Além de ser professor de yoga, músico e cultivar cabelo rastafari, o MC norte-americano Sumach Ecks traz a tona a questão da música eletrônica X ritual religioso com o seu projeto Gonjasufi. Não trata-se de trance místico. A nova aposta da inglesa WARP Records faz um hip hop pscicodélico bem classudo. Os mantras ruidosos do álbum de estreia "A Sufi And A Killer" foram produzidos pelos bruxos The Gaslamp Killer, Flying Lotus e Mainframe, pupilo de J.Dilla.
Os caras entupiram as rimas de Gonja com delays, reverbs e outros efeitos mirabolantes e analógicos. É como se pudessemos ouvir os conflitos e as vozes internas do MC que se isolou dos parceiros no deserto de Nevada durante a composição do disco. Sozinho, ele pôde ouvir seus pensamentos mais profundos.
Como bom espiritualista, aproveitou da arte para exprimir sentimentos e ambições pessoais, ele costuma dizer que faz música para evitar ser uma pessoa ruim e perigosa para o mundo. Afinal, o "killer" do disco fica por conta do seu amigo Gaslamp.
Mas mesmo assim, não é preciso se preocupar, caso ele pare de fazer música. O MC, que estudou a cultura do Islã ao lado de mulçumanos na faculdade, é adepto do sufismo pelo víes místico da ceita. Esses sufistas procuram uma relação direta com Deus através de cânticos, música e danças.
"As pessoas não têm idéia do que é o Islã, pensam que estes manos que estão explodindo prédios são mulçumanos. Para mim, eles são tão mulçumanos como são cristãos os padres que estão molestando as crianças. O verdadeiro cristão e o verdadeiro mulçumano são o mesmo: adoram um Deus. O mundo ocidental depende demais da mídia e as pessoas têm medo do islamismo, mesmo sem saber nada. Cristo foi mulçumano. Se eu falasse mais disso, ia ser rotulado como terrorista aqui. O mais louco desse disco é que precisei da atenção dos EUA através de Londres. A América não quer ouvir e estou aqui há cerca de 30 anos. Eu tenho que voltar
para o outro lado do planeta para eles aceitarem isso", conta ao site The Quietus.
O disco coloca rastafaris, sufistas, americanos, londrinos e rappers no mesmo basement, em paz. Influências de rock pscicodélico e reggae são claras. Tomare que o mano continue rezando e fazendo suas rimas para o mundo. Ouça mais aqui.
Como de praxe passamos o dia-a-dia olhando para fora do país atrás de novidades, sempre com fé na safra dos grandes pólos de gravadoras. Ansiamos por novas apostas da WARP e da DFA. Sabemos tudo do wonky bass do Flying Lotus e decoramos os charts do neo-acid. No entanto, recebemos material de vizinhos dentistas, estudantes, advogados, jornalistas e todo tipo de gente que nas horas vagas tira um som daqui e dali.
Damos certa atenção, pouca coisa. Mas sempre ficamos putos quando um revelação só emplaca gigs depois de turnês e lançamentos na "Zoropa" ou "USA-me". Que atire a primeira pedra o DJ brasuca que já remixou ou mashupou Lulina, Seletores de Frquência, Curumin ou Guizado. E este último merece muita atenção da cena eletrônica. O trompetista paulistano é um dos produtores mais criativos da música (eletrônica?) made-in BR.
Não é brincadeira. Gui Mendonça imprime a máxima ruidosa do abstract hip hop na base do Guizado, trazendo sólos irreverentes à la Miles Davis. Não dá para rotular sua música. Muito louco seria ver gravadoras apostar em edits do Soul One, Rulio (aka Juliani), Prztz, Glocal e Renato Cohen para a obra-prima do inquieto trompetista. Torcida não faltará.
Ah! Os canais de áudio de algumas faixas do Guizado estão abertos e diponivel para download aqui. Tem som dele no podcast especial de glitch hop no blog feliciomarmitex.

Após a guinada pop de Roisinha Murphy, o sumiço do Massive Attack e o mergulho industrial do Portishead, muita gente colocou uma pedra sobre o trip hop. Mas acredite, há artistas soprando vida sobre a dissidência psicodélica do hip hop (ainda que por um viés bem mais futurista à la Scott Herren), como o Flying Lotus.
O rapaz, nascido na Califórnia, lançou seu segundo álbum, Los Angeles, em junho pela Warp, e estrelou festivais bacanas como o catalão Sónar. Entre minhas preferidas do disco está "GNG BNG", cheia de reviravoltas e tropeços embriagados.
O álbum reúne algumas participações especiais, como a dos vocais melancólicos de Gonja Sufi. Se você estiver à procura de uma sessão de psicoterapia musical, Los Angeles é uma boa pedida.


