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Dinky
Autora de "Acid In My Fridge" promete jornada eclética no Mothership da vez
03.02.06 01:45
Os passaportes de DJs e produtores chilenos estão cada vez mais carimbados. Não é novidade que no vácuo de Ricardo Villalobos, radicado na Alemanha, diversos artistas conquistam um espaço especial na cena européia, que recebe toques latinos de coração aberto. O casório não é de hoje. O pioneiro e multicultural techno de Detroit, que carrega forte sotaque da musicalidade e soul da América Latina, por exemplo, partiu naturalmente dos EUA e teve uma boa recepção por lá, ainda no final dos anos 80, através de faixas 'calientes', como "Strings Of Life", do Rhythim is Rhythim (Derrick May), e "Big Fun", do Inner City.

Nem tão puros, como grupos do naipe de Los Hermanos (que acentua a característica de seus integrantes latinos dentro da cuia do techno funkeado), uma nova geração bem-humorada, chilena – como também mexicana (Nortec Collective, Fax), argentina (Gustavo Lamas, Microesfera, Leandro Fresco) e colombiana (Algoritmo) –, chamam a atenção criando inéditas sonoridades com suas influências e em parte sob nova ótica minimalista, que no Brasil cai, em parte, como resposta à falta de cultura daqueles que tinham o techno como uma única fórmula.

Quem se deliciou com a sensível apresentação de Luciano na primeira noite do Technova em 2006, quando o prodígio não focou apenas em novas sonoridades, deve aproveitar e entender a jornada eclética da Dinky, que deve rumar ainda para o electro em sua estréia por aqui, no projeto Mothership, que está a todo vapor no começo do ano. Na entrevista abaixo, demos uma breve geral na carreira da dançarina profissional, que acaba de completar 30 anos e já recebe elogios de nomes como Ellen Allien graças à profundidade de suas faixas "Acid In My Fridge" e "Shake ya Booty".

»É sua primeira vez no Brasil. O que você espera encontrar na cena eletrônica de São Paulo? O que a Dinky pretende "aprontar" por aqui?

Eu prefiro que seja surpresa. Não gosto de planejar meus sets, quero ver primeiro como as pessoas reagem. Infelizmente, eu não sei muito sobre a música eletrônica do seu País, mas no geral, eu adoro a cultura da dança e da música do Brasil. Estou bastante feliz em estar aí.

»No final de 2005, você lançou o single "Beginning Of A New Horizon" (começo de um novo horizonte) pelo recém criado selo Horizontal. Quais as idéias que acompanham este disco e o selo, que também parece ser de sua autoria?

Sim, o selo é meu e é uma plataforma para lançar minha música e de outros artistas. Eu não quero focar em nenhum estilo particular, apenas música boa e para as pistas. É também o meu próprio caminho para encontrar minha liberdade e independência artística e colocar meus sons no caminho que preciso.

»O que diferencia os projetos Miss Dinky e Dinky?

Miss Dinky foi minha alcunha nas primeiras produções, entre 1999 e 2002 e Dinky sou eu hoje. Eu não quero usar "Miss" mais, pois eu prefiro que as pessoas não saibam antes se sou mulher ou homem, quero que seja uma surpresa. Não devo voltar a usar meu nome artístico antigo no futuro, foi apenas um nome que não tinha nenhum estilo propriamente vinculado que se diferenciava com pretensão de Dinky.

»Na sua infância, você estudou piano e quando se mudou para Nova York há mais de 10 anos se graduou em dança. Como isto foi importante na construção de sua carreira artística posteriormente?

Foi muito importante. Dança e piano me deu o conhecimento de composição, estrutura musical, ritmo e harmonia, que agora eu aplico em minhas produções e em minhas discotecagens.

»Sua primeira viagem para Berlim, quando você foi visitar sua irmã em 1995, foi uma boa experiência porque você descobriu a música eletrônica através dos clubes E-Work e Tresor, ouvindo os DJ Stacey Pullen e Hell. Do Chile, você foi a Nova York, onde passou diversos anos estudando e discotecando. Como foi ter deixado Manhatan recentemente para viver em Berlim?

Por mais que seja muito frio para mim, uma sul-americana, é prazeroso estar em Berlim. Isto abriu diversas portas para um mundo profissional da música eletrônica que eu não conhecia antes. É ótimo lidar com a agência Escorteaze e com amigos como Sven Vath, por exemplo.

»Na sua primeira passagem pela capital da Alemanha você também comprou seus primeiros discos, material de gente como LFO, Daniel Bell, Carl Craig, entre outros, na loja Hardwax. Como foi este primeiro contato com house e techno?

Como DJ eu gosto de tocar diferentes estilos e criar uma jornada para as pessoas. Eu aprecio os DJs puristas, mas me chateio depois de ouvi-los por mais de 2h, então o fato de ter um conhecimento de música de pista de Chicago e Detroit foi super importante. Isso foi motivado pelo meu interesse na sonoridade latina por causa das raízes negras da música dos mesmos.

»Em Nova York, depois de ter sido introduzida ao mundo da música eletrônica na Alemanha, você esteve disposta a tocar onde quer que chamassem e além de estudar dança você começava a produzir. Como foi? Quando você descobriu que deveria sair dos EUA?

Apenas senti que queria colocar minha carreira num próximo nível, eu queria me expressar mais do que apenas quando discotecava e foi assim que comecei a compor. Comprei um sampler e depois de seis meses assinei com o Traum. Eu estava muito feliz, mas estava passando diversas noites em branco aprendendo a produzir. Estava chateada com as leis que mataram a cena de clubes e ainda os advogados me avisaram que eu não teria mais visto pra ficar lá. Voltei ao Chile e em uma semana já estava fora dos EUA. Depois disso tive uma turnê na Europa e decidi me mudar para Berlim.

»O selo alemão Traum Schplatten é bem ligeiro em descobrir talentos de diversos cantos do mundo [confira as coletâneas "Interkontinental"] e assim lançou pela primeira vez sua música na Europa. Como foi participar da empreitada do farejador Riley Reinhold?

O Traum abriu portas porque lançou meu primeiro disco e naquele tempo eles faziam muita música ambient e lançavam sons esquisitos, hoje estão focados apenas em um único estilo e isso é um pouco lamentável. Mas eu sou muito grata a eles, mesmo que eu não faça mais parte do selo.

»Como é ver seus amigos de longa data, como Atom Heart, Marcus Nikolai, Luciano, Ricardo Villalobos, Dandy Jack, se destacarem na cena eletrônica mundial?

Estou realmente feliz que meus amigos de 10-15 anos estão sendo reconhecidos no mundo da música eletrônica. Eu fui testemunha da evolução e do esforço deles e eu vi como foi difícil para chegar onde estão hoje. Eu apenas sabia que eram bastante talentosos e acho que está provado com os seus sucessos no momento. Acredito que há alguma coisa especial na música eletrônica chilena, um tipo de melancolia combinada com ritmo e humor que é bastante atrativa, especialmente para a cultura européia.

»Seu primeiro álbum "Black Cabaret, que tende bastante para o electro, registra sua história com amigos em sua fase em Nova York? O que mais está nas entrelinhas do disco?

As novas leis que proibiram as festas em Nova York e mataram os clubes. É também o registro do mix de culturas que faz Nova York tão especial e ainda uma viagem à Patagônia chilena, onde exatamente eu gravei o álbum inteiro.

Felicio Marmitex
Felicio Marmitex
www.twitter.com/feliciomarmitex
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