Detroit, o legado
Porque a escola da eletrônica da Motor Town faz a diferença
15.08.05 01:45
Qualquer análise histórica que se possa fazer da música eletrônica reserva um capítulo à parte para a cena de Detroit. A cultura musical da cidade onde outrora reinou a indústria automobilística americana, fruto da segunda revolução industrial, começou muito antes do aparecimento do techno. Quem nunca ouviu falar de Motown, selo que lançou The Temptations (foto), Stevie Wonder, Diana Ross, Jacksons 5, entre outros?

Se formos investigar com propriedade, o túnel parece não ter fim. A cidade de Detroit, porém, teve como privilégio uma bagagem histórica que vai muito além de Motown e do próprio techno: foi sede de atividades artísticas constantes desde os tempos em que o jazz tomou conta da cidade a partir do começo do século passado. Foi por este motivo que os artistas de música eletrônica sofreram uma vasta influência de jazz, soul e funk em suas trajetórias. Talvez o espírito improvisador-experimental do jazz, a sensibilidade do soul e a sensualidade do funk tenham proporcionado aos jovens de Detroit do fim da década de setenta e dos anos oitenta um espírito eclético, porque no final das contas eles ouviram de tudo, guiados em grande parte pelos ousados programas de rádio do Electrifyin' Mojo. Pioneiro, Mojo não tinha medo de arriscar em suas programações e tocava de Jimi Hendrix a Kraftwerk, Parliament ou Prince. Imprevisível, era capaz de tocar qualquer versão longa que não fosse habitualmente ouvida em rádio. Segundo, porque seus pais e irmãos mais velhos tinham lhes proporcionado um berço sonoro respeitável.

Por outro lado, o início desta popularização dos equipamentos eletrônicos e a sua presença cada vez mais constante na vida dos cidadãos eram apenas indícios do que ajudaria a nortear a cultura do techno de Detroit. Foi com muita propriedade que o escritor futurista Alvin Toffler debateu as profundas transformações que abrangeram desde os meios de comunicação até o mundo digital e corporativo na sociedade contemporânea. Lançou a obra (e o termo) "Terceira Onda", em referência à sociedade pós-industrial e à terceira revolução industrial (que teve como elementos principais a informática e a aeroespacial, entre outras) responsável por mudanças definitivas na vida do homem. Em "Future Shock", Toffler fez uma análise do impacto das novas tecnologias na vida do homem, e foi dali que surgiu o termo "Techno Rebels", citado como inspirador por um dos pioneiros do techno Juan Atkins (foto).


As produções de música eletrônica da "Motor City" foram reflexo destas mudanças e em 1981 surgiu Share Vari", faixa de um projeto chamado A Number Of Names. Apesar dela ter um clima obscuro e uma abordagem incomum para a época, parecia se ressentir de algo tão essencial à cultura de Detroit: os elementos dançantes típicos da música negra. Responsável por ter germinado o techno nos primeiros anos da década de oitenta, a dupla Cybotron, de Richard "3070" Davies e do próprio Juan Atkins, deu os seus passos e traduziu musicalmente o que tinha absorvido de bandas como Kraftwerk, Can, Depeche Mode, mas também dos mestres do funk ao electro funk (vide George Clinton) em algo futurista, dançante, de alma de forma absolutamente inovadora. Em 1983 lançaram "Clear", faixa de electro que trazia em si elementos presentes nas obras de Arthur Baker e Afrika Bambaataa, mas também das composições dos cavaleiros teutônicos do Kraftwerk. Um ano após, porém, Atkins e Davies produziram a primeira faixa de techno efetivamente: batidas retas, elementos Sci-Fi (de "Science Fiction", ou ficção científica) e groove marcante fizeram de "Techno City" o primeiro grande hino do gênero, seguido por "No UFO's" (1985) de Atkins já em carreira solo como Model 500. O sinal estava dado. Dali pra frente, foi uma questão de tempo para que a idéia germinasse em outras frentes, a começar pelos colegas próximos de Juan Atkins: Derrick May (foto) e Kevin Saunderson.


Porões residenciais, maquinários de produção musical bastante rudimentares para os padrões de hoje e muito feeling artístico foram os ingredientes que fizeram com que vários dos jovens daquela geração começassem a arriscar e criar suas próprias versões de techno: Derrick May como Rhythim Is Rhythim, Kevin Saunderson como Reese, Antonio Echols como Santonio, Blake Baxter como The Prince Of Techno, Eddie Fowlkes como Flashin' foram os primeiros. Paralelamente a isso, vários dos futuros artistas consagrados freqüentavam e até promoviam festas em suas respectivas redondezas.

A consolidação do techno, por outro lado, se deve a vários fatores:

Ron Hardy (foto), um dos DJs mais corajosos da história, era residente da Music Box, de Chicago e, que apesar da sua experiência, não hesitava em tocar tapes demo dos adolescentes Kevin Saunderson e Derrick May que vinham de longe com um som 'super esquisito'. Tocava várias vezes na mesma noite, e transformava em hits. Isso no fim dos anos oitenta, e estamos falando de "Nude Photo", "Strings of Life", "Rock to the beat", entre outros; deixada de lado num primeiro momento, "Big Fun" foi incluída na histórica coletânea "Techno: The New Dance Sound Of Detroit" pelo aficionado em música eletrônica Neil Rushton.
Lançada na Inglaterra, a compilação transformou para sempre a cena eletrônica do velho continente; o terceiro fator foi indubitavelmente a repercussão de "Strings Of Life" na Europa a partir do momento em que foi relançada em 1989 pela Kool Kat, dois anos após sua criação, novamente em território inglês, tornando-se hit obrigatório durante cerca de dois anos seguidos.

Enquanto isso, na mesma metrópole, um DJ se destacou brilhantemente com os seus sets de Hip Hop, Electro, Freestyle e Techno: Jeff Mills (foto), conhecido então como The Wizard, quebrava tudo nas programações do canal de rádio de Detroit WJLB durante a segunda metade da década de oitenta. A partir de 1988, começou a produzir sob toda a mescla de influencias de Hip House, Industrial e EBM em seu projeto Final Cut. A partir dali, seria uma questão de tempo para conhecer outros artistas e integrar o Members Of The House, projeto da célebre "Share This House", de 1990. Foi exatamente naquela época que Jeff Mills (foto) e um tal de Mike Banks, o Mad Mike, se conheceram. Não demorou muito para que, indignado com a falta de espaço dos selos mais conhecidos, abrissem o seu próprio clã com alguns amigos chamado Underground Resistance.

O curioso é imaginar como emergiu uma escola musical tão interessante em uma cidade industrial (apelidada "Motor City") em plena decadência (a concorrência feroz do Japão e de outros Tigres Asiáticos, além dos tradicionais concorrentes europeus provocou alguns anos de dificuldades para parte da indústria automobilística norte-americana, o que se refletiu indubitavelmente na economia da cidade).

Em termos mais genéricos, a cena de Detroit teve pelo menos duas fases iniciais: a inicial, impulsionada pelos artistas Juan Atkins, Kevin Saunderson, Derrick May durante os anos oitenta, e uma segunda, iniciada a partir do fim dos anos oitenta, cujos grandes epicentros foram o Carl Craig e o staff do selo Underground Resistance: Mad Mike (foto), Jeff Mills, mas também James Pennington, Robert Hood e companhia.

Com o tempo, uma série de outros artistas integrou a escola, desde Drexciya, grande referência do electro, Stacey Pullen (responsável por uma brilhante fusão da estética de Detroit com os timbres dos bleeps), Kenny Larkin (cujo clássico presente no EP "Seven Days" como Dark Comedy ou mesmo a super viagem de 'Q' muitos de vocês devem ter dançado sem saber), até Los Hermanos num período um pouco mais recente (DJ Rolando, Gerald Mitchell e Dex chegaram a trabalhar juntos no projeto).

Entre a aparente infindável leva de talentosos artistas da cidade, destacam-se ainda Mike Grant, dono do delicioso selo Moods & Grooves, já numa atmosfera mais próxima da House Music, alem de Kenny Dixon Jr. (o Moodymann) e o Theo Parrish (foto), cuja leva de boas influências simplesmente nos impede de rotular suas obras.

Mais importante do que tudo isso é saber o que representa a filosofia de Detroit: uma fusão de vários elementos musicais de diferentes origens, com uma ênfase ao mesmo tempo nas raízes da black music (mais diretamente no jazz, soul e funk) e no futurismo da vanguarda eletrônica (representado nos anos 70 e 80 por bandas como o Kraftwerk, por exemplo). Por definição, todo amante dos "sons de Detroit" que se preze não tem a cabeça fechada. Sabe da importância que tiveram jazz, soul, funk, electro, a música experimental, a erudita contemporânea entre outras na formação da dance music a partir dos anos oitenta. E tudo isso se nota na própria concepção que estes artistas tiveram e continuam tendo da música: improvisações, timbres específicos (ninguém em Chicago ou em qualquer outro lugar usava os mesmos do Inner City em 1988-89, motivo pelo qual eles não eram considerados house, mas sim techno na época), acordes de diversos tipos, strings, vocais, ritmos variados e muito bem acabados, o minimalismo (emplacado por Mills em "WaveForm Transmissions vol 1", de 1992, influenciando e abrindo espaço para toda uma linha musical que vigora até hoje), etc.

Pode-se ir do experimental ao som de rave, da house ao techno, future jazz, downtempo etc. É definitivamente uma das manifestações culturais mais importantes da história da música eletrônica. Só a mística criada ao redor do selo Underground Resistance, devido à sua história e filosofia, já vale um capítulo inteiro. A começar porque transcende a questão musical, passando a abranger uma visão bem peculiar de mundo e sociedade, incluindo os aspectos político-sociais e a perspectiva de luta constante contra a mediocridade que paira sobre o meio musical, numa clara crítica à indústria cultural (cujo alicerce está nas produções feitas em série) e aos meios de comunicação de massa. Para eles, o selo representa um movimento que pretende se estabelecer através da revolução sonora e do combate à mediocridade reinante nos meios auditivo e visual. Em outras palavras, o grupo Underground Resistance propõe uma abordagem extremamente diferenciada de arte e do ser humano. Essa leitura humanista do cotidiano pode ser notada na preocupação mais evidente com um espírito de engajamento, princípio essencial de resistência underground. O bem estar das comunidades dos "irmãos" desfavorecidos, a valorização das mais diversas formas de arte, e o combate às injustiças contra o ser humano de forma geral estão entre as iniciativas propostas pela brilhante equipe. Talvez por isso a UR tenha deixado de ser apenas uma gravadora e se tornado um dos grandes pilares da cultura eletrônica dos últimos quinze anos.

Alain Patrick
Alain Patrick
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1 comentários
luiz
luiz(12.07.06)
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detroit