Cansei de Ser Sexy
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Cansei de Ser Sexy
Banda lança álbum de estréia e Adriano Cintra fala ao rraurl
27.10.05 01:45
 
Adriano Cintra é freqüentemente lembrado pelo Thee Butcher's Orquestra, peça crucial da última onda anti-pasmaceira do rock nacional. Depois da orquestra de três homens, uma nova safra de bandas emergiu dos porões espalhados por tudo que é lado.

Agora o nome do músico remete a outro momento. Após dois anos de shows controversos, músicas na rede e um bocado de polêmica, o Cansei de Ser Sexy – que além do Adriano (bateria), é composto por Ira Trevisan (baixo), Carol (bateria, teclado e guitarra), Lovefoxx (vocal), Luiza Sá (guitarra) e Ana Rezende (guitarra) – lança hoje seu disco no Rose Bom Bom.

Mas nem só do novo disco fala o músico. Adriano conta sobre a volta da banda que não acabou (o Butcher's), qualidade dos shows no Brasil e alguns outros temas.


» Você participa de uma série de bandas (Verafisher, Ultrasom, Loveboxx Music) e tem também um projeto solo, o Mango Kid. Você é workaholic?
Na verdade, como trabalho com produção de trilhas para publicidade, fico no estúdio o dia inteiro. E quando não tô fazendo música pra vender cerveja, ou qualquer outra coisa, eu fico criando. Em vez de ficar no Orkut, MSN, ligo os equipamentos. E se eu tô numa fase mais ativa com alguma banda, crio para ela.

» E antes de rolar o "Cansei" você estava no Butcher's Orquestra e...
Ainda estou.

» Mas não acabou?
O que rolou foi o seguinte. Ano passado a gente tocou durante dois meses na Europa. Quando voltei, o Marquinhos ficou lá mais um tempo. Aí ele voltou, mas a gente nem fez muita coisa porque ele foi para os EUA logo em seguida. Meio que rolou uma coisa "ah, a banda acabou"... Talvez até tivesse acabado se não fosse o [furacão] Katrina, que passou bem na cabeça dele por lá e ele voltou... (risos). A gente tá compondo e até dezembro devemos gravar um disco. E ano que vem vamos voltar à ativa.

» E o que levou o guitarrista do Butcher's pro Cansei de Ser Sexy? O que atraiu você?
Sou meio esquizofrênico, gosto de muitas coisas. Talvez a banda que tenha mais a minha cara é o Ultrasom. Lá eu componho, não tenho parceiros. O Butcher's é o resultado da minha personalidade com a do Marco. E o Cansei é o resultado da personalidade de seis pessoas. E é isso que acho que deu certo na banda. Tem muita gente que acha que eu faço tudo. Tá, a maioria das músicas eu compus, mas eu não cheguei e falei: "vamos fazer assim". Eu tinha idéia, mostrava pra elas e o negócio foi feito a doze mãos.

» Você foi convidado para entrar no Cansei já formado, não?
Foi assim. Eu tava na festa de 1 ano da Fun House e a Iracema [Ira Trevisan] me falou: "vamos montar uma banda?". Ela já tocava naquela "grantsriversloversfuckerswhatever", não lembro o nome. E ela tava meio desiludida com o Rock. E o roqueiro é uma raça meio preconceituosa...

» Em que sentido?
Não sei... Falo isso por preconceito meu também. Mas acho que tem roqueiro que se leva à sério demais. Acreditam muito que o rock é uma instituição sagrada, um Taleban... E aí eu acho que surgiu nosso calcanhar de aquiles: "Cansei não é uma banda séria, é uma banda tosca, que não sabe tocar". Isso parece ser conseqüência dessa época porque a gente falava assim: "vamos fazer uma banda de zueira pra tomar vodka no ensaio?". E era meio isso... (risos).

» E quando deixou de ser?
Quando convidaram a gente pra tocar no Tim [Festival]. Daí eu olhei e falei assim: "ó, meninada, tá legal, mas chegou a hora de fazer alguma coisa de verdade". Não dá pra ir lá pro Tim e tocar... Porque a gente fez vários shows muito zueiros. Era um pedaço de música da Madonna, mais um da Jennifer Lopez e fazia tudo punk rock. Não dava pra fazer isso no Tim Festival, na frente de 5 mil pessoas. Eu falei: "se vocês quiserem fazer assim, achem outro baterista". Foi nessa época que eu já tinha umas bases eletrônicas, coisa que fazia entre um trabalho e outro. Aí a gente sentou pra desenvolver algo. Até aí já tinha "Meeting Paris Hilton" no site da Trama Virtual, só que não era música que a gente tocava ao vivo. Não era preguiça, mas falta de iniciativa. Nunca tínhamos pensado em como usar uma bateria eletrônica, um baixo eletrônico, ao vivo. Tá, pega o laptop, bota tudo separado no Logic, liga os teclado, midi. E lá fomos nós pro Tim com tudo montado e não teve passagem de som... Puta que pariu. Aí zuou, né? A gente ensaiou uns dois, três meses, todos os dias, umas 5 horas diárias. Foram gastos 5 mil reais só em ensaio – e o Tim pagou 2 mil. E a gente colocou 3 mil do bolso pra não pagar mico. Eu pensava: "não vou pra pagar mico. Quero ir lá fazer uma coisa fudida. Foda-se se alguém não gostar, eu quero ficar satisfeito com o que for feito. E eu estava. Nos últimos ensaios, nossa... A gente tocava de luz apagada. Sabe, "apaga luz porque lá a luz vai piscar, aí vocês vão assustar e não saber onde a mão tá na guitarra" (risos). Aí tocava no escuro pra treinar, piscava a luz (risos). No dia do Tim eu acordei cedo, fui cortar o cabelo... (risos). Chegando lá: "olha, o Kraftwerk montou um palco de 5 milhões de dólares e vocês não vão pisar no palco. Não vai ter passagem de som". Eu dei um chilique: "não vou tocar nessa bosta. Vai ser pior!". A gente gastou essa grana de ensaio pra chegar e não ter passagem de som. E aí me chega um cara e diz: "vocês passam o som no backstage".

» E rolou isso?
Claro que não! O Soulwax já tinha montado o equipamento. Eles passaram o som. A gente, não. A gente ganhou uma fita desse show da organização. Nunca tive coragem de assistir.

» E como você acha que foi?
Foi horrível. Prefiro não ver, é sério. Eu não leio mais o que escrevem da gente, blog, nada. Prefiro não saber.

» Aí é que tá: o Cansei é meio "Ame-o ou deixou-o"?
Acho que é por conta da mídia. Uma vez que Lúcio Ribeiro e Erika Palomino começaram a falar da gente, pronto. Engraçado, a Lovefoxxx tava falando nisso. Quando a gente não era ninguém, só tinha um fotolog, todo mundo gostava da gente porque ninguém conhecia e parecia ser uma boa idéia, né? Uma banda de meninas espalhafatosas – não que elas se vistam assim, é o que tá na cabeça das pessoas – e eu que era do Butcher's. "Ah, tá legal". No dia em que o Lúcio Ribeiro escreveu uma coluna desse tamanho no jornal falando da gente, metade deixou de gostar só porque saiu na Folha [de S. Paulo]. O povo deve pensar: "ah, agora fodeu. Gostava do Cansei de antes...". Antes do quê?! Antes do jornal, depois do jornal? Aí foi parar no Tim. Daí fodeu. No Orkut tem uma comunidade "eu odeio Cansei de Ser Sexy". Eu entrei pra ver. As pessoas nunca ouviram a música. Falam mal por causa do fotolog, porque uma delas pisou no pé de não sei quem no Outs. "ai, odeio aquela menina. Ela pisou no meu pé!". Outra coisa que ajuda essa postura são as péssimas condições de shows daqui. Não te deixam passar o som, os equipamentos são uma bosta, o técnico de som é um energúmeno que não sabe equalizar. A pessoa vai ver o show do Cansei depois de ouvir que a banda é um monte de menina retardada, que quer aparecer, que não sabe tocar – que é mentira, que é tosco, hype. Chega lá, o som tá uma bosta. Claro que vai falar mal, com toda razão.

» Li, se não me engano no uol, que Peter Culshaw escreveu em sua coluna no The Observer que teria mostrado músicas de vocês para o Malcom McLaren (que lançou os Sex Pistols, nos anos 70). Alguma coisa para contar sobre essas conexões?
Acho que ele chegou a mostrar. Mas é assim: antes, quando a gente não tinha gravadora, essas coisas vinham diretamente pra nós. Agora eles falam diretamente com a Trama. A gente não sabe muito em que pé está, eles nem falam muito pra não criar expectativa. Mas sei que depois dessa matéria do Observer, chegou muito e-mail até do Japão pra fazer show lá. Quem tá cuidando disso é o Edu Ramos, da Trama. Ele não fala muito. Vai trabalhando, quando rola, ele avisa. Sei que a gente tem duas semanas de novembro reservadas para datas lá fora.

» É provável que vocês viajem, mas não tem nada certo. É isso?
Sim. Eu tenho fé que a gente vai viajar (risos). Só não sei se a gente vai pra Los Angeles, San Francisco e Nova York ou se vai pra Londres e... Mas sei que em dezembro eu toco com o Verafisher em Paris. Viajar eu vou (risos).

» Você falou do jeito de se vestir das meninas, mas parece que a banda realmente dá atenção a um lado estético.
As meninas da banda se vestem daquele jeito. A única que se monta mesmo pro show é a Lovefoxxx. Ela veste uma série de roupas e depois faz uma brincadeira de tirar e pôr a peça ao contrário e não sei o quê. Eu vou fazer show com essa roupa [tênis, jeans e camiseta]. As meninas também.

» Tem também um lado performático no palco, umas brincadeiras.
Sim, mas isso é só pra se divertir. Não é nada ensaiado.

» Você acha que isso tudo pode ofuscar o lado musical da coisa?
Já ofusca. Principalmente aqui. A maioria dos shows que a gente faz é um som de merda. Tipo quando a gente foi tocar no Campari Rock. Primeiro que não teve passagem de som, mais uma vez. Na verdade, a gente brigou e eles arrumaram meia-hora pra ir lá ligar as coisas e ver o que tava saindo som. Mas não rolou uma "passagem" propriamente dita. O nosso show é impossível de ser feito 100% do jeito que tá na nossa cabeça sem que tenha passagem de som. Agora com a Trama, a gente tá sendo mais fresco. Se possível, a gente não quer tocar com nenhuma outra banda porque não adianta nada passar o som e uma outra banda ir lá e estragar tudo o que foi feito. Sem passagem não tem show.

» Falando das bases, da parte mais eletrônica do show do Cansei, queria saber como é feito esse material pra show.
Essa história de bases eletrônicas aconteceu por acaso. Por eu trabalhar em estúdio, tinha lá todos os sintetizadores, seqüenciadores, programas. Pra mim era muito mais fácil ligar o computador e fazer uma base eletrônica do que ir pegar uma bateria, gravar e pegar guitarra, microfonar... Foi mais por comodidade. Minha cultura de música eletrônica é, tipo assim, quando tinha 15 anos, gostava muito de New Order. Depois fui muito ao Hell's, saía, mas nunca fui um aficcionado. Até saio e danço, mas eu não sei diferenciar o tech-house de um outro house que possa existir. Quando comecei a mexer com essas bases, eu tinha no meu imaginário a sonoridade pop dos anos 80.

» Algo mais pro electro?
E mesmo o electro, eu nunca fui dessa cena. Tipo, eu nunca fui ao Xingu. Depois, mais pro final, eu comecei a ir. O Loveboxx Music era um projeto que eu fazia com o Ricardinho Athaíde, ele fazia noite no Xingú. A gente fez umas versões eletrônicas de David Bowie.

» Mas nunca foi seu som "de cabeceira".
Não, nunca foi. Mas nunca tive preconceito com esse tipo de música. Aliás, eu fui ao Hell's da primeira edição até a última. Gostava muito. Os melhores amigos que tenho hoje eu fiz naquela época, é gente ligada à cena. Estudei com a Ana, do PET Duo, na escola. Mas mesmo assim minha onda sempre foi mais pop.

» Agora tem o lançamento do disco do Cansei com 14 músicas e um outro EP, com mais 7. Esse EP é o que era vendido em shows?
Não. Esse aí a gente chegou a chamar de "Onda Mortal" depois do Tsunami... (risos). Esse não vai mais fazer porque tem cover, aí teria que pagar [pelos direitos]. Mas foram gravadas 21 faixas. Só que ninguém vai ouvir um disco com 21 músicas. Quando começamos a montar o disco, a gente percebeu que 14 faixas tava muito bom. Aí o [produtor] Miranda deu a idéia de lançar um EP com as 7 músicas que sobraram. É um CD mais barato, com um encarte mais simples no formato envelope. Esse EP vai ser vendidos nos shows. São músicas diferentes nos dois CDs. As que repetem têm versões diferentes.

» O EP é mais roqueiro?
É, mas ao mesmo tempo tem uma versão de "Art Bitch" mais eletrônica.

» E a história do CD-R?
A idéia foi lançar o de 14 faixas numa embalagem dupla, bem diferente do EP. Aí, pra não ficar vazio, o Miranda teve a idéia do CD-R. Afinal, tudo mundo copia CD. O CD-R vem com uma mensagem meio irônica : "faça bom uso desse CD".

» Dessas 14 músicas, teve alguma concebida especialmente para o disco?
A gente decidiu gravar todas as músicas, menos essas coisas tipo cover de Madonna, que ia sair muito caro (risos). No processo de gravação do disco, foram nascendo novas músicas como "Alcohol", que é uma faixa mais pop. Eu acho que um reggae, a Carol, um country... "This Month, day 10" também foi nesse período.

» Depois de 2 anos divulgando o trabalho do Cansei na Internet, qual a intenção banda em lançar um disco "real"?
Acho assim: a gente podia colocar uma música por semana na rede. Só que é legal ter o disco porque com ele você vê o conjunto da obra. Ele tem um conceito, por mais que o nosso mude de uma faixa pra outra, faz sentido na nossa cabeça. Acho a ordem das músicas, e o conjunto que elas formam, mostram quem é a banda. E esse disco tá muito parecido com o show, foi todo baseado nos arranjos feitos ao vivo. Outro ponto: é mais fácil conseguir show. E a gente vai mandar o disco pra fora, tá quase certo que ele será lançado em outros países. O disco ainda é um instrumento de trabalho, no sentido de conseguir show. Eu não sei se ainda é o método mais eficaz para ganhar dinheiro. Pra quem vende milhões, deve ser. No nosso caso, a gente quer fazer muito show, viajar muito.

» No geral, a receita é: bandas lançam discos, montam um show em cima desse trabalho mais recente e saem em turnê. Isso vai valer pro CSS?
Sim. A gente tá com essas datas lá fora, mas eu queria ir também pro Nordeste, pra Belém do Pará, lugares que nunca fui. Ir também pra Europa, Estados Unidos, Argentina. Viajar.

» E nesses lugares fora de São Paulo, como você imagina que vai ser a recepção?
Em Porto Alegre foi animal, um dos shows mais legais que a gente fez. Goiânia foi muito foda. E como nosso público é meio adolescente, jovem adulto, é meio "nerd" de internet. É foda essa globalização. Em Porto Alegre, as pessoas sabiam cantar as músicas que não tem mp3. Eles ripam o áudio de um show nosso que tá lá no Terra e trocam entre si. Quando chegar o disco, ele já sabem cantar as músicas. É muito louco.

» E o show de lançamento? Tem alguma coisa especial?
Vai ser a primeira vez que a gente vai fazer um show mais longo – a gente odeia show comprido. Tem que ter uns 45 minutos, a gente não é Rolling Stones que tem 40 anos de carreira e mil músicas. Acho que a gente toca todas as músicas do CD e vai ter também um cenário. É uma floresta. O nosso próximo clipe também é numa floresta. A gente gosta de floresta.

» E como foi esse clipe?
Já rolou um de "Off the Hook". Que foi no mesmo esquema do disco: feito em casa, sem gastar nada. A gente pegou a garagem onde rolam os ensaios e deixou bem bonito – bonito na nossa cabeça (risos). Uma câmera parada gravou garagem, cozinha e quintal. O próximo vai ser no sítio do meu pai. As pessoas têm uma imagem pré-concebida da gente que é engraçado. Quando eu falo que eu falo que a gente vai gravar o clipe na floresta, as pessoas dizem "mas na floresta?". Queriam que a gente gravasse na Augusta, no banheiro do Ampgalaxy? Claro que não! Outra: "mas a capa é tão colorida... Achei que ia ser uma coisa punk/Nova Iorque.". Não, tem quer ser colorido. A gente gosta de new wave.

André dos Santos
André dos Santos
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