John Peel (1939-2004)
28.10.04 00:45
O mundo ficou mais pobre terça passada (26/10). Morreu o DJ inglês John Peel, de parada cardíaca, enquanto viajava pelo Peru. Era o mais conhecido e querido representante de sua classe no Reino Unido. John Peel não tocava em três pick-ups e duvido que soubesse fazer um scratch. Não, consta até que chegou a tocar discos na velocidade errada. John Peel era um DJ de rádio, dono de um programa que desde os anos 60 apresentava novidades de toda espécie musical ao mundo.
Ele tinha uma característica que deveria ser obrigatória a todos os DJs, de rádio, de clube, de rave, do diabo a quatro: uma sede insaciável por música. Sua devoção se traduziu na seguinte missão: garimpar os melhores e mais excitantes sons do momento e mostrá-la ao mundo. Foi o primeiro DJ de rádio a tocar demos de bandas desconhecidas. Além disso, trazia artistas para gravar sessões nos estúdios da Radio One, da BBC, a rádio onde ele era residente desde 1967. Centenas dessas Peel Sessions foram lançadas em disco ao longo dos anos, rendendo documentos sônicos de alto valor.
Há quatro décadas ele introduzia nomes como Velvet Underground, Jimi Hendrix e David Bowie. Na década seguinte, foi gente como Sex Pistols, Ramones, The Clash, Joy Division e Buzzcocks. Nos anos 80, Pixies, New Order e Public Enemy. Com a acid house, Peel abraçou a música eletrônica com o mesmo entusiasmo e sinceridade com que ele tinha divulgado Captain Beefheart ou T. Rex na era hippie. Tocou de Orbital a Autechre, de Daft Punk a Stay Up Forever. No rock dos últimos 15 anos, nomes como Nirvana, Pulp e White Stripes passaram pelo seu estúdio.
Mas Peel nunca foi de fechar num gênero, pelo contrário, o ecletismo de seus programas chegava até a incomodar alguns fãs. Sua coleção de discos é uma galáxia, por causa dela teve que construir uma extensão na sua casa. Uma empresa americana ofereceu agora mais de um milhão de libras pelo acervo, mas parece que a Biblioteca Nacional Britânica também quer.
Nascido em 1939, Peel é um modelo de como envelhecimento pode significar evolução, e não estagnação. Sua empolgação por música nova continuava intensa e autêntica. Seu estilo de apresentação, sóbrio e sábio, era um bálsamo em meio a verborréia histriônica que parece ser pré-requisito para um cara ser locutor de rádio para "jovens".
Jovens? John Peel é um cara que faz a gente rever esse conceito. Enquanto tanta gente com menos de 30 anos já acumula teia de aranha no cérebro, há poucas semanas um tiozinho de 65 anos recebia Laurent Garnier e Jeff Mills para gravar sets para o seu programa. Mal sabia que era a última vez que iria ouvir a voz de John Peel. Isso é triste demais.