Diplo
Atração confirmada do Tim Festival, Diplo é o homem da vez
30.06.05 01:45
Música para o corpo é a missão de Wesley Pentz, da Filadélfia, DJ, produtor, controverso, honorável mensageiro do funk carioca e do grime em solo ianque, pró-dancehall, pepita do Big Dada, cabeça da noite Hollertronix, rei dos mixtapes e hip hop na veia. É também o parceiro na música e no amor da cingalesa Maya Arulpragasam, já dona de status pop como M.I.A. Ele é Diplo, homem da vez na dance music e prevendo futuro nada mais que brilhante. Pode crer que vai causar no palco do próximo Tim Festival, a tomar lugar no segundo semestre no Rio de Janeiro, do qual é atração certíssima. Conheça.
» Tim Festival é certo, né?
Sim, sim, certeza. Aí uma pequena turnê pelo Brasil, se der tudo certo, e pego o trem da morte para a Bolívia, Manaus e Suriname. Quero muito tocar em Manaus!!! E depois ver o nordeste e me aprofundar na música da região o máximo possível.
» Você sabe que na sociedade brasileira corre uma aversão fortíssima ao funk carioca. Como gringo e fã do gênero, que argumentos manda pra defender o som?
Duas coisas: eu discoteco e a arte de discotecar se perdeu. A meta original, porém, era revelar músicas novas e botar fé em alguma coisa. Me vem essa sensação do começo com essa música brasileira, com a M.I.A., com o grime. Acho fenomenal. E é importante entender que nós vivemos em um mundo globalizado agora. Esses sons estão doze passos além de simplesmente fazer rap em uma linguagem diferente. O desafio real para alguém como eu é colocar essas coisas no contexto certo. Como também produzo, então puxando uns toques daí também.
» E você percebe uma resistência dos americanos contra o miami bass também?
Em geral, a música negra é vista como algo errado na nossa estrutura social. Não há nada maior que o 50 Cent nos Estados Unidos e só o que ele faz é rimar sobre tudo que você não quer que a garotada faça. Dilema. Mas a música existe para as pessoas, nunca foi diferente. Se ela está aí, na sociedade, é porque nela cabe. A única coisa que me assusta é o modo como a indústria musical e a própria música estão sob controle. Configura um perigo à cultura. Sobre o miami bass, bem, aqui rola toda uma história com a música ilegal. Proibidão! Cara, 2 Live Crew, tão ousados quanto podiam ser, virou contrabando. É que nem esse papo de filme com restrição de idade. Qualquer moleque pode comprar discos do 2 Live Crew, não tem jeito de parar o rock. Se a garotada quer, cara, não tem quem pare. Hoje é assim. A não ser que você tranque todos em uma masmorra. Mas engraçado é que esses movimentos de banir música acabam tendo efeito inverso. Os caras viram garotos-propaganda da contracultura, algo maior do que eles próprios.
» Tenho certeza de que ainda são frescas na sua memória algumas imagens das suas viagens ao Brasil. Quais são as mais fortes?
Eu gosto de contar às pessoas como são fodidas as favelas do Rio. Parada hardcore. Tá, juro que não estou tentando rotular tudo como gueto. As imagens mais importantes que tenho do Brasil mostram gente de todo tom de cor criando beleza a partir do nada. E aí tem um nível de energia muito intenso e único. Nunca vi algo parecido. Tem toda uma cultura feminina na música também, no canto e na dança, além dos sound systems. O surf, o freestyle old school. Amo o Rio, mesmo que tenha sido roubado em Copacabana. Mas aí eu estou em Bangu trabalhando com um produtor e sinto que não corro nenhum risco. Sem falar no povo aí, que é lindo. E lembro do sol gostoso sobre a terra arenosa das praias.
» Sempre houve aqueles que mandam uma música de abordagem mais abstrata e experimental e aqueles de vibração mais festeira, mais pista, até mais despretensiosa (exemplos: dancehall, grime, wonky techno), que fazem sons pro corpo, simplesmente. Essas duas pegadas podem coexistir? Música experimental faz a casa cair?
Não. A real é que as pessoas têm que tirar da cabeça idéias como "tenho que me mostrar na minha música" e "olha quão técnico eu sou". Música de verdade é energia. Estou tentando achar um ponto de equilíbrio entre ser bom tecnicamente e na engenharia da produção e ser cru e sentir aquele arrepio na espinha que sobe pelo corpo e faz dançar. Meu funk preferido agora, por exemplo, só tem duas notas e aquele negócio brasileiro esquisito de assovio. É só isso, bang, bang, bang, durante três minutos. Só tem uma música que é nerd e eu danço: "Windowlicker" do Aphex Twin. Quero fazer uma versão funk dessa. Sabe, às vezes eu sinto que sei demais e dói quando quero perverter uns ritmos, aí a coisa acaba soando estranha aos ouvidos americanos. Mesmo que tenha a batida, tipo o funk carioca. Pô, o Kraftwerk era assustador para caralho quando surgiu no rádio com aquelas vozes de robô. Mas foi um lance que começou uma revolução na música negra americana. Essas alemães fodidos!
» Então a humanidade está obcecada por ser inteligente?
Pois é. Que merda. Acho que é tudo culpa da maçonaria.
» Você é um hedonista?
Talvez eu seja um. Mas acho que ainda assim sou meio cristão. É que eu sempre penso como posso tornar as coisas melhores e essa é uma viagem meio Jesus. O Brasil me faz sentir um hedonista às vezes. Aí tem uma vibe estranha de egoísmo. Acho que está na água. Rola uma coisa de querer o que o próximo possui. Sempre mais, mais, mais uma arma, mais um carro, mais um cu.
» Há como justificar o hedonismo?
Não. A não ser que você seja da máfia, um gângster, uma puta por diversão. Mas aí é só seu trabalho. O meu é me esforçar pra ser criativo.
» Até onde vai o grime?
O grime é algo novo, mas é um movimento de raiz. Não vai mexer com um moleque daqui dos Estados Unidos tanto quanto com um de Bow, em Londres. Não vai marcar a humanidade como, sei lá, os Smiths. A turma do grime não vai fazer hits até lançar música normal. Cara, tipo os singles do Dizzee Rascal... mas ainda assim ele é o cara e faz bons discos, não se compromete.
» Como foi morar no Japão?
Olha, apesar disso que eu falei sobre o grime, cara, no Japão eles criam uma certa subcultura e vivem mesmo a coisa. Os rastas são mais de raiz do que o próprio Haille Selassie [imperador etíope, símbolo maior do rastafarianismo]! Sério, eu queria ver a garotada de lá colocar a mão na massa por um funk samurai. Mas tem o japanese pop também, né? Aí é foda, é o que liga.
» Você interage com o resto do elenco do Big Dada?
Não me relaciono nem um pouco. Com exceção do Spankrock, que veio da Filadélfia e do Hollertronix. E ele é o cara, é meu garoto. Só fiz meu disco no Big Dada porque foi o primeiro demo que enviei. E eles fizeram um trabalho competente por mim, acho.
» Você é um americano branco que faz e toca música tão particularmente relacionada à cultura negra. Como você acha que a comunidade negra que conhece o seu trabalho vê isso?
Não sei. Acho que tem gente que me odeia porque me vê como uma voz auto-proclamada do gueto. Sei lá como vim parar aqui, fazendo faixas para gente do naipe do Le Tigre à Gwen Stefani, da M.I.A. aos funkeiros, dos moleques do grime a Swisha house. Estou feliz de verdade com meu currículo. Mas eu só faço o que mexe comigo e o que me faz sentir que estou ajudando a música a avançar de alguma forma. E estou pronto para desistir a qualquer altura se sentir que não estou mais me emocionando com a coisa toda. Agora estou pensando na preparação de um DVD legal para lançar aqui nos Estados Unidos. Vou gravar quando estiver no Rio, durante outubro e novembro. Quero algo cru e não obcecado com o gângsterianismo e os peitos e as bundas. Beleza, são partes importantes da cena, mas eu quero trazer a energia e os sentimentos. Comunidade negra? Cara, acho que não existe mais algo como uma comunidade negra nos Estados Unidos. A Filadélfia é uma cidade negra. Prefeitos negros há anos. Eu já discotequei em inúmeras festas pra todas as comunidades negras. Às vezes foi estranho, mas eles não estão lá pelo DJ. Eles estão lá pela música, pela mais nova música, sabe? Mas eu me ligo bem na diversidade, aí que está a arte. Negro, mexicano, asiático, branco... Todos agregados, correndo atrás do que é fresco e excitante.
» Pirataria por Diplo?
Não estou nem aí. Não dá para controlar. Faço dez vezes mais dinheiro com mixtapes do que com contrato com gravadora, remixes etc. Eu comecei passando fitas na rua. O que acontece é que agora isso assumiu uma maior escola. Não é a forma certa de se pensar a longo prazo, mas funciona hoje. Agora que estou ganhando fãs, fazendo com que meu trabalho se torne familiar. Não estou em um selo gigante nem tenho assessoria de imprensa. Tudo que faço é no braço. Da internet para as festas para os mixtapes para as lojas populares. Eu posso não ser tão grandes quanto outros artistas que figuram em destaque nas grandes cadeias de lojas de discos, mas quando você puxa meu CD, é só uma caixinha preta. Daí você pensa "ei, peguei algo especial".
» O que você já lançou com a M.I.A. até agora?
Um mixtape e duas faixas que estão no álbum dela.
» Que mais pretendem fazer juntos em um futuro próximo?
Como acho que encontramos um som bem legal e original trabalhando juntos, quero ajudar na composição de todo o próximo disco dela.
» Próximos lançamentos?
Só mais uns remixes que estou fazendo para um grupo de funk, na verdade. Quero fazer tudo de uma forma totalmente diferente com esse. Me basta como elogio saber que esses caras do Rio vão me deixar remixar músicas deles. E tem os trabalhos novos que eu fiz para a Gwen Stefani, o Beck e o Le Tigre. Acabaram de sair. Também fiz umas batidas para o Spankrock. E eu vou para Houston trabalhar com a turma lá muito em breve, espero. E tem o outro álbum em parceria com a M.I.A.. E o projeto de funk que quero botar para acontecer em outubro. Aliás, vou precisar da ajuda de todos do Brasil neste. Também tenho um CD mixado de verdade saindo em outubro na série do clube Fabric, de Londres.
» Como está rolando a Hollertronix?
Estou no comando. Como grupo de turnê, está meio morto no momento. Mas ainda aprontamos umas na Filadélfia. Só queria mostrar o som para as pessoas. Assim, tenho registro da marca e estou tentando estabelecê-la tanto como DJ quanto como produtor. Existem muitos clones da gente atualmente, mas acho que se você pensa na fonte, não tem para ninguém.
» Por que "Diplo"?
Por que Sony? Por que Delta? Por que Uncle Beans?