Dave Angel
Inglês que veste o techno de funk e jazz volta ao Brasil no BMF
20.09.04 01:45
Nicholas Gooden, de 38 anos, começou a ficar conhecido com um remix de sucesso para "Sweet Dreams", do Eurythmics. Depois, em 1995, mixou "X-Mix 4: Beyond The Heavens", um dos melhores discos da série. Mas foi no ano seguinte, com o álbum "Tales of the Unexpected", que a sua face de produtor garantiu aplausos perpétuos. Fora que, dos produtores britânicos, ele foi um dos primeiros a integrarem o elenco do R&S, um dos selos mais importantes da história da música eletrônica. Comemorado hoje pelo mondo techno como um herói, Gooden, de Chelsea, Inglaterra, é Dave Angel.
Mesmo que tenha, de alguma forma, absorvido os sons arredores, a formação do cara não se enquadra em nenhuma escola tradicional dentro da música eletrônica inglesa. Ele não é da liga de celebridades que tomou banho em Ibiza durante o boom da acid house, nem exatamente da turma que se formou no Lost ao som do techno inglês do Black Dog, nem dos que viveram intensamente o hardcore techno e o jungle. Há duas palavras definitivas no background musical de Angel: jazz e Detroit. A estética do techno da Motor city, imortalizada em cordas, synths e seqüências simples de batidas, teve eco na música do inglês desde muito cedo. Paralelos com produtores como Kenny Larkin e Carl Craig são bastante possíveis. O diferencial é que Angel foi um dos agentes da exportação e "europeização" do techno de Detroit. Já o jazz, que Angel viveu muito em contato com o pai, músico já falecido, o ganhou via artistas como Miles Davis, John Coltrane, Thelonious Monk e Charlie Parker.
Angel, que discoteca há cerca de vinte anos, fundou o selo Rotation em 1993. O reconhecimento do EP Sea of Tranquility, de sua própria autoria, foi o pontapé inicial na história do selo que, também ao lançar gente como Vince Watson, Cisco Ferreira e Jamie Anderson, se estabeleceu como um dos mais valiosos do Reino Unido se o assunto é eletrônica.
De Swindon, cidade pacata onde reside atualmente, Angel nos atendeu. Já vive a expectativa da sua apresentação no Brasília Music Festival, que rola a partir da meia-noite e meia da madrugada de sexta para sábado. É a quinta vez que o britânico vem ao Brasil.
» Você acaba de voltar daqui. Que lembranças levou?
Pois é, estive aí há duas semanas. Estou muito impressionado com o clube no qual toquei, o Lov.e... que pessoas incríveis, que atmosfera incrível! Minha lembrança é de que tudo foi absolutamente perfeito.
» Que outras vezes você já nos visitou?
Toquei no Rock in Rio e no Skol Beats. E teve um outro clube também, do qual não lembro o nome. Isso deve ter uns seis, sete anos. Talvez nem exista mais [B.A.S.E].
» Qual a característica principal do Rotation, seu selo?
DJs precisam de material novo constantemente. Minha intenção com o Rotation é ajudar a fornecer esse material. E que seja um material de qualidade, já que tem muita coisa tosca saindo também.
» E você achou pérolas como o Vince Watson e o Jamie Anderson.
Sim, o legal é que eles sabem combinar funk e melodia. Nos conhecemos, a início, através da música. Eles enviaram demos para o Rotation e resolvi lançá-los. Mais tarde, nos tornamos amigos.
» Dentro dessa proposta de música para pistas, que selos você elege como os melhores do momento?
Eu acho o Jericho incrível. Tem também o Rotation, do qual já falei [risos], e o V Recordings, de drum'n'bass, que é do meu amigo Bryan Gee e eu gosto de ouvir em casa.
» Como vai o seu trabalho com a banda The Nebulae?
Estou produzindo pra eles. É um trabalho com batidas quebradas, tipo trip hop, drum'n'bass... Vamos ver. Está bem interessante, mas não sei quando sai esse material.
» Se você pudesse ressucitar alguém para fazer um trabalho em parceria, quem seria?
Miles Davis, Jimi Hendrix, Marvin Gaye... só mais um, peraí... Charlie Parker! É isso, eu gostaria de explorar essa proximidade entre o jazz e o techno com eles.
» Você parece ser fã do techno sueco e do techno napolitano. Desculpa, mas não acha que ambos estagnaram nos últimos anos?
Ah, sim, sem dúvida. Eu já me toquei disso, concordo com você. Você tem, na sua frente, toda uma gama de equipamentos que dão inúmeras possibilidades criativas. Acontece que se você não fizer um movimento para ir além do óbvio, ou além do que já foi explorado, você fica preso. E aí as coisas viram fórmula mesmo. Mas tem muito bom techno saindo mundo afora.
» Será que o movimento que as pessoas fazem para criar música de vanguarda é consciente ou ela simplesmente acontece?
Acho que é consciente. Essa é uma das intenções de toda essa cultura que vivemos, não? E o mais interessante é que há todo um senso de comunidade. É um esforço coletivo e mundial pelo novo. É muito bom sentir que estou conectado com gente de toda parte através da música. É uma linguagem mesmo.
» O Trust the DJ, que hospedava o seu site, não rola mais, né?
É, já era. Eu tinha um contrato com eles e lancei três coletâneas mixadas, a DA01, a DA02 e DA03.
» De todos os seus CDs mixados, qual representa melhor a sua carreira como DJ?
Difícil essa, hein? É que eu toco muitas coisas. Cada um dos meus álbuns mixados pode me representar. Mas, considerando todos, eu diria que o X-Mix foi um trabalho bem importante. A realização foi difícil e o resultado ficou muito bom. Além desse, eu destacaria o DA01 e o duplo 39 Flavours of Tech Funk.
» Tem vários grandes nomes da discotecagem, como o Dave Clarke e o Laurent Garnier, usando CDs na boa. Você abraça a idéia?
Não, não. Sou um cara oldschool. Comigo, só vinis.
» E agora? O que você está aprontando?
Continuo tocando por todo o mundo, sem parar. Produzo mais material para o Rotation, planejo álbuns mixados e faço aquele trabalho com a banda. E tem meu próximo álbum pessoal, que deve vir em janeiro.