Anthony Rother
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Anthony Rother
Daquilo que nasce de homens e máquinas
08.03.05 01:45
Todo mundo que cerca Anthony Rother o chama de Mr. Rother. Parece até que o autor das grandes "Redlight district", "Little Computer People", "Sex with the machines", "Destroy him, my robots" e "Simulationszeitalter" é uma entidade sombria, enigmática, de tempos remotos, até porque é fácil remeter essa imagem às marcas sintéticas, maquinais, metálicas e aparentemente frias do electro germânico.

Pois me enganei - Rother, ao conversarmos, era só risos, simpatia e abertura. Uma das atrações mais notáveis do line-up do Skol Beats desta edição, até porque destoa de todo o resto, o mestre é um dos grandes responsáveis pelo aperfeiçoamento e pela difusão do electro nos anos noventa, tanto na Europa quanto no mundo inteiro. Produtor desde 1988, é referido por fãs como o quinto membro que faltou no Kraftwerk. E, de repente, Karl Bartos, um dos integrantes que passaram pelo quarteto de Dusseldörf, até sabe disso. Ele foi um dos artistas que já remixaram Rother. Heiko Laux, do obrigatório selo Kanzleramt, foi outro dos seus principais parceiros, que são poucos, aliás.

Rother é hoje responsável por três selos: o novo Stahl, pelo qual acaba de lançar seu mais recente álbum, "Art is a technology"; Datapunk, que lançou "Popkiller" e tem um apelo mais acessível, direcionado para pistas; e o mais clássico do trio, o Psi49net, que inclui a maioria dos seus álbuns e faixas de renome. Tudo tem selo do Inmetro. Nota inaugural de aquecimento para o Skol Beats deste ano, a entrevista a seguir é a primeira que Anthony cede à imprensa brasileira.


» Sério que o equipamento que você leva para as apresentações pesa centenas de quilos? Pelo que sei, é por isso que você não se apresentou no Brasil até o momento.
Poxa, tentaram data aí antes e não deu certo? Que pena... Nem fiquei sabendo, tem uma pessoa específica que cuida dos bookings para mim. Bom, esse pode ter sido um motivo forte para não ter dado certo mesmo. No total, meu equipamento pesa 200 quilos.

» Até que ponto o fato de você se apresentar aqui em um festival e não em um clube vai interferir na sua música?
Ah, realmente influencia. Não dá para olhar nos olhos das pessoas de perto, a conexão fica mais difícil. Em um clube, o diálogo é mais eficiente. Mas, quanto à música em si, só vou saber na hora, sentindo as pessoas e o ambiente. Meu live é bastante variável. Trabalho muito com improvisação e busco sempre criar algo diferente.

» Então, recentemente ouvi um cara fazendo um live act no Commodore 64 [computador produzido de 1982 a 1993 e originalmente criado para funcionar como videogame que é ainda utilizado por alguns produtores de electro para fazer música] e...
Nossa! É sério? Quem?

» É, foi o Tero, daquele selo Rikos, da Finlândia. Comento porque sei que foi o primeiro equipamento que você usou para produzir. O que você acha do electro que ainda é feito com esses equipamentos beeem old-school?
Ah, o Tero que fez um remix de Little Computer People para mim. Olha, que incrível. Acho muito romântico. Hoje eu não uso mais o Commodore 64, mas mantenho um banco de samples dele. Eu acho que esses equipamentos antigos, ao mesmo tempo que limitam os recursos de um produtor, dão liberdade de criação porque têm possibilidades ainda desconhecidas... era assim que eu me sentia em relação ao Commodore 64.

» Apesar do electro ser um movimento de importância ao redor do mundo, não há muitas festas do gênero... Por que você acha que isso acontece?
A mídia e os promoters em geral, ou seja, aqueles que estão no poder, não fazem um investimento sério no electro. O electro sobrevive por conta daqueles que são apaixonados por ele. E estas pessoas não estão nem aí se ele é grande, se as festas estão enchendo e por aí vai.

» E desculpa falar no maior clichê das entrevistas com produtores de electro, mas o electroclash foi uma coisa que comercialmente deu certo...
É, realmente, deve ser uma das questões que mais surgem em entrevistas. E quando me perguntam a respeito, digo que achei válido. Achei válido porque mostrou possibilidades de fusão do electro.

» Mas, em termos de atitude, não correspondeu ao conceito consagrado de electro. O Underground Resistance e o Drexciya, por exemplo, eram de postura bem reservada, enquanto que o electroclash pregou hype em cima de hype...
Olha, eu diria que o hype não é a música. É bom dissociar uma idéia da outra. E eu trabalho com um sentimento underground, não posso julgar aquilo que não me agrada. Está lá, à parte. Posso falar do que gosto. Mas o mundo também não deixa tudo certinho, preto no branco. Posso sentir que é uma merda, mas vou continuar fazendo as minhas coisas.

» Você acha que o electro vai ser sempre relacionado a coisas como ficção científica, futurismo e robôs ou vai transcender esses lugares-comuns?
Hm... acho que sim [risos]. Acho que vai ser sempre ligado à alta tecnologia, que é uma característica chave da cultura contemporânea e casa perfeitamente com essa música. Eu acho que o electro é uma via sonora de descoberta de tempos que, se pensamos logicamente, são inacessíveis. E esse estilo de vida que sugere a integração entre robôs e humanos também combina muito com os dias atuais.

» Tá, e o que será que vai nascer se os humanos continuarem trepando com as máquinas? [Um dos mais famosos álbuns de Anthony Rother se chama "Sex with the machines"]
[ataque de riso]

» É sério, você já parou para pensar?
Ainda não, mas é uma pergunta excelente. Eu acho que vamos ter que descobrir juntos. Algum ser ainda não-identificado! [mais risos]

» Qual a diferença entre uma faixa e uma canção?
Eu vejo uma canção como uma obra de arte, um trabalho inteiro, fechado, concluído. Já uma faixa é apenas uma parte de um todo.

» Hoje eu estava ouvindo o "Art is a technology", seu álbum mais recente, e pensando no que passava pela sua cabeça quando o produziu... claro que não é seu primeiro trabalho de ambient, mas é mais freqüente ouvir coisas suas com bases de electro e techno.
Então, eu tinha acabado de sair de um trabalho bem intenso, que foi a produção do "Popkiller", e tive vontade de expor essa minha pesquisa com música mais experimental. O "Art is a technology" deve ser meu trabalho mais minimal e ambient até hoje.

» A palavra que me vem à mente é "puro"...
É, exatamente, o sentimento de pureza atravessa o álbum. São seqüências de sintetizadores absolutamente sem batida.

» E em seguida tem o lançamento do "This is electro", né?
Isso, vai ser uma caixa com um DVD e duas compilações não-mixadas. Sai em maio. O DVD vai ter apresentações minhas em clubes e os CDs compilam algumas das minhas melhores faixas com 5 novas, "Adam and Eve", "Lucifer", uma que assinei como Little Computer People, "Forever" e... ih... esqueci. Mas vai ficar bem legal.

Jamille Pinheiro
Jamille Pinheiro
Várias vezes.
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