"Batidão", M.I.A. e despedida
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"Batidão", M.I.A. e despedida
16.06.05 01:45
"Batidão"
Em abril eu comprei e li praticamente numa sentada o livro "Batidão – Uma História do Funk", de Sílvio Essinger. A proposta do livro em suas 278 páginas é contar a história do Funk Carioca, pegando a coisa lá nos primórdios, nos bailes promovidos no início dos anos 70 pelos DJs Ademir Lemos e Newton Duarte, o "Big Boy", e chegando até os dias atuais.

O livro é gostoso de se ler, mesmo por quem não gosta de Funk. Mostra que dentro do estilo existem diversas vertentes, e como o Funk faz parte de toda uma história urbana recente da Zona Norte do Rio de Janeiro. Se você quer entender melhor o Rio de Janeiro, recomendo "Batidão". Veja este trecho: "Se há uma música que expressa todas as contradições desse terceiro Rio de Janeiro, aquele que está mais próximo das experiências dos cariocas residentes e circulantes, é o funk. Funk carioca, diga-se de passagem. Pancadão, diga-se de outra forma. Neurótico, melody, new funk, comédia, proibidão ou erótico, como é conhecido em suas variações. Mas não precisa complicar: é simplesmente como funk que todos o reconhecem e assim denominam tanto as festas em que ele é tocado - bailes funk - quanto os seus ouvintes/dançarinos/seguidores/ideólogos - funkeiros."


"M.I.A."
Se você ainda não conhece, anote aí o nome da grande sensação da cena musical de 2005 (já foi capa da Urb americana e da I-D inglesa): M.I.A. (leia-se "maia", abreviatura de "missing in action", ou "desaparecido em combate"). Este é o nome artístico adotado por Maya Arulpragasam (foto), filha de um casal do Sri Lanka nascida em Londres.

Quando Maya tinha seis meses de idade seus pais voltaram para o Sri Lanka. O pai se afastou da família pouco tempo depois, para juntar-se a um grupo separatista (os Tigres Tamil, que lutam pela independência de parte da região norte do Sri Lanka) na ativa até os dias de hoje. Com 10 anos de idade ela se viu de volta a Londres, e se graduou em artes (com ênfase em cinema e vídeo) na Central Saint Martins Art School.

Logo depois de formada, Maya fez uma exposição individual de arte com trabalhos em pintura spray e stêncil que remetiam às memórias da guerra no país de seus pais. A exposição foi indicada para um prêmio (o alternativo Turner Prize), todas as obras foram vendidas e ainda foi publicado um livro sobre a coleção intitulado simplesmente "M.I.A.". Uma carreira em artes começava a decolar.

Aí Justine Frischmann, que era da banda de rock Elastica e dividia um apartamento com Maya, a convida para fazer a capa do segundo álbum da banda, "The Menace". Maya fez a capa do álbum e de um single, filmou um clip para a faixa "Mad Dog" e foi de câmera na mão filmar uma turnê do Elastica por 40 estados americanos. E pra quem o Elastica abriu a maioria dos shows? Peaches, que a apresentou ao equipamento Roland MC-505 e a incentivou a se dedicar a uma forma de arte na qual até então ela se sentia pouco confiante em seu talento: música...

De volta a Londres, Maya pegou o 505 da amiga Justine e fez a faixa "Galang", uma mistura de dancehall, electro, grime e world music, lançada em single pela Showbiz Records, com apenas 500 cópias. E aí deu no caderno de cultura do Sunday Times (a "Folha" dos ingleses):

"M.I.A. HAS THE LOOK, THE LYRICS, THE PROFILE, THE MONGREL BEATS TO BE HUGE. IF THE MAJORS HAVE ANY SENSE, THEY'LL PILE IN."

"Arular" (nome de guerra do pai) é seu primeiro álbum, e tem de tudo, inclusive uma forte influência de funk carioca. Ela já virou queridinha da imprensa especializada americana, e o disco faz por merecer: hoje com 28 anos, M.I.A. é sucesso sendo autêntica, original e com um trabalho de alta qualidade. Anotem este nome!

Despedida
Esta é a última edição desta coluna. Agradeço ao rraurl e aos leitores pelo espaço que me deram em suas vidas nestes pouco mais de dois anos de Zona Franca. Valeu, a gente se encontra por aí!

Ivo Michalick
Ivo Michalick
Ivo Michalick é um mineiro inquieto de olho arregalado, que por onde quer que vá logo começa a agitar as coisas.
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