Ellen Allien
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Ellen Allien
Alemã é convidada do Nokia Trends em setembro
10.06.05 01:45
Ellen Allien. Vivenciou e colaborou com a melhor época do techno de Berlim, o começo dos anos 90. Integrou o casting do extinto selo germânico MFS – o importante Masterminded For Success, que foi responsável pela compilação de trance "Trance formed from Beyond", em 1992.

No fim do ano passado, na coletânea "My Parade" ("sua parada", já que a berlinense Love Parade não rolou em 2004), Ellen viajou no túnel do tempo. Entre "Mantra", do CJ Bolland, "Squance", do Plaid (Black Dog e WARP), "Always", do Midi Rain, e músicas novas, o disquin da parada da moça é fundamental. Detalhe: Seus sets em pistas também costumam transitar por diversas referências. Ellen, que toca de acid house ao minimal techno dos British Murder Boys, em horas soltando um terceiro disco com "Billie Jean", do Michael Jackson, vem aí em setembro, no festival Nokia Trends.

Este espírito é a cara da berlinete, um retrô enxergado por quem pensa no amanhã. Estas idéias foram colocadas em prática quando Ellen criou (no final dos 90, começo dos 2000) o Bitch Pitch Control, seu segundo selo, que hoje já tem mais de 100 lançamentos.

Seu disco de estréia, "Stadkind", é altamente recomendado. IDM, micro-sampling, break beat, vocal único (geralmente cantado pela própria em alemão), ruídos, distorções, tecno, synths melódicos... Exatamente o que vem consagrando a produtora. Vanguarda? Sim, se é que isto compreende aquilo que se faz diferente do que já foi produzido anteriormente.

Fã de David Bowie, Ellen não tem medo de ser pop. Nem liga pra isso, na real. Aliás, suas faixas são pops, no melhor sentido desta palavra: acessível. Por mais que tenham um quê de esquisitice. Ellen, que felizmente é uma artista que não sela suas músicas com prazo de validade, é uma das mais ferrenhas artistas que pregam a arte da re-invenção.

Amor, música, novo equipamento, inverno melancólico, destino, BPitch e futuro estão na entrevistinha abaixo. E uma coisita para a reflexão: sonhadores são sinônimos de desleixados futuristas? Ellen Allien é divulgada por aqui pelo seu futurismo e música inventiva. OK. Só que a garimpeira, que parece olhar bastante lá na frente, contou que tem seus pés fincados no chão. Não que isso impeça Ellen de sonhar, imagina, mas exemplifica também que não é só de futuro que vive um artista visionário.


» "Thrills" parece ser seu álbum mais pessoal...
Eu não diria que Thrills é o meu álbum mais pessoal. Todos os meus discos são bastante pessoais porque eu os uso como um diário. Eu gravo meus sentimentos, emoções, desejos, experiências e transformo em matéria. Uma parte de mim está em cada um deles. É assim com meus singles e remixes também. No geral, eu vejo a música como algo muito pessoal e introspectivo. O caminho de fazer música é poder me transportar, é a asa da minha alma. Tudo que está dentro vai para fora. A principal razão de criar música é me sentir em um único e profundo caminho.

» Muitas pessoas ao redor do mundo não sabem se amar. Talvez isto seja o berço de muitos problemas sociais, guerras... Mas eu acredito que entre nós, temos muitos guerreiros que lutam pela paz. Os artistas podem ser exemplo para a sociedade. O que você, que é toda apaixonada pela vida, pensa sobre isto?
O mundo é ruim e lindo ao mesmo tempo. Toda hora, nós estamos envolvidos com política. O que está acontecendo no mundo a fora é a base para você tomar as decisões certas. Isto começa no café da manhã, o que você usa para escovar os dentes, se você vai dirigir um carro, se você usa roupa produzida em países pobres... Antes de eu decidir que ia produzir músicas, eu era uma pessoa triste. A música realmente mudou minha vida e sou capaz de respirar. A Arte é necessária para abrir os olhos e os corações das pessoas, isto pode transportar uma mensagem e informar. É também muito importante que as pessoas façam algo que as deixem feliz e traga diversão. Assim, todos podem encontrar sua energia positiva. Eu sei, não é possível para todos no planeta, mas alguém tem que começar. O melhor é quando nós podemos sentir que conseguimos mudar alguma coisa ruim, evitar assim uma guerra e a tristeza.

» Na entrevista à XLR8R [Ellen é a capa da edição de abril da revista norte-americana], você disse que descobriu como amar a música, quando se envolveu com o techno pelas primeiras vezes, depois de ter 'deixado' o hip hop. Estes tempos estão refletidos em "Thrills"?
Claro, "Thrills" vai direto às minhas raízes. Isto combina minha base com minhas atuais influências. Então você pode ouvir o amor e o alívio que eu senti. Isto está materializado no "elechtech", um techno que possui influência de electro, acid e de tecno mesmo. "Thrills" é também o diário de meus últimos dois anos depois do "Berlinette" [seu segundo álbum]. Muitas coisas aconteceram e eu tenho seguido meu destino, tenho sentido muitas boas vibrações. E quando o ouvinte pode sentir isto? Demais!

» O que mais te influenciou e está registrado no álbum de 2005?
O equipamento que usei foi muito importante pra mim. Eu comprei um Arp 2600, que eu já estava de olho há dois meses. Isto criou uma nova conexão "human-machine". Me permitiu maior criatividade e improvisação. O inverno de Berlim também me influenciou. Das 12h da manhã às 12h da noite, eu estava sentada em meu estúdio, durante janeiro inteiro [2004]. O inverno me injetou melancolia, mas foi um ótimo sentimento de liberdade e de possibilidade de criar as coisas que eu amo fazer. Me sentia livre e continuo assim.

» Você curte planejar o futuro?
Curto! É muito importante pra mim. Uma vez comecei a fazer um plano de cinco anos e foi o melhor para eu me enxergar e rever minhas habilidades. Isto me deu muita força e abriu o caminho que eu gostaria de ir. Também me deu tranqüilidade, mas sou uma pessoa com meus dois pés no chão.

» O BPitch Control nunca lança uma música muito igual à outra. Os artistas são diferentes uns dos outros. O que chama sua atenção quando ouve as demos?
A música tem que fazer alguma coisa comigo, tenho que sentir meu corpo quando estou ouvindo. É lindo ver que nós temos diferentes interpretações e idéias da dance music. Nós todos nos assistimos e trocamos nossas idéias, o que é muito importante. Eu preciso sentir inovação, frescor e novidade quando eu penso em lançar novos artistas. Mas, em fato, tem muita gente... Nós somos uma grande rede interligada e com isto nós somos partes umas de outras. Temos que sentir que o artista deverá fazer parte de cada sistema, que tem mais a ver.

» O que acha daqui?
Ah, definitivamente tenho que conhecer mais sobre o Brasil. Toquei em duas cidades [SP: no after Paradise e na Ambiance, do antigo Susi, e BH, no festival Eletronika], mas eu nunca viajei por todo o país. Mesmo assim, o pouco que vi me impressionou bastante. É uma cultura diferente, uma forma diferente de viver, foi interessante para eu sacar isso. Eu vi um grande buraco entre os ricos e os pobres, o que não é nada óbvio aqui na Alemanha. Eu comecei a pensar sobre isso. A sua cultura musical é muito divertida e mais corporal mesmo. Eu amo isso, porque minha música é sobre dançar também.

Felicio Marmitex
Felicio Marmitex
www.twitter.com/feliciomarmitex
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