
Ah, o Just a Fest...
Início promissor. Radiohead no Brasil, ingressos vendidos com bastante antecedência. Organização exemplar, logo me ocorreu.
Mas essa impressão começou a mudar já na hora da compra do ingresso. R$ 200? Um roubo. No Chile, as entradas (que acabaram em dois dias de venda) custavam entre R105 e R$215. Na Argentina (com ingressos esgotados em horas) R$ 150. No México, tinha setor que custava míseros R$ 36, sendo que a entrada mais cara saía por R$ 172.
Compra pela internet? Mais pilantragem. R$ 40 a título de "taxa de conveniência". Conveniência para quem? Certamente não para o comprador. Basta dizer que caso eu quisesse que os ingressos fossem entregues em minha residência, teria que desembolsar outros R$ 8. Preferi eu mesmo pegá-los.
Dia do show, São Paulo. Ameaça de chuva. Lembranças do Claro que é Rock!, 2005. Lama e sujeira por todo o lado devido às chuvas. Sorte de todos que, dessa vez, a água ficou só na ameaça.
E ninguém avisou à produção que a longínqua região do local escolhido estaria em obras? Congestionamento monstro em pleno domingo para se chegar à Chácara do Jockey. Vencido esse percalço, mais uma facadinha no bolso. Insólitos R$ 35 para parar o carro em um morro escuro e lamacento. Apenas uma entrada e uma saída para pelo menos 5 mil veículos. Tudo de acordo com a proposta ecológica de show com compensação de carbono do Radiohead.
Hora de retirar os ingressos. O local: uma pseudobilheteria mal sinalizada há cerca de um quilômetro da entrada do show. Bem, a essa altura já devia saber que a produção do Just a Fest não tinha como objetivo facilitar a vida de ninguém. Mas pelo menos não havia fila para fazer a troca. Coisa que não podia ser dita da entrada. O único acesso para o espaço do show era para ninguém esquecer o trânsito da chegada (e serviu como um mau presságio para a saída).
Lá dentro, filas para os poucos banheiros (muito gente mijando pelos cantos) e bagunça para comprar bebidas e comida. Aliás, como se não bastasse o roubo sofrido até aqui, era preciso gastar R$ 5 por uma lata de cerva e R$ 8 por um pedaço de pizza. E que tal umas cestas de lixo? Avistei talvez umas três nas áreas de compra de alimento. E só.
E caso o fã quisesse um souvenir do show antológico, tinha camiseta a R$ 70. "Nada mais justo", me disse uma das vendedoras. "São feitas com fibra de garrafa pet". Ah, ok. Camiseta reciclada a preço de produto de grife. É desse jeito mesmo que se incentivam ações como essa.
E a saída? Todo mundo se dirigindo para o mesmo local de entrada. As saídas de emergência continuaram fechadas. Como disse um amigo, sorte que era um festival indie, que são muito "estyles" para fazer quebradeira e revolta.
Mas o pior ainda estava por vir.
Como havia pensado assim que cheguei, o caos se instaurou no "estacionamento". O pessoal que deveria coordenar a saída havia desaparecido. Carros surgiam por de trás da mais insuspeita das moitas. Pessoas dormiam enquanto aguardavam as cerca de DUAS HORAS para chegar às ruas (e esse foi o tempo que eu levei. Soube de gente que precisou de mais).
Não é possível que a produção de um evento desse tamanho cobre tanto e desrespeite tão acintosamente o público. É preciso que nós, consumidores, façamos alguma coisa. Advogados de plantão, que tipo de reclamação ou ação judicial caberia? Abaixo assinado? Procon? Não sou ingênuo a ponto de pedir boicote (até porque eu seria o primeiro a pagar para ver o Radiohead de novo), mas é preciso fazer que as pessoas responsáveis por produzir eventos no Brasil deixem de lado o fator lucro e dêem mais atenção a pequenos detalhes como o público pagante.
Sobre os shows...
O Los Heramanos é aquilo, mesmo. A diferença é que dessa vez eles nem a fim de tocar estavam.
O Kraftwerk é histórico e tal, mas esse show já cansou. Tá na hora de bolar alguma coisa nova.
Radiohead me fez chorar quando tocou Fake Plastic Trees. Certamente o melhor show que já aportou por esses lados do mundo.
Foto: Marcos Hermes/Divulgação
É claro que o assunto de hoje é Just a Fest. Apesar de eu não gostar de Los Hermanos, foi bonito ver a enorme quantidade de fãs dos caras que compareceu ao show. E fazendo jus à fama de chatos, alguns desses fãs reclamaram após a apresentação de que arranjos estavam deslocados e que as letras foram esquecidas pelos músicos em alguns momentos.
É lindo ver como o Kraftwerk toca em assuntos tão atuais na música eletrônica. Enquanto tem gente que ainda tenta descobrir se o Daft Punk ou Justice realmente tocam ao vivo, os tiozinhos alemães já diziam há muito tempo com seus robôs sobre o palco: esqueçam isso e aproveitem o espetáculo! Não faltaram referências à Bauhaus e à música concreta.
E, claro, Radiohead. Depois da resenha do meu amigo Jade Gola, não sobrou muito a dizer. Mas admito que o show superou todas minhas expectativas. Quase tive um ataque do coração com "Everything in Its Right Place" e "Reckoner". Abaixo, alguns vídeos da apresentação do ano.
Reckoner
15 Step
Everything in Its Right Place
Optimistic

Rodrigo Amarante certamente não é o músico mais importante da sua geração, mas alguma coisa nesse carioca de 32 anos garante que toda a banda em que se meta vá para frente. Tanto que apenas 18 meses após a pausa dada ao Los Hermanos, colhe o sucesso inesperado de seu "projeto paralelo", o Little Joy.
A nova banda - que acaba de lançar um disco homônimo - é fruto de uma experiência de Amarante com o baterista do Strokes, Fabrizio Moretti, e com a norte-americana Binki Shapiro. "A gente não se reuniu imaginando ou projetando nada. Foi exatamente o contrário. A gente só queria fazer música pelo prazer de fazer música com qualidade e pela oportunidade de trabalhar com pessoas com idéias parecidas", esclarece Rodrigo em uma rápida entrevista por telefone durante uma passagem de som para o show em Belo Horizonte no último dia 30.
O Little Joy começou a ser concebido após um encontro entre os dois brasileiros em um festival em Portugal em 2006, mas só foi possível depois do stand by dado ao Los Hermanos, em 2007, quando Amarante se mudou de mala e cuia para Los Angeles, e os três começaram a fazer música "entre amigos".
Mas apesar da despretensão do Little Joy, o sucesso do projeto entusiasmou os participantes de tal maneira que eles já fazem planos de continuidade para depois da parada que a banda será obrigada a fazer para que Moretti participe da gravação e divulgação do novo disco do Strokes, o que deve acontecer em março. "Os três querem dar continuidade, já que a receptividade do disco e a turnê estão sendo tão legais", diz.
Não é a primeira vez que Amarante se surpreende com um projeto paralelo. Em 2002, no auge do sucesso do Los Hermanos, ele participou da big band Orquestra Imperial, que também experimentou um sucesso acima das expectativas dos participantes.
Sobre os dois shows do Los Hermanos no festival Just a Fest, juntamente com o Radiohead, em março, Amarante entristece os fanáticos fãs da banda garantindo se tratar apenas de duas apresentações. "Não temos planos de voltar ainda."
Leia trechos da entrevista:
Como você vê a repercussão do Little Joy, uma banda que teoricamente seria um projeto paralelo seu e do Fab Moretti?
Acho maravilhoso. Tudo o que está acontecendo com o Little Joy foi surpreendente. Estamos muito felizes. Não imaginava que a banda pudesse ficar tão falada e requisitada.
Fale um pouco do começo da banda. Quando vocês se reuniram, o que tinham em mente?
A gente não se reuniu imaginando ou projetando nada. Foi exatamente o contrário. A gente só queria fazer música pelo prazer de fazer música com qualidade e pela oportunidade de trabalhar com pessoas com idéias parecidas. A gente não faz música pensando qual o sucesso que vai fazer ou qual a repercussão que vai ter. Isso acontece naturalmente mais para frente. É um "esperar para ver", não dá para perder tempo projetando. A gente está super feliz de fazer esse disco e realizar essa turnê. O que vem além disso é bônus.
Como aconteceu o processo de composição das músicas e das letras? Certamente você fez as letras em português...
Não fiquei cerceado à essa parte, não. Fizemos o trabalho todo em conjunto, de composição e de arranjo. A maior parte das letras foi feita pela Fabrizio, mas fiz letras inteiras em inglês, como How to hang a Warhol.
O Los Hermanos faz um show no Just a Fest, juntamente com o Radiohead em março. Isso significa uma volta da banda ou é apenas ou show?
É só um show... Não temos planos de voltar ainda. Continua o stand by por tempo indefinido.
E o Little Joy? Vocês já fazem planos para uma nova reunião ou estão apenas pensando na turnê...
Estamos fazendo planos para continuar. Os três querem dar continuidade, já que a receptividade do disco e a turnê estão sendo tão legais. Mas não sabemos exatamente como vai ser. O Fabrizio volta ao estúdio logo depois da turnê para fazer o novo disco do Strokes, daí ele terá divulgação, turnê e tudo aquilo. E eu tenho o Los Hermanos. Mas queremos continuar por mais que nossas agendas estejam concorridas.
O nome da banda é uma homenagem a um bar que os três frequentavam, é isso?
É um bar na esquina perto de onde nós três morávamos em Los Angeles, na Portia Street. Nós tínhamos montado um estúdio em casa, e por causa disso, passamos a frequentar muito o bar. Porque quando você faz da casa o trabalho, quando se quer relaxar, precisa ir a outro lugar. Resolvemos que seria uma homenagem justa.


