Calmom, Tamy, J3 (foto), Na Palma, terrorturbo, Tourco e Ctrl + Z já possuem material a ser mostrado, sendo que alguns são notívagos e outros já podem ser considerados veteranos. Aliás, veteranos mesmo são os membros do Zémaria, que estiveram residindo nos últimos dois anos na capital paulista, e ensinaram muita coisa para a cena local em termos de produção e de atitude para com o público. No mais, todos aqui de Vitória moramos numa cidade belíssima, com alto padrão de qualidade de vida, mas ao mesmo tempo isolada culturalmente. No final das contas, praticamente todos os nomes da cenal local se reúnem semanalmente num ponto à beira-mar para discotecar, tomar cerveja e bater papo olhando o visual incrível que temos na porta de casa. Quem vier de fora vai poder, no mínimo, compartilhar deste prazer conosco.

Fabio Martins
Fabio Martins
Dark Kalunga
comentários
1 comentários
Aline Pires
Aline Pires(07.07.06)
1AprovadoQueima
Oii Fabio Martins, meus parabens...mto show o texto que vc escreveu falando sobre a cena psy trance aqui no ES...mtoo bom memso...gostei!!!
Parabens!!