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PET Duo
O casal mais querido entre os tech-heads bate um papo com o rraurl
19.01.06 01:45
Do alto de um prédio no centro de São Paulo, Ana e David me esperam para essa entrevista, juntamente com alguns gatos, pilhas e pilhas de discos e a companhia de dona Sil, a empregada que bota ordem no apartamento que passou três meses e meio fechado por conta da última turnê do PET Duo na Europa. Ao fim do dia, ela declara antes de sair: "Deus é maravilhoso porque leva, mas trás vocês de volta".

Credos à parte, muitos fãs pensam como a simpática Sil. Com o nome cravado em line-ups de festivais do porte do "I Love Techno" e "Monegros", o casal passa boa parte do tempo fora do País. E por razões dessa ordem que a Circuito desse sábado, que será realizada no lendário Lago, ganha contornos de cumplicidade e ansiedade nos olhos do casal, mesmo com já passados 9 anos de discotecagem.

Às vésperas da tão aguardada rave, o rraurl foi recebido no bem-humorado lar de Ana e David. Tem de tudo um pouco nesse bate papo. Dá uma olhada.

»Antes do PET Duo, vocês tocavam separados?

David: Eu comecei a tocar aos 14 anos, em 89. Mas foi por hobby. Eu fiz o curso do Iraí [Campos], peguei uns pratos meio gambiarras e ficava tocando em casa, fazendo festinha para as crianças. Só que chegou a hora de escolher um emprego e logicamente não houve incentivo da minha família para que eu continuasse com a música. Aí eu fiz Propaganda e Publicidade e deixei os decks um pouco de lado. Depois nos encontramos no Hell's. Passaram 2 anos e a gente resolveu comprar os pratos para fazer festas aqui em casa, porque depois do Hell's a gente trazia os amigos aqui e ficava ouvindo música até mais tarde. E eu ficava brincando com os discos. Aí a Ana se empolgou, viu que eu me divertia fazendo aquilo e resolveu fazer o curso do Iraí.
Ana: Mas não foi nada de "vamos comprar os toca-discos porque vamos começar a tocar juntos". Ele ficava horas tocando, gritava sozinho...(risos).
David: (risos).
Ana: Eu pensei: "ah, vou ver como é isso aí também". E eu não sabia nem apertar "start" da máquina.

»Que diferença, hein?

Ana: É, hoje eu consigo me virar (risos).
David: A gente queria levar isso como um hobby. Mas aí as datas começaram a aparecer mais regularmente, rolou a residência na Loca e a Ana tava procurando emprego havia 6 meses. E eu tive que decidir se continuava trabalhando com edição ou só com a música. Eu preferi a música. E assim a gente foi.

»O repertório musical variou nesse tempo? Vocês sempre tiveram um pé no techno, né?

Ana: A gente sempre tocou techno.
David: As vertentes mais pesadas.
Ana: Mas também muita coisa que a gente tinha acesso. Antes era diferente. Como não tinha internet, era por revista, catálogo de loja. Muitas vezes o review do disco dizia uma coisa e na hora que chegava...

»Vinha aquela bomba...

David: Exato! (risos). Só que era uma bomba no bolso também. Era uma desgraça. Ser DJ hoje é muito mais fácil.
Ana: Em termos, né? O disco continua caro.
David: Verdade, mas hoje dá pra ouvir o que você tá comprando.
Ana: Nesse sentido, a internet facilitou sim. Mas a gente sempre teve essa tendência de tocar uma música mais dançante e pesada, vamos dizer assim. Depois a gente acabou segmentando dentro do estilo e hoje a gente toca de techno a hard [techno].

»Fora techno, o que vocês ouvem?

Ana: Vixe...
David: A gente ouve muita coisa, desde música clássica até EBM, rock. A gente compra muito disco, cara!
Ana: O último som que interessou a gente foi a música clássica. Pode até parecer estranho vindo de nós...(risos) Mas ainda somos bem leigos, tem 1 ano que a gente tá se enveredando por isso. A gente tem um amigo que é agente de artista desse tipo de música e é DJ de progressive house.
David: E gosta de hard techno.
Ana: É, ele é super eclético. E foi através dele que a gente começou a conhecer um pouco mais. E também ao nosso isolamento lá na Alemanha.
David: A única rádio que pegava era de música clássica. E aí fomos ouvindo e não é que é bom? (risos)
Ana: Gostamos muito de rap também, tipo Public Enemy, Racionais. E bastante eletrônico, tecnopop.
David: Funk também, James Brown. Até Elvis Presley. De tudo um pouco.
Ana: Aliás, a gente compra mais discos de outros estilos do que de techno. A gente gosta de samplear alguma coisa e colocar no meio do set. James Brown já apareceu no meio de um set nosso, Beatles também.

»Tenho a impressão que tem gente que pensa que vocês são só hard o tempo inteiro.

David: É. Que a gente só toca Viper XXL, Frank Kvitta e Marco Remus. Não é assim.
Ana: No ultimo Lov.e eu toquei Jeff Mills, por exemplo. Pra você ter uma idéia, como tem uns DJs de hard que tocam mais acelerado que a gente, tem pessoas reclamando que o PET Duo tá tocando leve.

»Me desculpa, mas eu acho isso uma enorme piada.

David: (risos)
Ana: (risos) Tem gente que confunde BPM acelerado com peso. E como a gente gosta de techno e outros tipos de música, fica difícil tocar uma coisa somente loopada, né? Apesar da gente gostar e também tocar assim em alguns momentos.
David: Se não fica muito tedioso, né?
Ana: E a gente gosta também de ouvir house e até minimal, mas umas coisas mais sombrias, tipo Thomas Brickman, umas coisas da Warp. E hoje a gente percebe que tem gente que só gosta de um estilo. Apesar da gente amar o hard, as pessoas só escutam isso.

ȃ o "Taleban" do hard.

David: "Você tá tocando abaixo dos 160 [BPMs]. Gente, chicote nele!". (risos)
Ana: Exatamente. E então, é hard, mas ainda é techno. E o techno é muito amplo. Às vezes, a gente fica meio chateado com os rumos que a coisa toma.

»Ih, vocês falando de minimal? Que traição...

David: É, nós somos os traidores do movimento. (risos)
Ana: Sei lá, quem conhece nosso trabalho sabe com o a gente troca, como a gente desenvolveu nosso "trampo".
David: E eu tô cagando. Se achou que tá muito leve, muito isso, aquilo. Vai tomar uma cerveja e espera o próximo DJ.

»E como vocês elaboram um set em 4 pratos? Treinam juntos?

Ana: A gente não treina em 4 (pratos) porque só temos dois toca-discos em casa. Cada um treina normalmente, faz sua seleção. Mas como a gente tá sempre junto, um conhece as músicas do outro.

»No fundo, é um case só?

David: Exatamente. E até rola uma disputa quando chegam os discos, tem toda uma negociação.
Ana: E na hora do set procuramos olhar bastante para mostrar que, se um tocou a faixa tal, o outro poder saber por qual caminho ir. Não dá para premeditar o que a gente vai fazer porque depende muito do público. A gente ensaia, prepara alguns samples, mas o principal é que um conhece os discos do outro.
David: E no fim não tem uma preparação certa, uma ordem exata das músicas. A gente deixa pra ver o que cada pista quer.

»DJ sozinho já faz isso, né? Quis perguntar para saber como funciona em 4 pratos e 2 sujeitos.

Ana: É bem isso. E tem muitas pessoas que colocam fulano "vs" fulano no flyer. E a gente não gosta muito desse termo (versus) porque parece muito mais batalha de DJs, cada um vira duas músicas. E não é nosso caso. A gente quer a massa sonora inteira, compacta, 3 ou 4 toca-discos abertos, às vezes um CD no meio. E já é difícil entrar em sintonia com o momento, imagina com a pista e com o outro. É complicado.
David: E aí é que tá o legal. O gostoso de tocar em 4 pratos é isso. Poder experimentar, fazer algo mais diversificado de acordo com o momento. E é esse o porquê dessa arte: só naquele momento você vai ouvir daquela maneira.

»Tenho uma pergunta meio indiscreta. Ao mesmo tempo, acho que ela já deve ter sido feita. Seguinte: quando o casal briga, como faz para tocar? E o set? Fica mais pesado, introspectivo?

David: (risos)
Ana: Fica complicado de sair [o set]. Mas quando acontece isso, e rola mesmo, a gente procura ficar calmo porque não pode sacrificar a pista por uma coisa nossa. E geralmente a gente briga por besteira.
David: E logo depois já volta ao normal.
Ana: E sempre tem um dos dois que chega e diz "peraí, vamos parar. Depois a gente resolve isso".

»Ano passado vocês passaram um tempão na Europa. Como vocês se sentem tocando mais lá fora do que aqui no Brasil?

David: Olha, a gente se sente bem e mal. Bem porque a gente toca em festas bacanas, fica mais perto dos produtores. É uma oportunidade única que a gente abraça, com certeza. Mal porque tocamos menos quando a gente volta. Parece que os promoters não se lembram que a gente voltou. Não sabemos o que acontece. Parece que, quanto mais a gente toca lá fora, menos a gente toca em nosso país.
Ana: É meio chato pra nós.
David: Apesar de tocar bastante em São Paulo, a gente não consegue viver só de tocar aqui.
Ana: A gente não tem do que reclamar, estamos com uma agenda legal. Mas gostaríamos de tocar em outros lugares, tipo o sul do País, onde já tocamos e foi bem legal. Mas dá pra entender também que existem outros fatores, como as duas passagens, dois pares de toca-discos.
David: Mas o que eu acho é que a gente tem mais reconhecimento lá fora do que em nosso país.
Ana: Olha, não é todo mundo que gosta do nosso som – também não tô aqui pra agradar todo mundo. E é um som meio "ou ama, ou odeia". Tem gente que nunca ouviu a gente tocar e já fala: não vou porque é muito pesado.

»Tocando tanto lá fora, sentem uma responsabilidade maior quando voltam?

Ana: A gente sempre fica nervoso.
David: Nessa última tour, ficamos 3 meses e meio fora. Faltando mais de um mês para voltar, a gente já não via a hora de tocar aqui. Tem lugar que metade da pista são nossos amigos porque temos um carinho especial por nossos fãs. Porque depois de tocar a gente não ia embora, ia curtir a festa com eles. E aí, alguns desses fãs viraram amigos nossos.

»O PET do nome de vocês era uma sigla?

Ana: Era.

»Que significava...

Ana: Que mudou...
David: Que significava uma idéia muito fraca e a gente mudou. Agora, é "PET" por causa dos animais.
Ana: O Xu, o Xuetze, promoter da rave Oripabu, viu a gente tocando em casa e disse: "quero que vocês toquem na rave, mas 'Ana&David' não tem nada a ver". Porque tem muito dessa coisa de dupla sertaneja aqui no Brasil, e isso faz sentido. Depois veio uma idéia muito fraca, mas que viria a calhar com o nosso modo de vida, a relação com os animais, reciclagem, então combinou. Mas preferimos não revelar o que era (risos). É só um nome, na verdade.

»E como é esse lado de vocês? Como conheceram veganismo?

David: Dois anos atrás, a gente tava assistindo o programa do Cazé, o Buzina. E ele tava mostrando o petsforfood.com, um site onde você pode encomendar qualquer animal para se comer. Urso, coala, coruja, qualquer um. A polêmica era: qual a diferença de um animal desses, ou do seu animal de estimação, e uma vaca? A gente falou: "putz! Não é que é verdade?". Desde então, nunca mais.
Ana: A gente sempre comeu carne, é da cultura do nosso país. O David preparava uns hambúrgueres que eram absurdos. Mas a gente começou a questionar o que virou o consumo do animal. É mais contra essa industrialização, não só da carne, dos cosméticos, da pele. E a gente tenta por isso na nossa música, falar com outras pessoas sobre, aos poucos, até para não parecer tão xiita.
David: A gente conhece vegan que acha que só quem não come carne é que vale. E sabemos que é difícil mudar esse hábito. Não foi fácil pra gente. E como é um assunto que choca as pessoas, a gente tenta ser o mais sutil possível, mas consciente. E por isso a gente põe uma palavra em uma música. Nossa vontade era de fazer todas as músicas dizendo "pare de comer carne". Mas a gente percebe que as pessoas fogem do assunto se escutarem isso.
Ana: É, e ficam tirando sarro "quero minha picanha sangrando". Mas não é só o fato de não comer carne. Engloba tudo. A gente vê vegans super radicais, mas que não reciclam [o lixo].
David: Tem muita gente que acha que ser vegan é só a questão da alimentação, mas é ter consciência de que tudo o que você faz influencia o meio ambiente ao seu redor.

»Vocês lançaram recentemente um CD da série Palazzo, não é? Contem como foi?

David: É a primeira compilação nossa e a primeira em 4 pratos da história do techno. A gente gravou pela série Palazzo, que era o nome de um clube de Mainz, que fica perto de Frankfurt, na Alemanha.
Ana: Tem uns 2,3 anos que ele fechou. Era bem lendário por lá. Depois que fechou, eles lançaram uma série de CDs, que começou com o Marco Remus, depois teve Gayle San, DJ Rush, Eric Sneo e agora a gente. Foi uma surpresa pra nós, ficamos super felizes porque são DJs já estabelecidos. Infelizmente, a gente não fez parte do clube. Mas eles ainda fazem festas e chamaram a gente para tocar. Era um sonho nosso lançar um CD.Nos últimos 2 anos, a gente até tentou em gravadora por aqui, mas não deu certo. Ficamos muito felizes.

»Essa entrevista já estava marcada quando rolou o set de vocês no Livesets.com, E foi um "tributo do site ao casal".

David: Um exagero! Eles não deviam ter dito isso. (risos)
Ana: Mas eles fazem isso toda semana. E quando eu vi o "tributo", pensei: "ai, meu Deus, tributo por quê?" (risos). Foi legal, a gente não tava esperando. E o Livesets é um site muito bacana.
David: São mais de 50 mil membros. Tomara que isso não dificulte a venda do CD.(risos)

»E o trabalho em estúdio? Como estão as produções?

David: Fazem 2 anos que a gente lança música, 2 anos e meio que a gente produz.
Ana: Apesar dos nossos 10 lançamentos, nos consideramos iniciantes. A gente tem bastante trabalho pra esse primeiro trimestre.

»O que tá pra sair?

David: Vai sair um pela Knee Deep, selo do DJ Rush. Chama "Body Midification" e têm quatro faixas, sendo que uma é remixada pelo DJ Bold. É o segundo disco que a gente lança por lá e vai sair em março. Além disso, estamos preparando um remix pra uma faixa do DJ O.B.I. que vai sair pelo selo dele, o Tekktribe. Tem também um EP pelo novo selo do pessoal da Audio Assault e Arms, o Cannibal, e mais um picture disc de 10 polegadas, pelo selo Proud, subselo da alemã Abstract Records. Serão só 500 cópias.
Ana: Tem um outro lançamento que vai sair pelo selo Inflicted, do Sven Wittekind. É um EP com 4 faixas e se chama "Four Fingers". E o Sven vai remixar uma das faixas, a "F***ing President", uma faixa em "homenagem" ao presidente Lula e a todos os presidentes e outras pessoas no poder pelo mundo.

»Como surgiu essa faixa?

Ana: Assim como muitas pessoas estão chateadas com essa palhaçada que tá rolando, a gente também está. Claro que sempre existiu palhaçada, mas o esperado era que a parte social desse uma melhorada. A gente vê que o cara não faz nada, não tá muito preparado pra estar ali...
David: E tanta falcatrua descoberta deu vontade de fazer uma música que tivesse a ver com o Lula.
Ana: Infelizmente, o sample que a gente conseguiu tá em inglês, mas também não serve só para o Lula, mas para outros governos. Como a gente contou pro Sven do nosso presidente, e quando a gente vai tocar um sempre faz assim (imita a mão do Lula), acabou virando essa brincadeira.

»E os planos pra esse ano?

David: A gente tem que fazer música!
Ana: É. Nossa prioridade é evoluir na produção, né?
David: Isso. E mais pro final do ano, começo do ano que vem, lançar o nosso selo. E acelerar a produção. Ao longo desses 2 anos a gente tem melhorado no lance de freqüência, rapidez em fazer as músicas. E aí até o começo do ao que vem a gente vai tá "atentado" a lançar nosso selo.

»Tanto tempo discotecando, não deu vontade de incorporar um outro "brinquedinho" aos toca-discos?

David: Até o fim do ano, a gente vai incorporar o Ableton Live aos toca-discos, pra fazer um DJ set com um "semi" live. E aí a gente vai poder fazer uns remixes ao vivo, umas coisas que vão dar outra dinâmica ao nosso set.

»Vão mudar de mixer pra usar o programa?

Ana: O Patrick DSP já ensinou uma manha pra gente usar com o Pioneer e sincronizar. Não vai ser tão preciso, mas a gente vai chegar lá, né? (olha para David)
David: Sim, com certeza. O céu é o limite. (risos)

André dos Santos
André dos Santos
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