A era Obama está oficialmente inaugurada. Como bem lembrou a conceituada revista The Atlantic em sua última edição, é o fim do tempo onde "americano" automaticamente significa "branco" no inconsciente coletivo.
Significa também que todo um repertório cultural de "negro" passa para o banco da frente, o que foi simbolizado pela performance de Aretha Franklin na posse do novo presidente.
Em Hollywood, as coisas já vinham caminhando nessa direção. Não é de hoje que Will Smith é o ator mais bem pago do cinema americano.
Depois de tantos anos de filmes falando de músicos brancos (The Doors, Bob Dylan, Rolling Stones, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis), seria muito interessante se a indústria do cinema deslanchasse uma onda de produções explorando artistas negros e suas histórias.
JAMES BROWN JÁ É
Algumas iniciativas já existem.
Spike Lee recentemente anunciou que está filmando a história do todo-poderoso James Brown (com Wesley Snipes no papel do "godfather of soul"). Sobram ingredientes (brigas, ego, drogas, genialidade, pioneirismo musical, sexo, gritaria) para uma produção empolgante.
Outra figura com uma biografia excitante, talentosa e tumultuada é Marvin Gaye. No ano passado, deu que havia dois filmes sobre o lendário soulman em produção. Não há notícias recentes sobre eles, mas vamos torcer para que pelo menos um veja a luz do dia.
No fim do ano passado, estreou nos EUA Cadillac Records, baseado na história do importante selo de blues de Chicago, Chess. Um dos focos do filme é a vida trágica da cantora Etta James. Quem faz seu papel é Beyoncé, escolha criticada por muita gente (compare as duas na foto). Jamie Foxx também está no elenco.
Beyonce também é a estrela de Dreamgirls, com personagens baseados em Diana Ross & Supremes. Mas é um filme fraco, que não faz jus à eletrizante trajetória da venenosa diva Ross e as batalhas de egos dentro das Supremes.
Jamie Foxx foi protagonista de uma das duas melhores biografias para cinema de artista negro até agora: Ray, sobre o gigante Ray Charles. A outra obra-prima é, claro, Bird, sobre o jazzista Charlie Parker, dirigida por Clint Eastwood.
DE MILES DAVIS A LITTLE RICHARD
Agora quem mais? De cara, dá pra pensar na turma da frigideira: Miles Davis, Sly Stone (foto), George Clinton e Rick James. Todos com "vidas locas" e obras monumentais que renderiam excelentes histórias para serem curtidas na sala escura. Prince e Michael Jackson também, mas convém esperar um tempo ainda. Qualquer um que se arrisque a contar alguma coisa minimamente próxima da realidade desses dois, certamente vai ser processado até o último par de meias.
E que tal Little Richard, cuja vida foi da gandaia descontrolada ao fanatismo religioso em poucos anos? De quebra, foi um dos carasw que inventou o rock'n'roll. E já que estamos nesse período, Chuck Berry seria um tópico bem legal também. Voltando ainda mais no tempo, valeria a pena focar o bluesman Robert Johnson e seu pacto com o demônio.
Dois membros-fundadores do soul, que estouraram da virada dos anos 50 e 60, Jackie Wilson e Sam Cooke, dariam boas sessões de música incrível com histórias intensas. Ambas terminaram tragicamente: Wilson teve um ataque cardíaco no palco, durante um show, bateu a cabeça e ficou em coma até morrer meses depois; Cooke foi morto pela gerente de um hotel onde estava hospedado depois que ele a atacou, numa história mal-esclarecida até hoje.
A ascenção e queda do império Motown também daria um filmaço. O mesmo vale para os selos Stax e Philadelphia International. Sem falar nas origens do hip hop no Bronx nova-iorquino: apesar de já terem inspirado o cult tosco Wild Style, ganhariam muito com uma produção de orçamento adulto e qualidade técnica de primeira.
E por que não um filme capturando o embalo sem freio da era disco, retratando a vida e carreira (s) de alguns de seus principais representantes? A locomotiva Chic, de Bernard Edwards e Nile Rodgers, movida a dinheiro, drogas e virtuosismo musical, seria hit de bilheteria na certa.

Barack Obama já é presidente.
Hoje é dia de esperança.

O texto abaixo eu publiquei ontem no Virgula, onde sou editor de notícias. Entrou no blog que fizemos da eleição americana, que tá recheado de informações e diversões relacionadas ao tema.
Destaco esse texto abaixo porque achei que seria de interesse para os frequentadores do rraurl.com
VITÓRIA DE OBAMA E INTERNET TÊM TUDO A VER
A vitória de Obama deve muito à internet. A internet deve muito à vitória de Obama. É fácil entender.
O candidato democrata usou os recursos da rede para alavancar sua campanha como nunca antes numa eleição.
Por outro lado, o resultado vitorioso de Obama dá muito moral à web como peça fundamental no jogo da política.
Depois de Obama, ficou claro o quanto a internet pode fazer por um candidato.
Veja aqui como rolou essa relação:
- Obama dependia muito do voto dos jovens, geralmente a parte do público que mais quer mudança, mas que andava bem descrente da política. Ele entendeu rapidinho que boa parte da geração mais jovem não usa mais os jornais, a TV ou o rádio para se informar. E se jogou na rede para atrair esses eleitores.
- Gastando muito menos do que gastaria em mídias tradicionais, apostando no marketing viral, a mensagem de Obama e a empolgação em torno dela se espalhou muito rápido;
- Desde o começo, a campanha de Obama apostou em comunidades no Twitter, Facebook e no MySpace. Estas bombaram desde logo, sempre com muito mais membros do que a do concorrente;
- Boa parte das doações da campanha de Obama não veio de grandes grupos e gente cheia da grana, mas sim de pequenos doadores. Eram pessoas que entravam no site da campanha e doavam 10, 20 ou 50 dólares.
- A campanha do democrata também comprou muitos anúncios em sites. Era possível achar propaganda de Obama por toda a internet;
- Todo o potencial do YouTube foi também usado pela campanha de Obama, com propagandas e respostas a ações de McCain. Tem um bem engraçado, feita como reação aos chamados "robôs" de McCain, gravações que ligavam para a casa das pessoas alertando sobre os "amigos terroristas" de McCain.
- No geral, a campanha de Obama também esteve o tempo todo atenta para contra-atacar qualquer difamação ou informação negativa dos adversários na internet;
- Obama também fez anúncios de sua campanha dentro de games, como o Madden, corrida que é um dos maiores sucessos online. Num dos cenários da corrida, aparecem outdoors com a cara de Obama;
- Os blogs de política tiveram uma influência enorme na campanha também, questionando, cobrindo aspectos que a mídia tradicional não pegava, dando vários furos. Grande parte desses blogs nem existia quatro anos atrás;
- A parte do eleitorado que usa a internet tende a ser muito mais desconfiada da propaganda política e tem várias maneiras de checar uma informação, em vez de confiar em um jornal ou canal de TV apenas. Fica muito mais difícil mentir ou distorcer os fatos numa campanha;
Tem muita coisa para falar sobre Obama e a eleição americana. Boa parte nem caberia neste blog, não seria exatamente a cara do Bate-Estaca
Mas tem um aspecto da candidatura de Obama (ele ganhando ou não) que para mim é uma das coisas mais tocantes e positivas de toda essa história: é a maneira como ele representa um ideal de multi-culturalismo, de integração, de oportunidade, de verdadeira democracia posta em prática.
Obama é mais que um candidato "negro" chegando ao poder; ele é, acima de tudo, "pós-racial", pois conseguiu que milhões votassem nele levando em conta quem é e não a cor de sua pele.
Ninguém pode negar que os EUA, apesar de todos os seus defeitos, ainda são um lugar que acolhe gente de todo o mundo e lhes proporciona oportunidades. São milhões de novos "americanos" a cada década. Alguns abrem lojas. Alguns realizam grandes negócios. Outros vão parar em Hollywood. Muitos conseguem começar uma vida normal, o que já é um sonho, se considerarmos os lugares de onde vem (meu primo que mora em Minneapolis, por exemplo, me contou uma vez sobre a grande comunidade de somalis que mora lá).
E alguns conseguem até chegar à Casa Branca.
Em quantos países do mundo isso é possível num espaço de tão poucas gerações? Bem poucos, creio eu.
E não é esse espírito democrático, inclusivo, aberto a quem vem de fora, que sempre foi a base da pista de dança? Foi assim na raiz da disco music (antes da elitização do Studio 54); foi assim em Chicago, nos primeiros clubes de house; foi assim na loucura do acid house, na Inglaterra; foi assim com as raves durante muito tempo em várias partes do mundo.
Não importa quem você é ou de onde é, você pode fazer parte ("yes you can"). Essa é a mensagem original da disco/música eletrônica/dance music (por mais que ela tenho sido esquecida/desvirtuada em tempos de "volta do carão"). E essa é a parte mais legal daquele conceito abstrato, transformado em chavão inócuo, que leva o nome de "sonho americano".
É o que permite que um filho de negro queniano com branca americana, ex-muçulmano criado na Indonésia, virar o presidente da nação.
GERAÇÃO PÓS-INTERNET
O blog do jornalista Luis Carlos Azenha tem um ótimo texto sobre porque a candidatura Obama representa um divisor de águas entre a geração mais antiga ("pré-internet") e a atual. Clareia bem.
Tá aqui.

Como as campanhas no Brasil estão muito chatas, vamos de eleições norte-americanas, sempre muito mais apetitosas. E quando o assunto é música, a única coisa em que Barack Obama e John McCain concordam é sobre Frank Sinatra, como mostra a revista Blender, que divulgou a lista com as dez músicas prediletas dos dois postulantes ao cargo de "homem mais poderoso da Terra". Contudo, os candidatos apontaram faixas diferentes do mais ilustre integrante do Rat Pack: "You'd Be So Easy To Love", pelo lado democrata, e "I've Got You Under My Skin", pelo lado republicano (eu iria de "Fly Me To The Moon").
A música predileta de Obama apontada pela Blender é "Ready Or Not", do Fugees. Já a de McCain (sem sacanagem) é "Dancing Queen", do ABBA. Aliás, os suecos aparecem também em terceiro na lista do republicano, com "Take a Chance On Me". Mas o cara até que acertou em algumas escolhas, como Beach Boys e Neil Diamond. Obama é certamente mais pop. Disse ter entre suas preferidas Rolling Stones, U2 e até Kanye West. E isso parece ser uma via de duas mãos: o democrata conta com a predileção de gente do showbizz musical como P Diddy, Bruce Springsteen, Stevie Wonder, Jeff Tweedy (do Wilco), Will Smith, e até os caras do Arcade Fire, que são canadenses, mas gostam de se meter nesse tipo de coisa (tem uma lista de apoiadores aqui).
E a escolha dos dois candidatos por Frank Sinatra é emblemática. O cantor tem história na política norte-americana nos dois partidos. Foi um aberto defensor democrata até o final dos anos 60, quando então mudou de lado. Após a 2.ª Guerra, apoiou grupos de esquerda - que nos anos 50 foram investigados pelo Macarthismo - e lutou abertamente contra o racismo.
Sua "virada política" começou em 1962, quando o então presidente John Kennedy anunciou que iria passar o fim de semana da Páscoa na casa de Sinatra em Palm Springs. Porém, Robert Kennedy, irmão do presidente e Procurador Geral dos EUA, estava em guerra contra o crime organizado. Um de seus alvos era o chefão da máfia Sam Giancana, que foi um dos apoiadores de Sinatra no início da carreira e que havia sido hóspede pouco tempo antes na casa do cantor.
Aconselhado pelo irmão, Kennedy declinou da visita e preferiu ficar na casa do cantor Bing Crosby. Sinatra, que via Crosby como um rival e que havia gastado uma pequena fortuna para reformar a casa para a visita, ficou possesso e começou a cortar relações com o partido, ao qual sempre doou dinheiro. Virou tão republicano que chegou a contribuir com U$ 4 milhões para a campanha de Ronald Reagan para a presidência em 1980.
Oriundo de uma época em que valia a pena ser audaz, Sinatra dizia, no fim da vida, que concordava com a maioria dos pontos de vista políticos dos republicanos, exceto o aborto.
Os dez mais de Barack Obama:
Fugees - "Ready Or Not"
Marvin Gaye - "What's Going On"
Bruce Springsteen - "I'm On Fire"
The Rolling Stones - "Gimme Shelter"
Nina Simone - "Sinnerman"
Kanye West - "Touch The Sky"
Frank Sinatra - "You'd Be So Easy To Love"
Aretha Franklin - "Think"
U2 - "City of Blinding Lights"
William - "Yes We Can"
O Top Tem de John McCain:
ABBA - "Dancing Queen"
Roy Orbison - "Blue Bayou"
ABBA - "Take A Chance On Me"
Merle Haggard - "If We Make It Through December"
Dooley Wilson - "As Time Goes By"
The Beach Boys - "Good Vibrations"
Louis Armstrong - "What A Wonderful World"
Frank Sinatra - "I've Got You Under My Skin"
Neil Diamond - "Sweet Caroline"
The Platters - "Smoke Gets In Your Eyes"
Via Gigwise.
As acirradas prévias do Partido Democrata norte-americano estão tão disputadas que já podem ser sentidos reflexos até mesmo na pista de dança mais próxima de você.
O discurso do candidato sensação Barack Obama festejando a vitória na Carolina do Sul rapidamente se transformou em hino de campanha, e não demorou para caírem na rede as mais variadas versões do novo hit eleitoral, que segue a linha "I have a dream".
A versão mais conhecida é uma de autoria do ex-Black Eyed Peas Will.I.Am. Recentemente, alguém pegou o discurso e o colocou em um eletro-house conhecido do produtor canadense Glenn Morrison, "Contact". Já teve DJ abrindo programa de rádio com o novo remix, portanto, não se assuste se você ver alguma pista entoando o coro "Yes, we can" na sua próxima noitada:


