(Leia a primeira parte deste post no blog da Clau)
Nada melhor para simbolizar essa Era do Dinheiro do que a cena a seguir, presenciada no cercado VIP de um clubão vistoso de Jurerê Internacional, em Florianópolis: rapaz bem-nascidíssimo, a família é uma das grandes fortunas de Santa Catarina, chacoalha um champanhe de R$ 5 mil. Enquanto espirra o valioso líquido pra cima, grita, com um sorrisão debochado na cara: "A crise não me afeta, a crise não me afeta".
Esse é só um exemplo, extremo sim, mas não incomum, de um novo conjunto de valores e práticas cada vez mais associados à música eletrônica. Na nova Era do Dinheiro, ninguém liga para underground, qualquer gota de subversão e idealismo foi eliminada e o bacana é ser PVT, exclusivo, "para poucos", selecionado, festas "só com gente bonita".
Sabemos que ostentação anda de mãos dadas com música eletrônica desde o auge dos super-clubes e de festas jet-setters em Ibiza lá nos anos 90. Mas sempre foi, Brasil incluso, umas das várias facetas de um universo que sempre carregou no peito a estampa da diversidade e da junção de tribos. Mas hoje parece que, na maioria dos lugares no Brasil, esta faceta que veste Prada foi a única que sobrou!
Parece óbvio que esse culto ao materialismo tem muito a ver com o momento que o Brasil viveu nos últimos três anos, de aumento da classe média (passou de 50% da população) e milhões de pessoas finalmente podendo comprar carro zero, computador, roupa na Oscar Freire e TV de Plasma. Justo, justíssimo! Que todos um dia possam fazê-lo neste país.
O problema é quando tudo isso passa a ser a coisa mais importante da vida, quando a vontade de adquirir se torna idolatria por objetos de luxo e grifes. Tem um comercial aí que fala de uma promoção onde o prêmio é uma TV de plasma. E o anúncio não mostra um cara beijando e acariciando uma TV de plasma?
Pois é, mas a grande realidade é que a crise está aí sim e, apesar de o Brasil ainda não ter sido pego em cheio (mas tudo indica que vai), pode ser que daqui a alguns meses, ela esteja afetando muito mais gente. Inclusive aqueles que hoje se acham (e andam) blindados.
Trazendo o "problema" para o universo da noite, mais especificamente o da música eletrônica: se hoje, o cercadinho VIP e o champanhe na mão valem mais do que o calor da pista de dança e as novidades que saem incessantes do case do DJ, tem alguma coisa muito podre no reino da Daslulândia. Em tempos de aquecimento global e crise, rasgar dinheiro deixou de ser coisa de louco. É que os cafonas também adoram!


