A evolução do Four Tet em "Everything Ecstatic"
faça login para votar!
Enviar esse texto
login para votar!
Enviar esse texto
social bookmarks
Digg
Mugg
del.icio.us
A evolução do Four Tet em "Everything Ecstatic"
Kieran Hebden fala ao rraurl.com sobre seu último álbum e novos projetos. Compilação DJ Kicks está a caminho
21.03.06 01:45
Se "híbrido" é uma boa para definir grande parte da música eletrônica atual, ele é o verbete perfeito para o trabalho de Kieran Hebden, mentor do projeto solo Four Tet. Definições à parte, Kieran alcançou com o Four Tet uma notoriedade que ele não imaginaria alcançar, muito menos com sua banda de rock alternativo Fridge, seu primeiro projeto musical que minguou em 2001. Em 1998 o britânico decidiu partir para as experimentações eletrônicas com um conceito mantido até hoje: fundir sons desconstruídos e orgânicos com bases melódicas. Seus quatro álbuns de estúdios mantêm uma identidade variando nas bases - jazz, hip hop, folk - e na maneira como samples, bootlegs e outros blips e blóins são usados. Seu último álbum, "Everything Ecstatic", lançado em maio de 2005 e que só agora chega ao Brasil via Slag Records, é agressivo e menos etéreo, marcando uma nova fase do Four Tet. Despojamento é a palavra-chave, decepcionou quem esperava algo mais IDM, muito climático.

O Four Tet começou a despertar curiosidade em 1999 com um remix de "Cliffs", faixa da compilação "Selected Ambient Works Vol II", do Aphex Twin, cardeal da Warp Records. Sem se prender à magnitude do IDM da Warp, Kieran foi para o selo inglês Output, de Trevor Jackson aka Playgroup, e lançou "Dialogue" ainda em 1999. Menos eletrônico, o álbum era focado nos samples de hip hop com estruturas jazzísticas. Dois anos depois surgiu o convite de outro selo conhecido, o também inglês Domino, que recentemente se tornou uma das maiores labels independentes do mundo por ter lançado Franz Ferdinand, The Kills e Arctic Monkeys. Foi lá que surgiu o rótulo folktronica, por causa do sintetismo cheio de melodias sentimentais de "Pause", seu segundo e mais conhecido álbum.

Mais dois anos e o Four Tet lança "Rounds", seu trabalho mais ousado e mais etéreo, genial para alguns, sonífero para outros. Conquistou os ouvidos de Thom Yorke, o triste-mor do Radiohead: Kieran remixou "Scatterbrain" e abriu os shows da turnê européia da banda. Além de Aphex Twin e Radiohead, o inglês reconstruiu faixas de Bloc Party, Super Furry Animals, The Cinematic Orchestra, Kings of Convenience e até Black Sabbath, com uma versão para "Iron Man".

Pouco antes do último álbum, Kieran fez uma participação no Sónar paulistano com seu live calminho, calminho. Mas o moço parece ter tomado um pouco de Biotônico Fontoura e animou "Everything Ecstatic". Big Beat, techno e jazz são os motes do álbum, que com os singles "Smile Around The Face" e "Sun Drums And Soil", chegou ao número 59 do chart inglês. Seu método de produção impressiona: sem estúdios ou grandes equipamentos, Kieran gosta de trabalhar em casa com seus computadores, picapes, antigos equipamentos de sample e seus vários bolachões - fonte de sua inspiração desde sempre. Foi essa mesma estrutura que ele utilizou para lançar uma jam session de jazz com eletrônica com o jazzista Steve Reid, famoso baterista. "The Exchange Session" teve seu primeiro volume lançado em fevereiro e foi gravado em apenas um dia. A segunda reunião está a caminho, assim como uma compilação como DJ para o selo K7! e talvez um novo álbum em breve. Ele adiantou alguns desses projetos no papo com o rraurl.com. Confira.

» "Everything Ecstatic" é menos abstrato do que "Pause" e "Rounds". Produzir faixas climáticas e etéreas por muito tempo cansa?

Eu quis experimentar algo diferente, mais envolvente, agressivo mesmo. Quis fazer algo mais adulto do que meus últimos discos e não tive medo de arriscar porque pensei que, se a música muda constantemente, não há problema algum em meu som mudar também. Eu tive um insight para fazer o álbum, sentei, e fiz de uma vez só. Não tive muito tempo nem muita vontade de ficar analisando, pensando se ficaria igual, diferente, sentei com meus aparelhos e produzi o que estava pensando.

» Seus álbuns são bastante influenciados pelo que você ouve no momento que os produz, principalmente os vinis. O que você andou escutando quando fez esse disco?

Várias coisas, principalmente detroit techno, Derrick May, Jeff Mills, esses artistas. Ouvi muito jazz também, acho que as minhas maiores influências foram as distorções do techno e a estrutura do jazz, que eu sempre gosto de trabalhar.

» Podemos dizer que o jazz é a unidade que identifica seu trabalho então?

Talvez. Todos os meus álbums se parecem comigo, por mais que eu mude você percebe isso se prestar atenção. Eu produzo da mesma maneira, com os mesmos equipamentos e sempre pensando em misturar sensibilidade com coisas barulhentas.

» Como foi gravar "Everything Ecstatic" em 2 meses e "The Exchange Session Vol. 1" em um dia?

"Exchange" eu fiz com um jazzista, nos reunimos e começamos a tocar como uma banda de jazz, era tudo improviso. Não tinha porque gravar em mais tempo, editar. Quisemos fazer algo assim: capturar um momento. O "Everything Ecstatic" saiu em dois meses porque foi um período que eu me concentrei intensamente apenas nisso.

» Se você seguisse esse ritmo sempre poderíamos ter seis álbuns do Four Tet por ano!

(risos) Sim, até que eu conseguiria, mas acho que não passa pela minha cabeça passar um ano imerso na produção de álbuns.

» Li algumas entrevistas e nela você sempre manifestou o desejo de trabalhar com músicos de jazz. Como foi o contato com o Steve Reid?

Com certeza. Um amigo meu sabia desse meu desejo e me colocou em contato com o Steve. Expliquei a ele o que eu gostaria de fazer, um EP com poucas faixas, fruto de improvisações e ele gostou da idéia, entrou em contato comigo e o trabalho está aí. Ficou interessante, vamos entrar em tour, lançar um segundo EP ainda esse ano e até um site próprio a gente criou.

» Você tem remixado alguém ultimamente?

Sim, fiz algumas faixas do "Multiply", para o Jamie Lidell e outras dele que deve sair em um novo EP, mas não sei quando.

» Além da turnê com o Steve até maio, quais são os planos para 2006?

Um novo EP com o Steve, DJ sets por alguns países e em junho vou gravar uma compilação da série DJ Kicks para o selo K7!. Talvez no segundo semestre eu já comece a conversar com meu selo sobre um novo álbum, vamos ver.

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
comentários